Armas, Tractores e o Preço da Paz- Sousa Jamba

 


Há muitos anos, na Universidade de Londres, Mia Couto, grande escritor Moçambicano, contou como viu jovens soldados incapazes de abrir uma tablete de chocolate, mas rápidos a desmontar uma arma. A ironia era brutal: a doçura confundia-os; a morte era-lhes natural. Essa imagem regressa-me sempre que penso na paz em África e quando vejo rapazes encaminhados para cadeias provinciais, empunhando Kalashnikovs mais velhas do que eles — relíquias de metal que sobreviveram às ideologias que as financiaram.


A economia é tão crua quanto a imagem. Uma Kalashnikov custa cerca de dois mil dólares; um tractor de mão custa aproximadamente o mesmo. Uma compra fortifica o medo; a outra lavra o futuro. Uma mantém o homem em uniforme; a outra coloca-o de fato-macaco. Uma aumenta o cortejo de prisioneiros; a outra aumenta a procissão de camponeses.


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Penso em Katchilengue, a minha aldeia natal, perto de Katchiungo. Um patriota iniciou ali uma horta comercial, uma piscicultura e um rebanho respeitável. Certa noite, homens armados vieram para levar o gado; encontraram resposta dura e fugiram. Perto dali, uma tia minha viu todo o campo de mandioca ser arrancado por ladrões que chegaram em força, em kaleluias, de armas na mão. O simbolismo é preciso: sonhamos com agroindústria, convivemos com agrobandidagem; investimos em instrumentos de cultivo, enfrentamos instrumentos de pilhagem.


A Guerra Fria sedimentou este desequilíbrio. Nas décadas de 1970 e 1980, África tornou-se tabuleiro de xadrez: Washington e Moscovo, Havana e Pretória, despejaram caixas de fuzis e lança-foguetes com pasmosa facilidade. As armas viajaram mais depressa do que os livros; as balas foram mais baratas do que as sementes. Mesmo depois do Muro cair, o excedente circulou como moeda teimosa — mais barato comprar do que fundir. Em paralelo, a agricultura ficou para trás: cooperativas politizadas, serviços de extensão subfinanciados, regadios abandonados. Importar comida tornou-se hábito, até em terras férteis. O soldado prosperou; o camponês definou-se.

Há, contudo, contra-histórias. O Quénia transformou flores de corte num negócio de mil milhões; a Etiópia, entre convulsões, lidera o café africano; a Costa do Marfim e o Gana continuam a abastecer o cacau do mundo. Onde há organização, financiamento e proteção, a agricultura sobrevive ao barulho dos tiros. A paz não é só trégua; é sistema de incentivos.


Há pouco, um jovem engenheiro zambiano disse-me que são mineiros locais — homens e mulheres comuns — quem mantém as novas minas a funcionar. O que falta, lamentou, são estruturas financeiras propriedade de zambianos e financiadas por poupança doméstica. Dinheiro a circular não faltaria; falta literacia financeira. Sem ela, as minas continuarão estrangeiras e os lucros continuarão a escapar. O retrato serve para o campo: tal como tractores devem substituir fuzis, a competência financeira deve substituir a dependência. O desenvolvimento não é mistério; é decidir quem segura as ferramentas, quem gere o dinheiro, quem possui o futuro.


A paz raramente é sermão; quase sempre é cadeia de abastecimento. É o extensionista que chega de motorizada [com peças sobressalentes nas malas laterais]; é a pequena barragem que resiste à estação seca; é o microcrédito alinhado com ciclos agrícolas e não com manchetes. Substituir o fascínio da arma pelo estatuto discreto da colheita; substituir o desfile das milícias pela procissão dos mercados; substituir o mito do poder súbito pelo hábito da abundância paciente. Se o preço é o mesmo, a aposta não é: uma compra um amanhã mais ruidoso; a outra compra um amanhã mais longo.


A questão é cultural tanto quanto económica. E se milhares de jovens se fascinassem não com o peso de uma Kalashnikov, mas com a potência de um tractor? E se o rito de iniciação não fosse disparar para o céu, mas lavrar antes das chuvas? E se os heróis nos cartazes fossem agricultores de colheitas recorde e não comandantes de milícia? Para isso, precisamos de escolas que ensinem solo além de slogans; de igrejas e mesquitas que abençoem sementes com o mesmo fervor dos casamentos; de líderes fotografados não em farda, mas em botas de borracha.


A história de Mia Couto expõe o absurdo do nosso condicionamento: desembrulhar a doçura é difícil; desmontar a morte é automático. Podemos inverter a lógica — tornar o alimento familiar e a violência estranha; treinar mãos para desembrulhar chocolate com a mesma rapidez com que antes montavam armas.

O futuro não é abstracto. É uma escolha no mercado: arma ou tractor, quartel ou campo, silêncio do medo ou abundância de grão. Se África deseja viver mais tempo — e não apenas mais alto — terá de escolher, sempre, a segunda opção.


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