MILCA CAQUESSE: A LIDERANÇA QUE SE AFIRMA NA CONSTÂNCIA- ORLANDO PACA



Fecha-se a cortina do aclamado Março Mulher. E, como quase tudo o que é calendário, fecha-se depressa demais para aquilo que pretende celebrar. É nesse intervalo, entre o que foi dito e o que ainda fica por dizer, que me ocorre uma inquietação serena: como traduzir em palavras aquilo que, na verdade, só a vida ensina?


Sou um homem moldado por uma mulher. Não o digo como frase feita. Digo-o porque foi no olhar atento da minha mãe, dona Inês Rodrigues, que aprendi o primeiro sentido de autoridade. Talvez por isso nunca me inquietou privar com ela. Inquieta-me, sim, não estar à altura da sua exigência.


Não me lembro do ano exacto em que a conheci. A memória, às vezes, guarda melhor as sensações do que as datas. Sei apenas que a conheci no espaço político, entre jovens militantes do Comité Provincial da JMPLA. Lembro-me de uma conversa nossa durante o CANFEU do Namibe, em 2014. Falámos sem pressa, como quem não precisa de impressionar. Não houve ali nenhuma necessidade de se impor, estava eu envolvido num diálogo com uma camarada atenciosa, focada no que lhe dizia.


Mais tarde, já em Luanda, a vida colocou-me no seu eixo de responsabilidades quando foi nomeada Administradora do Distrito do Sambizanga, num momento em que já eu exercia o cargo de Administrador do Bairro Ngola Kiluanje. O reencontro já não foi casual, trazia o peso do cargo e a vigilância própria de quem sabe que será observado. 


Ao recebê-la no nosso bairro, confesso: havia em mim um nervosismo contido. Preparei tudo com rigor, mas sentia o peso silencioso da responsabilidade. Quando se aproximou, o tempo pareceu ajustar-se. Estendeu-me a mão. E, naquele instante, algo se alinhou. O seu gesto encontrou o meu com firmeza suficiente para dissipar qualquer hesitação. Não houve palavras de circunstância. O que ali se estabeleceu foi mais fundo: uma confiança inaugural, limpa, sem reservas. Como se, naquele contacto breve, tivesse ficado selado um entendimento, o de trabalhar, corresponder e não falhar.


E foi assim que começou. A recém-chegada ao Sambizanga, não demorou a revelar ao que vinha. À mesa com a comunidade, mostrou-se à altura dos desafios que o distrito, com as suas nuances, apresentava. E, a mim, seu subordinado, ensinou-me a conversar sem formalidades. A proximidade foi acontecendo sem esforço. Havia dias que éramos líder e liderado; noutros, colegas; por vezes, quase família. 


Do Sambizanga ela saiu, eu saí também. Ambos amadurecemos, assumimos novas responsabilidades na administração pública. Mas, entre nós, algo permaneceu: a admiração mútua. Há momentos em que me aconselho com ela como quem procura um norte. Porque há pessoas cuja autoridade não impõe, afirma-se naturalmente no que são.


Ao pulsar mais amplo da cidade, sempre a vi com a mesma postura: proactiva, incansável, presente. Chamam-lhe “general”, “dama-de-ferro”, tentativas de traduzir a sua capacidade de enfrentar qualquer situação. Eu prefiro algo mais simples e mais justo: uma mulher comprometida com a causa de servir. Porque servir é isso, estar onde se é preciso.


Com ela, no trato, aprendi que a amizade não se decreta. Amadurece. E, com o tempo, aprendemos que nem toda convivência se transforma em laço verdadeiro. Mas quando acontece, reconhece-se pela consistência dos gestos, pela permanência nas dificuldades, pela palavra que não falha. A lealdade, essa palavra tantas vezes repetida, raramente é compreendida. Não nasce de afinidades fáceis, nem de conveniências. Nasce do tempo. Do confronto com as dificuldades. Da forma como alguém permanece quando seria mais cómodo afastar-se. E ela é assim: presente. É uma advogada de formação, servidora pública por missão e amiga por inteiro.


Há dias, porque sempre há, em que tentam semear ruído na nossa relação de amizade. Insinuações, dúvidas, pequenas fissuras que procuram testar a solidez de qualquer irmandade. E, nesses momentos, nunca encontrei nela dramatização. Apenas clareza.


— Só te enviei para tomares conhecimento. Não ligues. Temos foco. Vamos trabalhar — verbaliza sem discursos longos. Sem desgaste inútil. Apenas um alinhamento simples com o essencial. E, de repente, tudo volta ao seu lugar.


Milca Caquesse é o tipo de líder que, muitas vezes, diz sem usar a palavra. E levo comigo, em todos os caminhos que a vida política e profissional me apresenta, uma lição que aprendi com essa minha chefe: a liderança não se afirma em gestos grandiosos, mas na constância dos pequenos. No Ngola Kiluanje, no Sambizanga ou na Maianga, a minha admiração por ela apenas amadurece.


E, minha chefe, permita-me que lhe diga directamente como quem a observa de perto: continua. Continua a ser a governante do contacto, da escuta, do incómodo necessário. Continua a caminhar onde é preciso caminhar, não para ser vista, mas para ver, resolver e servir.


Ao fechar o mês Março, não encerro uma celebração, prolongo uma reflexão. Há mulheres que não cabem num mês. E Milca Caquesse é uma delas. Não pelo cargo que ocupa, mas pela forma como exerce a sua liderança. 



Orlando Paca/ Administrador Municipal da Maianga


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