Muitos de nós reparámos, com não pequena incredulidade, no quase absoluto silêncio do MPLA perante a morte de Jesse Jackson. No exacto momento em que o ANC e outras formações africanas de sensibilidade progressista o reclamavam, com inteira justiça, como aliado moral da luta contra o apartheid, Luanda mal pareceu encontrar uma frase, um gesto, uma fórmula mínima de reconhecimento. E o contraste, mais do que eloquente, é indiscreto. Diz alguma coisa sobre o legado de Jackson; mas diz ainda mais sobre a relação do próprio MPLA com a sua memória, com os seus antigos combates, com os aliados incómodos que o defenderam quando defendê-lo tinha um preço.
Para se medir a espessura deste silêncio, é preciso recuar aos anos oitenta, quando Angola era uma das grandes arenas da Guerra Fria e um dos seus mais cómodos simplificadores morais. Sob Ronald Reagan, Washington fez do Dr Jonas Malheiro Savimbi e da UNITA uma montra exemplar da chamada Reagan Doctrine: armar, financiar e santificar insurgências anticomunistas onde quer que servissem o enredo estratégico americano. O Dr Savimbi era recebido e celebrado como combatente da liberdade; a Casa Branca e o Capitólio tratavam-no quase como figura de catecismo. Em contrapartida, o governo do MPLA surgia caricaturado como mera prótese soviético-cubana, marxista por vício, ilegítimo por definição, indigno até daquela normalidade diplomática que, entre Estados, vale por vezes menos por estima do que por decoro.
Nesse clima, defender o MPLA na vida pública americana não era um capricho exótico. Era uma escolha onerosa. Jesse Jackson fez essa escolha. Viajou para Angola em meados da década de oitenta, encontrou-se com responsáveis do MPLA, observou um país ferido pela guerra e regressou falando com uma clareza que, naqueles anos, não era habitual nem cómoda. Criticou a política americana de desestabilização, denunciou o apoio militar e encoberto à UNITA, viu na complacência perante a agressão regional sul-africana não uma subtileza geopolítica, mas um escândalo moral. Não adoptou a linguagem esterilizada dos memorandos. Chamou às coisas nomes duros. Falou em “guerra psicológica”. Advertiu que apoiar a UNITA equivalia, em substância, à prática de terror de Estado sobre civis angolanos. E insistiu em algo que, em Washington, parecia quase indecoroso: os Estados Unidos deviam reconhecer a soberania angolana e tratar com o governo reconhecido de Luanda, não com a fantasia ideológica erguida em torno do Dr Savimbi.
A posição de Jackson não nasceu, de resto, no vazio. Inscrevia-se numa corrente mais vasta da América negra, onde encontramos nomes como Andrew Young, sectores do Congressional Black Caucus, a TransAfrica e outros círculos de reflexão e activismo que olhavam para a África Austral com menos ingenuidade imperial e bastante mais memória histórica. Para essa corrente, a política americana na região não era movida por um súbito zelo democrático, mas por uma mistura de paranoia da Guerra Fria, paternalismo estratégico e longa acomodação ao apartheid. Apoiar o Dr Savimbi, diziam eles, era prolongar uma guerra devastadora, alinhar uma vez mais com a arquitectura regional de Pretória e sacrificar vidas angolanas ao teatro moral do anticomunismo.
Foi nesse terreno que Jackson se tornou importante para o MPLA. Não porque fosse seu porta-voz, muito menos seu cortesão. Precisamente porque não o era. A sua autoridade moral não vinha do aparelho angolano, nem de qualquer oficina de propaganda, mas do peso acumulado no movimento dos direitos cívicos, nas igrejas negras e na vida pública americana. Quando o Dr Savimbi percorreu os Estados Unidos no final dos anos oitenta, um dos seus objectivos era conquistar líderes afro-americanos, por perceber que parte da continuidade do apoio americano dependeria da neutralização de resistências dentro dessa esfera. Mas encontrou um espaço público em que vozes influentes, Jackson entre elas, já tinham denunciado a UNITA e posto em causa toda a dramaturgia que fazia do Dr Savimbi o democrata e do MPLA um mero fantoche soviético.
Assim, Jesse Jackson ajudou a criar um ambiente em que os lóbis da UNITA encontravam dificuldades em conquistar a opinião afro-americana. No universo dos direitos cívicos, das igrejas negras e de certa intelligentsia militante, o MPLA tendia a ser visto, com reservas e críticas, sem dúvida, mas ainda assim como o governo de Angola, resistindo à guerra regional do apartheid e a mais uma tentativa ocidental de remodelação forçada de um Estado africano. Ao ligar Angola à luta mais ampla contra o racismo, o neocolonialismo e a exploração económica, Jackson ofereceu ao MPLA, no discurso da América negra, uma espécie de legitimidade moral que Luanda jamais teria obtido, por si só, nos corredores oficiais de Washington.
É isso que torna mais estridente o silêncio de hoje. Ninguém exige ao MPLA que canonize Jesse Jackson. Ninguém lhe pede que esqueça críticas posteriores, nem reparos relativos à corrupção, ao autoritarismo ou à decadência interna. Mas uma coisa é não santificar; outra, bem diferente, é não agradecer. Um movimento que outrora procurou, valorizou e mobilizou redes internacionais de solidariedade, intelectuais, jornalistas, homens de Igreja e activistas, isto é, gente que se expôs por Angola quando Angola não rendia prestígio, parece hoje incapaz até de nomeá-los com sobriedade. A omissão não é acidental. Tem o ar triste de um hábito.
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