Quando me lancei no jornalismo desportivo em meados dos anos 80, no correspondente desk da Angop, logo como subeditor, após um mesito de estágio, e isto porque a velharia local não aceitou que fosse o editor, por indicação arrojada do cessante, o KB Gala, a caminho do Brasil para coadjuvar o João Melo na delegação da agência no Rio de Janeiro, foi a fazer previsões e rescaldos dos jogos do Girabola a cada jornada que passei a ser timidamente conhecido pelo público.
Devia ser bom, já que, mesmo tendo os seus próprios «previsionistas», como o Fontes Pereira e os saudosos Leonel Libório e Gil Tomás, o Jornal de Angola preferia publicar muitas vezes as antevisões e balanços assinados por mim que recebia da agência angolana de notícias. Era um grande jeito que o JÁ me dava, já que à época os jornalistas da Angop, como que trabalhando na clandestinidade, não eram conhecidos do grande público. Aliás, continuam a ser praticamente anónimos.
Bom, até que acabei por ir ter à pura redacção desportiva do Jornal de Angola em Outubro de 1987, como «reforço» da equipa que o Adelino Marques de Almeida, acabado de assumir a direcção-geral das Edições Novembro, fazia tenção de formar. Seria adjunto do Aleluia, que oficialmente já era vice do Victor Silva, que acumulava com a secção «Nacional». Aí abusei das previsões, qual delas a mais certeira.
Embora me pareça que o caso terá mais a ver com intuição, desconfio que as minhas antevisões futeboleiras terão ajudado de algum modo a que me tornasse hoje num dos «previsionistas políticos» eventualmente mais certeiros do país.
Eis alguns dos meus acertos mais sonantes:
1 - Fui o único «analista político» no mundo inteiro que acertou na previsão sobre a data da saída de José Eduardo dos Santos da vida política activa, exercício então cada vez mais complicado, devido às fintas que ele dava. Quando tudo apontava que tal só ocorreria em Abril ou Maio de 2019 e não mais até Dezembro de 2018, como o homem prometera, mas dava sinais de que não cumpriria, eis que surge a minha pessoa, remando surpreendentemente contra a maré, a vaticinar com grande arrojo que seria muito antes do final desse ano. Acho que na altura chegaram a me dar de xoné, mas o certo é que a minha profecia, BINGO, acabou por se cumprir: com cheiro à destituição, José Eduardo dos Santos deixaria finalmente a presidência do MPLA em Agosto, quatro meses antes do prazo indicativo, durante um congresso extraordinário do seu partido convocado expressamente para isso. Uff. Uns sorriram, mas muitos choraram.
2 - Entre 2018 e 2019, quando nada fazia pensar que assim não ocorreria, fartei-me de avisar que não valia a pena contarem com as eleições autárquicas em 2020, como João Lourenço parecia ter prometido, salvo o erro, durante a sua campanha eleitoral, portanto, antes de se ter tornado presidente. Era apenas mera intuição minha, pois nessa altura nem se imaginava que haveria de aparecer um bichinho na China que acabaria por se tornar na desculpa para o seu adiamento sine die. Não sei se foi de mau agoiro, mas na altura eu defendia (ainda defendo) que elas devessem ser realizadas em 2022, num só pacote com as presidenciais e as legislativas, após uma revisão constitucional que consagrasse as eleições gerais nesse modelo a que aludo, seguramente o mais apetecido pelo povo. Certo mesmo é que, tendo eu acertado mais uma vez, não houveram eleições autárquicas em 2020. Nem se sabe se serão ainda na década em curso.
3 - Esta quase ninguém sabe, mas será a mais brutal de todas: em 2017 a Comissão Nacional Eleitoral fez a «distribuição» dos deputados na Assembleia Nacional quase exactamente como eu previra dias antes numa publicação feita no meu quintal, portanto, ao alcance de quem quiser comprovar, embora não tenha como rebuscá-la agora por dificuldades técnicas decorrentes da cegueira. A minha projecção era a seguinte: 150 lugares para o MPLA, 50 para a UNITA e 20 para os demais partidos, coligados ou não. E, mais ou menos, assim aconteceu. Desconsego de saber se se tratou apenas de mera «coincidência».
Já agora, se me pedissem um vaticínio para a composição do parlamento após as eleições de 2022, tendo em conta todas as manobras retrocessuais, passe o neologismo, arriscaria o seguinte quadro: 180 lugares para o MPLA, 30 para a UNITA, 09 para a CASA-CE e 01 para o Quintino Moreira. Os restantes mais vale não perderem tempo e latim, uma vez que não constam na base de dados lá das computações.
Contudo, pela sobrevivência da paz e salvação da democracia, é melhor rezarem para que eu não venha a acertar também desta vez. Seria a melhor premiação, já que pode resultar desastroso para o país em definitivo uma nova maioria abusiva do coiso.
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