Will Smith em Angola- Sousa Jamba

 


Compreendo perfeitamente a excitação provocada pela presença de Will Smith em Angola. Compreendo-a porque Will Smith não é uma celebridade qualquer. É um homem de talento invulgar, que começou no rap, soube transformar carisma em carreira e acabou por se impor como actor de primeira grandeza. Veio a Angola promover a corrida de barcos eléctricos de que é coproprietário. Nada disso é desprezível; nada disso pede ironia automática. O mundo aprende a reconhecer figuras assim porque, por trás do nome, houve trabalho, disciplina e um ecossistema inteiro preparado para converter aptidão em fama: distribuidores, publicistas, estúdios, canais de difusão, agentes, produtores, uma máquina cultural capaz de pegar numa centelha e fazê-la arder à escala planetária.


O que me inquieta não é a admiração. É a forma como ela, entre nós, por vezes se manifesta. Há qualquer coisa de embaraçoso quando adultos respeitáveis recorrem à inteligência artificial para fabricar a ilusão de que andaram a conviver com o actor americano. Há qualquer coisa de ainda mais embaraçoso quando o entusiasmo deixa de ser simples prazer e começa a parecer um pedido de legitimação, como se, por breves minutos, tocar o brilho do outro nos absolvesse da dificuldade de produzir brilho próprio. O aplauso, quando perde a medida, converte-se numa pequena cena de auto-diminuição; e o que se vê ali, por baixo do encantamento, é um ligeiro défice de auto-estima, uma insegurança colectiva que não se declara, mas se insinua nos gestos.


Por vezes, confesso, sinto um desconforto semelhante ao ver a forma como certas elites africanas narram a visita de celebridades americanas. Recordo-me de Mike Tyson em Kinshasa. De repente, figuras de alto escalão largavam o que tinham em mãos para o acompanhar: a ministra dos Negócios Estrangeiros, o chefe da polícia, outros responsáveis seniores, todos atrás dele com o ar febril de quem fugiu da escola porque uma vedeta passou na rua. O problema não era Mike Tyson. O problema era a cena: questões de Estado, a compostura do cargo, a dignidade do poder público, tudo posto entre parênteses para seguir uma celebridade estrangeira, como se a soberania pudesse esperar enquanto o espectáculo passava. Era, francamente, uma imagem humilhante.


Dito isto, talvez valha a pena admitir uma verdade menos austera: sim, por umas horas, que se faça o telefonema ofegante, a vénia apressada, a bajulação, o quase desmaio patriótico; que a nação inteira se comporte, se assim quiser, como um grupo de crianças de dez anos fulminadas pela chegada da estrela. Talvez isso cumpra uma função. Talvez haja nesse excesso uma catarse útil, uma descarga nervosa, um modo de expulsar antigos demónios de inferioridade, fascínio colonial e fome de validação externa. Seja. Façamos a cena toda, mas não façamos dela um destino.

Porque a questão séria começa precisamente quando a febre baixa. Nessa altura, convém olhar para Will Smith não como objecto de veneração, mas como lição estrutural. Ele não nasceu do vazio. Foi produto de um ambiente cultural que sabia detectar talento, protegê-lo, expô-lo, vendê-lo, amplificá-lo. A pergunta decisiva, por isso, não é como tirar uma fotografia com Will Smith, nem como aproximar-nos do seu resplendor por osmose social. A pergunta decisiva é outra: que instituições, que circuitos, que escolas, que produtores, que meios de difusão, que cultura de risco e de exigência são necessários para que Angola produza figuras cujo nome faça os americanos parar, olhar e aplaudir?


A Nigéria oferece, neste ponto, um exemplo luminoso. Os seus músicos chegam hoje aos Estados Unidos e são recebidos com estatuto de super-estrelas. Não entram pela porta do exotismo educado; entram pelo centro da sala. E não foi o acaso que os colocou ali. Também não foi um longo exercício de adoração do sucesso alheio. Foi o contrário. Em vez de se ajoelharem diante do panteão dos outros, olharam para dentro. Escutaram os seus ritmos, as suas línguas, as pulsações da rua, a riqueza do próprio arquivo cultural. Mediram forças e fragilidades, perceberam oportunidades e ameaças, fizeram, de forma intuitiva, mas profunda, uma espécie de exame espiritual e estratégico de si mesmos. E depois transformaram isso em obra. Em som. Em presença. Em estilo. Em confiança. Deram ao mundo qualquer coisa que vinha das suas entranhas e que, por isso mesmo, era nova. Qualquer coisa a que o mundo não conseguiu resistir.


É essa a lição que importa reter quando o delírio passa. Menos deslumbramento emprestado; mais ambição interior. Menos pressa em tocar a manga do astro; mais determinação em construir as condições para que um astro saia daqui. Menos veneração; mais arquitectura. Porque também nós temos um reservatório de talento, de voz, de ritmo, de inteligência cénica, de imaginação popular, de capacidade de invenção. Também nós merecemos ser aplaudidos. Também nós merecemos produzir artistas, actores e músicos cuja chegada a Nova Iorque, Los Angeles ou Atlanta provoque nos americanos o mesmo frémito que a chegada de Will Smith provoca hoje em Luanda.


No fim, é isso que mais me interessa. Não saber se fomos vistos pela estrela, mas saber se somos capazes de produzir luz própria. Um país pode acolher uma celebridade sem se apequenar. Pode admirar sem se rebaixar. Pode entusiasmar-se sem perder a espinha. E, depois do suspiro, do telefonema, da fotografia e do delírio breve, há uma só pergunta que separa povos espectadores de povos criadores: que temos nós, afinal, que mereça aplauso?


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