Ética e Liderança na Administração Local: Fundamentos para uma Governação Responsável- Teixeira Dala



A administração local é o espaço onde o Estado ganha rosto e voz. É ali que decisões deixam de ser abstractas e passam a afectar directamente a vida das comunidades. Por isso, a qualidade da liderança pública nesse nível é determinante para o desenvolvimento, a justiça social e a confiança institucional.

Esta série propõe uma reflexão estruturada sobre os pilares éticos da governação local, abordando o poder como serviço, o mérito, a legitimidade, a cultura institucional, a transparência e a responsabilidade política.

1. O Poder como Serviço e Não como Privilégio

O poder público não é um troféu pessoal nem um instrumento de afirmação individual. É uma responsabilidade delegada pela sociedade.

O filósofo John Locke defendia que o poder político existe para proteger direitos e promover o bem comum. Já Jean-Jacques Rousseau reforçava que a soberania pertence ao povo, sendo os governantes depositários temporários dessa vontade colectiva.

Quando o poder é entendido como serviço:

Há proximidade com a comunidade;

As decisões são orientadas pelo interesse público;

O líder presta contas com naturalidade.

Quando é visto como privilégio:

Instala-se o distanciamento;

Surgem favoritismos;

A confiança pública enfraquece.

2. Mérito versus Favoritismo: O Desafio da Imparcialidade

O mérito baseia-se em competência, qualificação e desempenho. O favoritismo, por sua vez, sustenta-se em relações pessoais e influências informais.

O sociólogo Max Weber defendia que a administração pública moderna deve assentar na racionalidade legal e na impessoalidade.

Quando o mérito prevalece:

Valoriza-se o profissionalismo;

Fortalece-se a justiça administrativa;

Consolida-se a confiança social.

Quando o favoritismo domina:

.Desmotiva-se a equipa técnica;

.Compromete-se a eficiência;

.Enraíza-se a desigualdade.

A escolha entre mérito e favoritismo é, antes de tudo, uma escolha moral.

3. Autoridade e Legitimidade na Gestão Pública

Autoridade é o poder formal conferido pelo cargo. Legitimidade é o reconhecimento social de que esse poder é exercido com justiça.

Max Weber identificou a autoridade legal-racional como base da administração moderna. Contudo, a legalidade formal não basta. A legitimidade constrói-se na prática diária:

.Transparência nas decisões;

.Coerência entre discurso e ação;

.Respeito pela comunidade.

Sem legitimidade, a autoridade torna-se mera imposição.

4. Cultura Institucional: Entre o Medo e a Confiança

A cultura institucional define o ambiente interno da administração.

Na cultura do medo:

Há silêncio e subserviência;

Erros são ocultados;

A inovação é bloqueada.

Na cultura da confiança:

O diálogo é incentivado;

Problemas são enfrentados com transparência;

A equipa sente-se parte da solução.

O cidadão sente os efeitos dessa cultura na qualidade do serviço prestado.

5. Transparência como Fundamento da Democracia Local

Transparência significa tornar claros os critérios, processos e resultados da gestão pública.

Montesquieu defendia a limitação e fiscalização do poder como condição essencial para evitar abusos.

Pois sem transparência:

.Crescem suspeitas;

.Fragiliza-se a .credibilidade;

.Aumenta a desconfiança social.

Com transparência:

.Consolida-se a legitimidade;

.Fortalece-se a participação cidadã;

E Reduzem-se conflitos institucionais.

6. Responsabilidade Política e Prestação de Contas

Todos os pilares anteriores convergem na responsabilidade política.

Ser responsável é:

Assumir decisões;

Corrigir erros;

Explicar escolhas;

Priorizar o bem comum.

A prestação de contas não é mero procedimento burocrático. É um acto de respeito à sociedade.

Se o poder emana do povo, deve retornar a ele sob a forma de explicação, clareza e responsabilidade.

Conclusão Geral

A boa governação local assenta num ciclo virtuoso:

O poder é serviço;

O mérito orienta decisões;

A autoridade conquista legitimidade;

A cultura institucional promove confiança;

A transparência sustenta a democracia;

A responsabilidade política garante integridade.

No fim, o poder é passageiro. O legado é permanente.

Uma administração local ética não se constrói apenas com leis e regulamentos, mas com consciência, compromisso e liderança responsável.


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