Tanzânia nunca ganhou um jogo na CAN, mas está nos oitavos de final



A lucrativa venda dos direitos televisivos tornou o campeonato tanzaniano num dos mais competitivos em África, apenas atrás de Egito, Marrocos, África do Sul e Argélia. 

 

A seleção ainda não atingiu o nível dos países rivais, mas começa a dar sinais de evolução. Dois empates na fase de grupos colocaram a Tanzânia inesperadamente nos oitavos de final da CAN. No entanto, em quatro participações, ainda não conseguiu qualquer triunfo.

 

Desde que vimos Alphonce Felix Simbu sagrar-se campeão do mundo numa maratona decidida ao sprint que descobrimos que na Tanzânia tudo é vivido no limite. A CAN juntou outro exemplo ao portfólio.

 

O remate de Feisal Salum bateu o guarda-redes da Tunísia mais pelo efeito surpresa do que pela técnica aplicada no tiro de fora da grande área. A igualdade (1-1) estava restabelecida e ninguém se incomodou com isso. A Tanzânia encontrava-se virtualmente nos oitavos de final pela primeira vez na história e um ponto também não complicava o apuramento da Tunísia num Grupo C que foi vencido pela Nigéria.

 

A partir do golo tunisino, escassearam momentos relevantes. Angola estava cheia de comichões ao constatar que a Tanzânia não ia sair derrotada, condição necessária para que os Palancas Negras se apurassem como um dos melhores terceiros classificados. A vaga acabou preenchida pela seleção do Este africano que vai agora defrontar o anfitrião Marrocos.

 

O inédito apuramento da Tanzânia para a fase a eliminar da competição aconteceu ao fim de quatro participações. A estreia na CAN deu-se em 1980, seguindo-se uma pausa de 29 anos interrompida em 2019, na edição realizada no Egito. Após nova folga, em 2021, os tanzanianos qualificaram-se pela primeira vez para dois torneios consecutivos (2023 e 2025) e, uma vez que o país será sede da vindoura CAN, a sequência continuará viva.

 

O reforço de aparições não se refletiu em proficuidade. Os empates contra Uganda (1-1) e Tunísia (1-1) fizeram o histórico de 12 jogos realizados na prova passar a registar cinco empates e sete derrotas, tendo o mais recente dos desaires acontecido contra a Nigéria (2-1).

 

Vitórias são artefactos ainda por colecionar. O argentino Miguel Gamondi tornou-se selecionador da Tanzânia a pouco mais de um mês e meio do início da CAN. Cinco dias depois do anúncio ser oficial, estava a divulgar os convocados para a competição. 

 

Descreve-se como “o primeiro a defender o futebol africano” e o currículo denuncia o motivo. Trabalhou em alguns dos maiores clubes do continente, tais como o Wydad AC, o Espérance de Tunis ou o Mamelodi Sundowns. Nos tempos mais recentes, entreteve-se no tetracampeão da Tanzânia, o Yanga, motivo pelo qual escolher à pressão os mais competentes jogadores do país terá sido uma tarefa ligeiramente mais fácil.

 

O Yanga compete na Liga dos Campeões africana assim como o Simba, rival da cidade de Dar es Salaam com o qual partilha o Estádio Nacional Benjamin Mkapa. Na Taça Confederação, uma espécie de Liga Europa, encontram-se o Singida Black Stars e o Azam. 

 

A quantidade de participantes nas competições internacionais só encontra paralelo no Egito, em Marrocos e na Argélia. Este trio de países do norte de África junta, em termos de seleções, dez vitórias na CAN.

A Tanzânia, segundo o ranking das ligas, está em quinto lugar, mas tal não se reflete na competitividade da seleção. O impulso para tamanho progresso foi dado pela venda dos direitos televisivos do campeonato. Em 2021, a Azam TV, que opera no Este africano, assegurou a transmissão da liga durante dez anos, pagando cerca de €83 milhões que foram investidos nos clubes. A disponibilidade financeira das equipas aumentou e o campeonato começou a receber mais jogadores estrangeiros vindos de outros países africanos.

 

A maioria dos jogadores presentes na convocatória de Miguel Gamondi para a CAN integram o o campeonato local. No entanto, começam a surgir casos de aproveitamento da diáspora. Haji Mnoga e Tarryn Allarakhia nasceram em Inglaterra e o primeiro até foi internacional jovem pela seleção dos Três Leões. Nenhum deles tem mais de 20 internacionalizações, demonstração da recente aposta num recrutamento mais alargado.

 

Numa entrevista que deram em conjunto ao “The Guardian”, Haji Mnoga relembrou que, nos primeiros tempos de seleção, “muitos dos jogadores não queriam falar inglês” com a dupla. Ao início, foi “um pouco estranho”, porque os colegas sabiam falar inglês, simplesmente não o queriam fazer.

 

Alasdair Howorth, jornalista que acompanha afincadamente o futebol africano, fez um comentário junto do “The Athletic” que pode explicar a estranheza demonstrada para com os jogadores que atuam nos escalões inferiores do futebol inglês: “Nos anos 60, o Quénia e o Uganda seguiram uma direção neoliberal, capitalista e voltada para o Ocidente, enquanto a Tanzânia adotou uma postura nacionalista e socialista. Isso reflete-se no futebol deles.”

O futebol tanzaniano vive um momento de inédita alegria, contrastando com o estado do país. Em novembro, Samia Suluhu Hassan venceu as eleições presidenciais com 98% dos votos, um resultado amplamente contestado pela oposição e que levou a confrontos violentos. O partido opositor Chadema transmitiu às principais agências noticiosas que 700 pessoas terão sido mortas nos confrontos entre protestantes e autoridades. Entre 29 de outubro e 3 de novembro, a internet deixou de funcionar no país.

A ONU condenou “as violações generalizadas e sistemáticas dos direitos humanos”, mostrando preocupação com as “alegadas centenas de execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados e detenções arbitrárias em massa contra manifestantes, figuras da oposição e membros da sociedade civil”.


Tribunal Expresso


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