O meu amigo de infância, o soba Chibwika, cuja autoridade se exerce numa região fronteiriça contígua a Angola, transformou uma convicção pessoal numa verdadeira disciplina comunitária: todas as crianças em idade escolar devem aprender inglês desde muito cedo. Aprenderão igualmente lunda, porque essa língua pertence ao tecido mais íntimo da sua identidade colectiva e da memória da sua comunidade; mas o inglês, no seu entender, é o instrumento que lhes poderá abrir caminho no mundo.
O pai do actual soba foi professor durante décadas, ainda no período colonial, e falava um inglês de notável qualidade, não por exibicionismo, mas com clareza, segurança e pleno domínio. Esse património, feito de rigor e de confiança, transmitiu-se ao filho. O próprio soba Chibwika trabalhou na Namíbia e na África do Sul, onde ascendeu até se tornar uma figura sénior da área de marketing numa grande estrutura empresarial sul-africana. Só mais tarde regressou à terra de origem para assumir o lugar que lhe cabia. É difícil não reconhecer, nessa trajectória, a lógica profunda da sua convicção.
Há poucas semanas, conversava eu com o soba, e impressionou-me a gratidão viva com que evocou uma mulher de quem ainda hoje fala quase como quem nomeia uma antiga benfeitora: a esposa de um missionário britânico que, com rigor e persistência, lhe ensinou inglês quando ele era ainda muito novo. Havia ali método, exigência, disciplina. Havia também a percepção, raramente formulada com tanta nitidez, de que uma língua pode alterar o destino de uma criança.
Esse aprendizado precoce ajudou-o enormemente. Nos anos em que trabalhou pela África Austral, o domínio sólido do inglês deu-lhe uma vantagem clara, por vezes decisiva. Em reuniões, negociações, contactos profissionais e contextos de elevada responsabilidade, a segurança com que falava permitia-lhe entrar melhor, compreender mais depressa e responder com firmeza. Não se tratava apenas de falar; tratava-se de não ficar à porta enquanto os outros decidiam.
Quando estive em Chibwika, ficou-me a impressão das coisas raras: crianças de seis anos a falar um inglês quase irrepreensível e, mais do que isso, a falá-lo com evidente prazer. Não era uma correcção mecânica, nem um exercício escolar sem alma; era familiaridade, desembaraço, gosto. Via-se que a língua já não lhes pesava como dever, mas lhes saía com a naturalidade de quem começou cedo a habitá-la.
Esta realidade contrasta dolorosamente com aquilo que se encontra do lado angolano da fronteira. Ali, muitos jovens das aldeias não falam português. E o mais inquietante é que essa limitação não se circunscreve às zonas remotas: mesmo em certos sectores da elite local, o domínio da língua portuguesa revela-se, por vezes, hesitante, insuficiente para as exigências de uma vida pública, institucional ou profissional de maior amplitude.
Convém, por isso, libertarmo-nos de um reflexo colonial mal resolvido: a ideia de que o português pertence a Portugal. Não pertence. Angola adoptou-o como língua oficial e fez dele uma língua sua, chamada a unir o que a geografia dispersou e o que a história fragmentou. O português não deve funcionar como senha social de pequenas minorias, mas como instrumento de coesão nacional, ponte entre províncias, regiões e destinos. É ele que impede que o nascimento periférico condene alguém ao silêncio. É ele que permite que o filho da margem fale ao centro sem baixar os olhos.
Nada impede que se replique, do lado angolano, aquilo que já se vê em Chibwika: ensinar português desde muito cedo, com método, continuidade e ambição, não como imposição burocrática, mas como esforço paciente de integração e de alargamento de horizontes. Isso não significa suprimir as línguas locais. Defender o lunda não obriga a condenar a criança ao confinamento linguístico. O verdadeiro desafio consiste, justamente, em dar-lhe mais de uma chave para abrir mais de uma porta.
A grande lição de Chibwika é esta: o inglês pode oferecer mobilidade regional e confiança internacional; o português pode dar integração nacional e voz cívica; as línguas locais dão raiz, memória e pertença. Entre umas e outras não há contradição necessária; há, isso sim, uma arquitectura de possibilidades. Uma política séria para as regiões fronteiriças de Angola deveria começar exactamente aí: não na retórica vazia do desenvolvimento, mas no trabalho paciente de formar crianças capazes de habitar, com igual dignidade, a aldeia, a nação e o mundo.
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