Pelas dez da manhã, a secretária de Jessi Madalena é menos um espaço de trabalho e mais um campo de batalha logístico. No portátil, o Google Maps brilha; post-its de duas cores projectam-se como marcadores de fronteira; o telemóvel está em alta-voz. “O senhor não tem jimboa hoje?”, pergunta ela a um chef em Huambo, a caneta suspensa no ar. A resposta é negativa — culpa da chuva, da terra, de um drama habitual.
Jessi suspira, com cortesia, porque não está a planear um almoço de família: está a desenhar uma viagem para um cliente septuagenário que segue uma dieta alcalina rigorosa e insiste em alimentos colhidos directamente da terra, água de nascente engarrafada em vidro e a rara folha de jimboa. A chamada seguinte é sobre cogumelos silvestres. Ao lado, uma chávena de café frio transpira no calor de Luanda. Esta, dirá mais tarde, é a parte que ninguém vê no TikTok: as horas de procura, confirmação e reconfirmação antes de o momento “Instagramável” sequer existir.
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Conheci Jessi Madalena no ecrã, através do Fly Podcast. Estava preparado para abandonar o episódio nos primeiros cinco minutos, quando a conversa inicial versou sobre lentes de contacto — não a “nova visão para Angola” em sentido figurado, mas os discos de plástico que se encurvam e ressecam se esquecidos na caixa. Decidi, com precipitação, que era mais uma celebridade angolana de oxigénio rarefeito: muito estilo, pouco fôlego. Mas, ao final da entrevista, a minha suposição tinha-se desmoronado.
Nascida na Lunda Norte, onde arranha-céus eram matéria de ficção televisiva, Jessi mudou-se para Luanda em criança e conheceu a crueldade escolar reservada aos “provincianos”. Recolheu-se dentro de si; anos mais tarde, voltou a abrir-se com a inclinação confiante de quem está pronta para saltar de uma plataforma de helicóptero para o ar aberto. Literalmente — um dia fez pára-quedismo em Cabo Ledo, preocupando-se mais com a segurança da peruca do que com a queda. “Vocês vão colocar algo na minha cabeça, não é? A minha peruca não vai ficar no céu”, disse aos instrutores, amarrando-a “com a força do outro”, por precaução.
A sua empresa, Angola Experience, não nasceu de um capricho, mas de cálculo. Observou o TikTok angolano saturar-se de danças, humor ligeiro e luxo inalcançável, e recusou-se a engrossar o ruído. Optou por críticas narradas de turismo e lifestyle, carregadas de detalhes práticos: preços, localizações, qualidade de atendimento e formas de lá chegar. Os primeiros vídeos fracassaram; estudou-os como experiências de laboratório. Quando um seguidor comentou, “Gostei, mas faltou o contacto”, passou a incluir números de telefone. Em pouco tempo, as visualizações transformaram-se em reservas; as reservas, em clientes habituais.
Os roteiros são totalmente personalizados. Para o cliente da dieta alcalina, procurou produtos no interior, informou restaurantes e construiu percursos à medida do seu cardápio. Não vende, porém, tudo: a Gruta das Sereias, em Cabo Ledo, é célebre e fotogénica, mas perigosa. “Tu não andas. Tu desces”, explica. Há ossadas — talvez de leões — e ela não arrisca levar turistas lá dentro.
O seu gosto é democrático. “Não há petisco melhor que pincho, franguite e cabrite”, diz, polvilhando gindungo sobre as espetadas enquanto fala de hotéis de luxo. Tascas de rua e alta cozinha partilham o mesmo discurso. Também explica porque é que o pára-quedismo pode custar até 600 mil kwanzas em Angola: combustível, operadores limitados, logística. A realidade do mercado molda até a adrenalina.
Vieram depois os reconhecimentos — nomeações, prémios — mas Jessi sabe que troféus não pagam salários. A receita, sim. Descreve-se não como influencer, mas como “criadora de conteúdos, promotora da valorização de Angola, empreendedora”. A influência, para ela, é efeito colateral, não produto. Evita vender sonhos inalcançáveis, preferindo experiências que o seu público possa realmente viver.
Comecei a ver o Fly Podcast pronto para desligar; acabei com vontade de reservar um tour e um pincho com gindungo. Mais do que um retrato de Jessi Madalena, o episódio foi prova do que o Fly Squad sabe fazer como poucos: transformar uma conversa num prisma pelo qual Angola se revela — o humor e a garra, as contradições e a graça.
Na história de Jessi Madalena, como em tantas outras que apresentam, vê-se a fascinante complexidade do país: um lugar onde saltos de pára-quedas e folhas de jimboa cabem na mesma frase, e onde a ambição se veste com o rosto de quem sabe que a verdadeira marca não é o algoritmo — é a pessoa.
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