Como os Negócios Resolvem os Problemas- Sousa Jamba



Em 2022, seguia por terra pelo Leste de Angola, a caminho da Zâmbia. Da cidade até à fronteira, a estrada esfarelava-se em buracos; a viagem fazia-se de solavancos, poeira e paciência. Nesse vazio de infraestrutura prosperava uma economia paralela: proprietários de jipes — quase todos Toyota — que, do amanhecer ao cair da tarde, recolhiam passageiros, comprimiam corpos e bagagens e, por etapas, deixavam-nos junto ao posto fronteiriço. Do lado zambiano, tudo soava mais composto: filas que avançavam, autocarros que chegavam e partiam, alternativas de transporte modestas mas reconhecíveis. Do lado angolano, entre a cidade e a linha de fronteira, imperava sobretudo essa teia informal de donos de viaturas — um sistema de improviso e engenho que ocupava, com eficácia variável, o lugar que o Estado não preenchia.


Soube, entretanto, de confrontos violentos ocorridos antes entre operadores angolanos destes jipes e um grupo de comerciantes da África Ocidental que decidiu entrar no negócio. Alguns, sediados em Luena e em Lumbala N’guimbo, mandaram vir jipes do Extremo Oriente para disputar um mercado que rendia. A chegada desses concorrentes acendeu ressentimentos: temia-se uma quebra de preços num circuito habituado a tarifas altas.


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Eu próprio paguei cerca de 200 dólares pelo troço Lumbala N’guimbo–Mulundo. O esquema, no terreno, funcionava como um cartel: rotas repartidas, turnos tácitos, margens protegidas. Pela cadência das viagens, cheguei a calcular que um único operador conseguia, numa semana, faturar mais do que certas ligações aéreas regionais num percurso equivalente.

Havia, ainda, a engrenagem de conivências: proximidade com alguns funcionários e guardas fronteiriços; paragens “aleatórias” para atrasar quem não pertencia à roda; a fabricação de uma incerteza útil para manter as tarifas no topo. Não era bom para os passageiros; tampouco para a sanidade do mercado.

Os oeste-africanos, por seu turno, descobriram que podiam transportar mercadorias da Zâmbia para Angola pelo rio Lungwebungo — navegável em certos troços — e, por essa via, muitos produtos zambianos passaram a entrar do lado angolano. Lembro-me com nitidez: traziam sobretudo sementes hortícolas, baratas do lado zambiano, permitindo que famílias locais produzissem, em pequena escala, as suas próprias verduras. Também isso foi mal recebido por vários angolanos, que viam nos oeste-africanos uma intrusão no seu terreno.


Ora, o negócio não se esgota na disputa pela rota ou pelo preço. O negócio, no seu núcleo, é resolver problemas concretos. As pessoas precisam de educação decente para os filhos: aí está uma oportunidade. Precisam de melhorar as técnicas agrícolas, de aprender a gerir a água abundante para multiplicar a produção ou investir em pesca que permita exportar: outra oportunidade. A exploração da madeira deve ser feita de forma sustentável e responsável: mais uma oportunidade. O mesmo com a apicultura ou com o turismo de natureza, um turismo ecológico que preserve e valorize. Todas estas aberturas só fazem sentido se forem ancoradas nas carências reais das comunidades, garantindo que o negócio melhora de facto as suas vidas e gera valor; produtos e serviços pensados à medida das necessidades locais podem depois, em certos casos, ganhar escala regional ou até global.


No Leste, vi com clareza: o que falta são campos de futebol, material desportivo, uma infraestrutura mínima para a prática coletiva. Até aí há negócio possível.

O problema, contudo, está noutro lado: na cultura de gestão financeira. Muitos africanos do Oeste criaram sistemas internos de financiamento, ligados a laços étnicos e religiosos, que funcionam como bolsas de empréstimos, investimentos e apoios, sustentados por práticas de disciplina: orçamento rigoroso, reinvestimento dos lucros, contenção nos gastos. Já entre nós, o lucro é muitas vezes visto como ocasião de exibição: mais uma mulher, mais uma amante, um consumo ostensivo. E, inevitavelmente, a pressão da família: basta perceberem que há dinheiro, e logo surgem exigências.


Recordo o caso de um amigo em Huambo que, durante a pandemia, ganhou muito com o envio de alimentos para Luanda. Ao romper da madrugada, tinha um batalhão de parentes à porta, todos a pedir a sua parte.


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