No Altice Arena, em Lisboa, “Temas”, de Gilmário Vemba, é stand-up de grande sala com ambição de praça pública: ruidoso, íntimo e, na maior parte do tempo, certeiro. Vale o tempo do público, mesmo quando se estende além do necessário, porque alcança algo raro numa arena: a sensação de conversa viva, com risco, nervo e pulso.
A noite começa antes da palavra. Entra um grupo a dançar uma coreografia urbana, de rua, nervosa e luminosa. A cena tem uma delicadeza política que dispensa cartazes: é como se Lisboa recebesse um lembrete sereno de que este léxico, estes passos, esta música no corpo já fazem parte do seu repertório. O detalhe que afina a imagem é um bailarino branco a executar, sem caricatura e com rigor, movimentos de rua angolanos. E, por trás deles, emerge uma figura subtil e bela, que fecha o prólogo com uma espécie de pudor. Não se explica nada; mostra-se.
Depois vem o monólogo maratonista, feito de episódios que se encadeiam como quem atravessa cidades de noite. Vemba abre pela escala e pelo espanto de estar ali; faz questão de lembrar a aritmética do caminho: há pouco tentava encher uma sala de oitenta lugares e agora vem “acabar” no Altice Arena. A partir daí, o espetáculo assenta numa persona muito definida: o imigrante angolano hiperobservador, pai cansado e atento, feliz com a liberdade de dizer o que pensa e, ao mesmo tempo, desconfortável com as pequenas tragédias de um país estável.
O contexto trabalha a favor. Vemba aponta setores, mede distâncias, transforma a arquitetura da arena em matéria cómica. Esse gesto explica a estratégia: ele não procura uma comédia sofisticada no sentido académico. Procura fazer uma sala gigantesca sentir-se uma sala.
Aqui entra o ofício. O mecanismo principal é a cadência de acumulação: frases curtas, repetidas, puxadas por um refrão de rua; depois, um desvio brusco para uma imagem inesperada. Quando fala do pão em Portugal, começa na simplicidade da receita, sobe para a caricatura do excesso e desemboca numa deriva quase teológica. Há também callbacks discretos: ideias que regressam com outra roupa. Quando contrasta o facto de criticar o governo na televisão e, no dia seguinte, voltar ao trabalho com o que seria impensável em Angola, não está a distribuir moral. Está a usar a comparação como motor narrativo: faz rir e, logo a seguir, obriga a ajustar a postura na cadeira.
A performance é física, vocal e muito “de sala”. Vemba pede palmas, testa a plateia, lê o ar; usa o silêncio como mola, não como contemplação. Numa arena, isso conta. E há momentos em que coreografa a sala, como quando convoca as lanternas dos telemóveis para filmar um vídeo. É um gesto utilitário e, ao mesmo tempo, um comentário sobre o presente: a comédia como acontecimento e como conteúdo.
Na escrita, o melhor do espetáculo está nas miniaturas domésticas. A secção sobre creches acerta porque reconhece, com crueldade afetuosa, a hipocrisia coletiva dos pais: aplaude-se não por arte, mas por sobrevivência emocional. A parte sobre disciplina e a passagem para Portugal faz outra coisa: pega num tema culturalmente carregado, a “surra” como memória e trauma, e transforma-o em debate familiar, com a avó a reescrever o passado e as crianças a regressarem da escola com “o número” para denunciar o pai. É comédia, sim; mas é também retrato de choque de normas.
Quando o espetáculo se alonga, alonga-se sobretudo por confiança na própria voz. Há blocos que se repetem na intenção; a energia, que é virtude, pode virar ruído para quem prefere uma arquitetura mais limpa. Ainda assim, mesmo as divagações tendem a acabar no sítio certo, porque Vemba tem faro para o último passo.
Em termos temáticos, “Temas” é um mapa de identidade em trânsito. É sobre ser pai e ser filho ao mesmo tempo; sobre o corpo a envelhecer em países diferentes; sobre a liberdade de falar e o preço de ter falado; sobre a racialização aprendida tarde por uma criança e o embaraço de explicar ao miúdo a violência de uma palavra fora do contexto certo.
O que distingue Vemba, aqui, é a escala: levar intimidade para uma arena sem a converter em discurso motivacional. Há também uma linhagem clara. Vê-se o instinto de Richard Pryor na maneira de transformar ferida em narrativa; ouve-se o chicote de Chris Rock; adivinha-se a elasticidade de Dave Chappelle na arte de entrar num tema social, sujá-lo de riso e sair com uma pergunta presa ao ouvido. Não é imitação; é herança metabolizada. E, no continente africano, essa compressão do humor afro-americano, misturada com tempero de rua angolano, é raríssima. Tirando Trevor Noah, custa apontar outro comediante que faça essa fusão com tamanha naturalidade. O mais curioso é que muitos angolanos ainda não mediram o grau de sofisticação que está ali: veem a superfície, perdem a biblioteca.
O fecho é onde a arena se humaniza. Vemba chama a família ao palco: o irmão, a mulher do irmão, os filhos. A gratidão é genuína, dita sem truque. E depois vem a procura dos pais, mãe e pai vindos de Angola para verem o filho no espetáculo maior da sua vida. Há um instante de busca no meio da multidão, quase uma pequena angústia. Quando os encontra, o orgulho deixa de ser apenas doméstico. Torna-se coletivo. Por momentos, não é só a família que triunfa; é Angola inteira.
Há, infelizmente, um pós-espetáculo menos nobre. A popularidade atrai canais no YouTube que recortam excertos, pescam cliques, transformam trabalho alheio em renda própria. Apoiar seria simples: dirigir o público para os canais oficiais, respeitar a autoria, celebrar sem saque.
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