Factos e Boatos- Sousa Jamba



A morte do Deputado da UNITA Eliseu Monteiro desencadeou, como tantas vezes sucede quando a dor pública se cruza com a impaciência do nosso tempo, uma vaga de especulações tão abundante quanto malsã. Antes mesmo de o luto encontrar a gravidade que lhe é própria, já as margens ruidosas das redes sociais se enchiam de insinuações, suspeitas e construções febris, erguidas à pressa sobre o terreno movediço da conjectura. Já não é a verdade que se procura em primeiro lugar, mas a versão mais inquietante, mais dramática, mais apta a incendiar espíritos impressionáveis. E assim, onde deveria haver silêncio, recolhimento e prudência, instala-se o fervilhar doentio do boato, que se alimenta menos de factos do que da excitação de os substituir.


Também os funerais, sobretudo quando irrompem no tempo cru da perda e quando a morte ainda não foi interiormente compreendida por aqueles que a sofrem, podem tornar-se ocasiões de particular vulnerabilidade. Há, nesses dias pesados, uma espécie de vertigem moral. As pessoas movem-se entre o choque e a incompreensão, entre a necessidade de explicar e a incapacidade de aceitar. E é justamente nesse intervalo, tão humano quanto perigoso, que as especulações encontram terreno fértil. O espírito, ferido e desamparado, torna-se mais permeável ao rumor, mais receptivo à narrativa conspirativa, mais inclinado a acolher, não a explicação mais sólida, mas a que melhor acomoda a desordem íntima deixada pela morte. Em momentos assim, a dor nem sempre esclarece; por vezes, obscurece.


E o mal não se fica pela confusão. As especulações que nascem em circunstâncias como estas, assim como o gesto rápido de apontar o dedo, podem dar origem a injustiças imensas. Quando uma comunidade, ferida e aturdida, se põe à procura de culpados antes de se pôr à procura da verdade, abre facilmente caminho a erros cruéis, acusações temerárias e condenações morais pronunciadas sem prova, sem freio e sem remorso. Tenho visto dessas injustiças e sei quanto podem ser devastadoras. Não consolam os vivos, não honram os mortos, não aproximam ninguém da verdade. Fazem precisamente o contrário. Longe de curarem a ferida, agravam-na. Deixam atrás de si longas estações de divisão, amargura e cólera. Alimentam desconfianças duradouras, corroem laços, semeiam uma hostilidade que, por vezes, sobrevive longamente à própria morte que lhe deu origem. E, nalguns casos, insinuam até um desejo de vingança, silencioso mas persistente, que continua a arder quando o luto já deveria ter encontrado outra linguagem, mais sóbria, mais digna e mais humana.


Depois da morte de um deputado, não faltam, infelizmente, aqueles que procuram tirar proveito da comoção. Há sempre quem veja na tristeza colectiva uma oportunidade para semear a divisão, intoxicar o espaço público com insinuações e empurrar uma comunidade enlutada para a suspeita mútua. Surgem então vozes empenhadas em explorar a dor para sugerir fracturas internas na UNITA e para lançar, de forma oblíqua mas calculada, a ideia de que a própria organização, ou certos elementos no seu interior, estariam por detrás da morte. É precisamente este género de operação, sinuosa e moralmente torpe, que deve ser recebido com a máxima reserva. Não porque a política seja um jardim de inocência, mas porque a gravidade de uma acusação exige, mais do que em qualquer outra circunstância, prova, rosto e responsabilidade.


Quase sempre, tais insinuações não vêm assinadas por pessoas de rosto descoberto, nem são sustentadas por quem aceite responder pelo que diz. Circulam por meio de pseudónimos, perfis falsos, contas sem identidade verificável, páginas obscuras e pequenos portais que imitam a aparência do jornalismo sem lhe honrarem a disciplina, a responsabilidade ou a coragem. Para quem conhece os velhos métodos da propaganda, há aqui qualquer coisa de dolorosamente familiar: a fonte invisível, a acusação sem prova, a citação sem origem clara, o veneno lançado à distância, sem assinatura e sem consciência. Tudo isso deve ser lido não como contributo para a verdade, mas como parte de uma estratégia de perturbação. Não se trata de informar. Trata-se de confundir. Não se trata de esclarecer. Trata-se de obscurecer. Não se trata de servir os factos. Trata-se de explorar a vulnerabilidade emocional de uma comunidade ferida, empurrando-a para narrativas que dividem, corroem e intoxicam.


Convém, por isso, dizer as coisas com toda a nitidez. Perfis anónimos, páginas sem responsabilidade editorial, vozes que se escondem para insinuar o que não conseguem provar, nada disso merece confiança automática. Muito pelo contrário. Em momentos como este, merecem distância crítica e firme recusa. Porque a sua função, demasiadas vezes, não é servir o bem comum, mas espalhar boatos, ampliar a confusão e endurecer os corações. São presenças sem rosto e, por isso mesmo, frequentemente sem escrúpulos; presenças frias, desumanizadas, perniciosas, que encontraram nas redes sociais um terreno fértil para prosperar à custa da ansiedade alheia. Não acompanham a dor para a aliviar. Rondeiam-na para a explorar. Não se aproximam do luto por compaixão. Aproximam-se dele como quem vê, na fragilidade dos outros, uma ocasião propícia à intervenção maliciosa.

É por isso que, nestas horas, a cautela não é fraqueza. É dever. A contenção não é cobardia. É lucidez. E a tentação de explicar tudo depressa, de imputar culpas sem exame, de entregar a dor aos fabricantes de enredos, deve ser combatida com a maior firmeza. Há momentos em que a única resposta moralmente séria é avançar devagar, pesar cada palavra, desconfiar do excesso de certeza e tratar tudo com o máximo cuidado possível. Perante a morte, sobretudo perante uma morte que fere uma comunidade inteira, a prudência não diminui a verdade: protege-a. Protege-a do ruído, protege-a da manipulação, protege-a dessa pressa obscura que tantas vezes se disfarça de zelo, mas que, no fundo, não passa de outra forma de irresponsabilidade.


E talvez seja esse, ao cabo de tudo, o mais elementar dever dos vivos diante dos seus mortos: não acrescentar à violência da perda a violência da injustiça; não permitir que a memória de quem partiu seja arrastada para o mercado turvo das suspeitas interesseiras; não consentir que a dor legítima de uma comunidade seja convertida em instrumento de agitação, divisão e ressentimento. O luto merece mais do que isso. A verdade exige mais do que isso. E a dignidade de Eliseu Monteiro, agora entregue à memória e ao juízo da história, exige de todos, amigos, adversários e simples observadores, uma disciplina moral que o nosso tempo nem sempre cultiva, mas de que, precisamente por isso, mais necessita.


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