Reconheço no Kuduro um género nascido de uma realidade concreta; a sua pátria é a malha urbana de Angola, onde o corpo busca afirmar-se por meio do movimento, e onde a velocidade das batidas, a colagem de sons e a fragmentação da palavra restituem, com fidelidade singular, a descontinuidade do quotidiano. 

A música emerge do improviso e, por isso mesmo, traz consigo uma riqueza própria; não se mede por padrões alheios, tal como não se mede a grandeza de uma língua pelo número de vocábulos, mas pela energia que a anima e pela precisão com que diz o mundo. Aproximo-me, assim, do Kuduro com respeito e curiosidade. Julgo que o falecido Nagrelha  foi um poeta de méritos invulgares, talvez não plenamente reconhecido pelos seus pares nem pela cidade que o viu crescer.


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Deste reconhecimento decorre outra reflexão, ligada ao tumulto em torno do DJ Tsunami; e também à receção de canções como “Comeram a Minha  Banana”, que encontraram eco por tocarem um nervo exposto da masculinidade. Aí se condensam fantasias e ansiedades antigas: a sensação de perda de potência simbólica, o receio de que o poder do outro converta o desejo em fraqueza, o velho léxico freudiano em torno do falo, sempre às voltas com figuras maternas e femininas que, na imaginação do homem, detêm um poder de ferir aquilo que ele julga essencial. Não é uma tese moralista; é o registo de um mal-estar cultural que a música, por vezes, apenas devolve com nitidez.


Foi com esse pano de fundo que segui a entrevista do DJ Tsunami no Fly Podcast. O que primeiro sobressai é a simplicidade pedestre do discurso, compreensível talvez na biografia, mas insuficiente na responsabilidade pública; mais grave do que a pobreza vocabular é a ausência de autocrítica, essa mistura de narcisismo e ignorância que, avançando a par, forma companhia perigosa.


 Quando interpelado sobre a presença de uma jovem, claramente menor, em vídeos de teor insinuante, não revelou a maturidade mínima para entender a gravidade do que descrevia; falou com leveza onde se impunha gravidade, e naturalizou gestos que, pelo seu carácter e pelo contexto, exigiriam pudor, distância e amparo. 


A notoriedade não suspende a ética; antes a agrava.

Existem registos da jovem Sílvia, demasiado exposta para a sua idade, a exibir uma insolência performativa que denuncia, mais do que rebeldia, abandono adulto. O problema central não é a adolescente que experimenta limites; é o círculo de adultos que não os estabelece. 


Penso na experiência de educar filhas num país onde o castigo corporal é vedado e onde a disciplina deve nascer de firmeza e cuidado; a lição, em qualquer latitude, é a mesma: orientar, proteger, sustentar. Uma comunidade que ama as suas crianças ergue fronteiras claras e oferece braços firmes. Sílvia continua a ser uma criança; merece apoio, estrutura e afeto, sobretudo quando o seu comportamento põe à prova a paciência dos adultos.


Resta sublinhar o óbvio que, por estranho que pareça, tantas vezes se omite: quando está em causa uma menor, a presença de um homem adulto deve significar tutela e contenção, nunca aproveitamento nem exibicionismo. É triste que, enquanto nos preocupamos com a vulnerabilidade da Sílvia, surja, por detrás, um adulto que não parece medir as consequências. 


A condição de figura pública exige mais do que talento e fama; exige a consciência de que cada gesto tem peso, e de que a primeira responsabilidade é proteger quem ainda não sabe proteger-se.


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