Os Homens Dançam as Suas Ansiedades- Sousa Jamba



Uma faixa viral de Tsunami e Filho do Zia conseguiu algo invulgar: transformou a pista de dança numa espécie de confissão pública. À primeira audição, parece apenas um hino festivo—cativante, repetitivo, feito para as noites inquietas de Luanda. Mas quem escuta com atenção ouve outra coisa: um coro de ansiedades. Os homens da canção insistem que estão a ser “comidos.” Pode soar cómico, mas por detrás do riso esconde-se algo cru: o medo de serem consumidos, diminuídos, esquecidos. O homem não grita apenas que lhe comeram a banana dele; grita que lhe comeram mais do que isso—comeram-lhe a própria identidade.


Esta imagem do ser devorado tem raízes profundas em África , onde o receio simbólico da emasculação regressa ciclicamente. De tempos a tempos na África Ocidental, surgem pânicos em que os homens acreditam que, depois de um simples aperto de mão, os seus órgãos sexuais lhes foram roubados. Nos mercados, certas mulheres são acusadas de possuir um poder oculto capaz de fazer desaparecer as partes mais íntimas de um homem. No fundo dessas crenças persiste a convicção inquietante: as mulheres invejam secretamente os órgãos masculinos e, embora às vezes se aproximem para dar prazer, o receio mais sombrio é que o verdadeiro desejo seja morder, arrancar, retirar.


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Essas tremuras culturais infiltram-se facilmente na música. Em Angola, o refrão de estar a ser “comido” exprime não apenas o medo físico, mas a angústia existencial: perder a masculinidade é perder voz, presença e lugar no mundo. Nada disto é novo. Nos contos orais da região, a figura da mulher perigosa—a feiticeira, a devoradora, a bruxa—sempre corporizou a fragilidade do poder masculino. Hoje, a mesma imagem ressurge no calão urbano, nas conversas de esquina, nas canções que se tornam virais.


A repetição da faixa é reveladora. Freud chamava-lhe compulsão de repetição: o retorno incessante do trauma. E aqui cada refrão rodeia a mesma ferida—o homem a ser consumido por forças que não consegue dominar. O contexto angolano reforça o sentido. A precariedade económica mina a autoridade do provedor. A urbanização veloz desestabiliza os papéis patriarcais. As mulheres, pela educação e pelo trabalho, conquistam espaços outrora exclusivos dos homens. O equilíbrio muda, e os homens sentem-se expostos.


É por isso que a canção ressoa tão fundo. Não é apenas uma piada ou um ritmo para dançar; é um mapa da ansiedade masculina. As mulheres surgem descritas como vorazes, “loucas,” perversas—não porque o sejam, mas porque é mais fácil caricaturar do que confessar fragilidades. Rir das mulheres e chamá-las perigosas mascara uma verdade mais dura: os homens receiam a sua própria vulnerabilidade. O humor é nervoso, a bravata é fina. Por baixo dela lateja o mesmo terror que explode nos pânicos de roubo de órgãos: a ideia de que a masculinidade pode desaparecer com um toque.


Até a pista de dança se tornou palco desta luta. Antes espaço comunal de alegria, reaparece agora como campo de batalha. Cada passo afirma presença; cada balanço resiste ao apagamento. O corpo converte-se em escudo e súplica: aqui estou, ainda conto. Nesse espaço liminar, o ritmo alivia por instantes o peso. Mas quando a música pára, a ansiedade regressa.

Não devemos ridicularizar estes receios. Descartá-los é ignorar a verdade: os homens angolanos vivem uma crise de identidade. Mas as crises, quando encaradas de frente, podem transformar-se em pontos de viragem. A música já abriu a conversa. O passo seguinte deve ser mais amplo: escolas, igrejas, famílias precisam de perguntar o que significa ser homem numa sociedade onde o poder já não é unilateral.


Eis a questão maior. Durante séculos, mitos da África Ocidental advertiram os homens contra o apetite e o poder das mulheres. Hoje, a Angola urbana recicla essas imagens em nova linguagem. Mas, ao contrário do passado, as realidades descritas não são imaginárias. As mulheres estão nas universidades, nos escritórios, nos mercados e nos conselhos de administração. Já não são sombras na periferia da vida pública; são protagonistas centrais. A música capta o desconforto masculino perante este facto.


É por isso que esta faixa importa. A sua popularidade não repousa apenas no ritmo, mas na ressonância. Os homens reconhecem nela as suas inquietações. As mulheres ouvem a caricatura do seu poder crescente. E Angola, quer o admita quer não, escuta o som de um tecido social a ser refeito.


A masculinidade aqui não está a morrer. Está a evoluir. A questão é se continuaremos a troçar dos homens que se sentem “comidos,” ou se aproveitaremos a oportunidade para imaginar uma nova masculinidade—ainda orgulhosa, ainda enraizada, mas já sem medo de partilhar o poder.



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