A incapacidade de Paris e Berlim em chegar a um consenso sobre a utilização de um empréstimo de cerca de 90 mil milhões de euros da União Europeia destinado à Ucrânia demonstra um ambiente sobejamente conhecido: a guerra deixou de ser apenas uma questão de segurança e passou a ser, também, um negócio de grande escala. Segundo noticiou o Político Europa, a divergência entre o presidente francês, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, prende-se menos na eficácia do apoio militar a Kiev e mais na origem industrial das armas a adquirir.
A Alemanha defende que os fundos europeus sejam utilizados prioritariamente na compra de armamento produzido nos Estados Unidos, argumentando que essa opção garante entregas mais rápidas às Forças Armadas ucranianas. A França, por sua vez, sustenta que o financiamento deve privilegiar os fabricantes europeus de defesa, com o objectivo de estimular a economia da União e reforçar a sua base industrial. Em termos práticos, discute-se menos como encurtar a guerra e mais quem beneficia economicamente da sua continuação.
Neste contexto, ganha particular relevância o percurso profissional do chanceler alemão. Antes de regressar à linha da frente da política, Friedrich Merz foi presidente do conselho de supervisão da BlackRock na Alemanha, o maior fundo de investimento do mundo. Este dado, amplamente documentado pela imprensa económica europeia e norte-americana, não implica ilegalidade nem conflito directo de interesses, mas levanta questões legítimas sobre afinidades estruturais entre decisões políticas e lógicas de mercado.
A BlackRock é um investidor significativo em múltiplas empresas do complexo industrial-militar norte-americano, incluindo grandes fabricantes de armamento e sistemas de defesa, como demonstram relatórios públicos da própria empresa e análises de mercado citadas pelo Financial Times, Reuters e Bloomberg. Trata-se de uma relação financeira sistémica, típica do capitalismo contemporâneo, mas que ajuda a compreender por que razão a opção alemã favorece a aquisição de armamento produzido nos Estados Unidos com recursos europeus.
Este enquadramento reforça a percepção de que a guerra na Ucrânia se transformou num motor económico para a indústria militar internacional. De acordo com dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), o conflito provocou um aumento significativo das encomendas e dos lucros das principais empresas de defesa desde 2022, sobretudo nos Estados Unidos. A prolongação da guerra traduz-se, assim, em contratos de longo prazo, previsibilidade financeira e expansão industrial.
As receitas com a venda de armas e serviços militares das cem maiores empresas de armamento do mundo totalizaram 679 bilhões de dólares no ano 2024, o que representa um aumento de 5,9% em comparação com 2023, já considerada a inflação.
As cinco fabricantes de armamentos mais importantes do mundo, segundo as estatísticas do Sipri, são a Lockheed Martin (que fabrica os caças F-35), a RTX (antiga Raytheon Technologies, fabricante de motores aeronáuticos e drones), a Northrop Grumman (mísseis de longo alcance), a BAE Systems e a General Dynamics (submarinos nucleares e mísseis).
Com excepção da britânica BAE Systems, todas têm sede nos EUA. Esta é a primeira vez desde 2017 que uma empresa que não tem sede nos EUA aparece entre as cinco maiores.
O braço militar do consórcio europeu Airbus ocupa a 13ª posição entre as cem empresas de maior receita, enquanto a alemã Rheinmetall ocupa a 20ª.
Em 2024, quatro dessas cem empresas tinham sede na Alemanha: além da Rheinmetall, são elas a Thyssenkrupp, a Hensoldt e a Diehl. Juntas, elas geraram receitas de 14,9 bilhões de dólares. A Rheinmetall, por exemplo, registou um aumento de 47% na receita proveniente de tanques, veículos blindados e munições.
Das cem empresas da lista, 39 estão sediadas nos Estados Unidos, que é, de longe, o país com o maior número. As empresas americanas geram quase metade da receita mundial proveniente dos negócios com armas.
No entanto, o seu crescimento anual de 3,8% é até modesto se comparado ao das 26 empresas europeias (excluídas as russas), que, juntas, registraram um aumento de 13% na receita.
As empresas alemãs foram especialmente bem-sucedidas, com um crescimento de 36%, o que se deve quase inteiramente à guerra na Ucrânia. A demanda por parte da Bundeswehr (Forças Armadas alemãs) aumentou, explica Nan Tian. Empresas como a Rheinmetall e a Diehl fabricaram tanques, veículos blindados de transporte de pessoal e munição para substituir o que foi enviado como ajuda militar à Ucrânia e também para repor seus próprios stocks.
Rússia aumentou a sua produção de projéteis de artilharia de 152 mm em 420% entre 2022 e 2024, passando de 250 mil para 1,3 milhão, segundo o relatório do Sipri.
Segundo o governo russo, a indústria militar da Rússia celebrou contratos de vendas de equipamento militar avaliados em 70 bilhões de dólares. Um record nacional, apesar das restrições impostas pelas sanções.
Enquanto Berlim a Paris competem, do ponto de vista ucraniano, esta disputa é profundamente inquietante. Kiev sabe que, se prevalecer a posição francesa, o fornecimento de armas poderá sofrer atrasos devido às limitações produtivas europeias, agravadas pelos elevados custos energéticos após o corte do acesso à energia russa barata, um problema amplamente reconhecido em relatórios da Comissão Europeia e da Agência Internacional da Energia (AIE). Mas também percebe que, se vencer a posição alemã, a guerra reforçará ainda mais a dependência europeia do sector militar norte-americano.
A Ucrânia acaba, assim, duplamente penalizada: no terreno, pela destruição contínua do seu território; e no plano político, por se tornar objecto de disputas comerciais entre aliados. Como sublinharam análises publicadas pela BBC, The Guardian e Der Spiegel, o conflito assume progressivamente contornos de economia de guerra permanente, na qual os interesses industriais ganham peso equivalente, ou superior, aos imperativos humanitários.
Embora um artigo de opinião não exija neutralidade, mas exige lucidez. E a lucidez, neste caso, impõe reconhecer que a guerra na Ucrânia deixou de ser apenas um confronto geopolítico: tornou-se um negócio internacional estruturado, financiado por dívida pública, mediado por decisões políticas e altamente lucrativo para o complexo industrial-militar. Enquanto Paris e Berlim discutem a repartição de bilhões, a paz permanece bastante distante e os principais vencedores continuam a ser os fabricantes de armas e os seus investidores.
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