Adeus Tia Helena- Sousa Jamba



A Tia Maria Helena Pires Marcos, nascida a 4 de Outubro de 1934, em Benguela, partiu. Foi mãe da Dr.ª Miraldina Jaka Jamba, viúva  do meu saudoso irmão mais velho, Jaka Jamba. Mas há mortes que, recusando-se a ser apenas escuridão, deixam atrás de si uma luz demorada. A dor chega, sim, e instala-se; porém, ao lado dela, persiste uma claridade íntima, como se a vida, antes de fechar de vez a porta, ainda nos obrigasse a deter o passo e a contemplar o bem que por ali passou: a generosidade sem ruído, a firmeza mansa dos dias, a hospitalidade elevada à dignidade de princípio.


No princípio de 1976, na Escola da Fátima, no Huambo, rebentou um tiroteio violento entre soldados. Não era ainda a longa e tenebrosa mecânica da guerra civil em toda a sua extensão, mas já trazia consigo o seu ensaio feroz, o seu aviso seco, a sua pedagogia do medo. Eu, tomado de pânico, com o coração a bater-me desordenado no peito e as pernas já entregues ao instinto da fuga, corri para a casa da Tia Helena. Foi o primeiro lugar seguro que me ocorreu. Na imaginação do menino que eu era, certas casas possuíam uma autoridade silenciosa contra o mal. Bastava que existissem.


E, de certo modo, assim era. Naquele tempo, ninguém passava pela casa da Tia Helena sem comer. A mesa não era adorno de sala; era abrigo. Era regra. Era, sem necessidade de palavra alguma, uma afirmação de ordem moral: o mundo podia romper-se lá fora, mas ali dentro continuava a haver comida quente, voz serena, presença protectora. Depois da refeição, o Mano Zeca levou-me de volta a casa, ao Bom Pastor. Ainda hoje a cena permanece viva, intacta, quase táctil: o estampido, a corrida, o refúgio, o prato servido, a mão segura que me devolveu ao lar.


O meu irmão Jaka Jamba e a Mana Dina  estavam então em Portugal, de onde, a partir da universidade, haviam entrado na luta de libertação. Eram nomes que não se diziam alto. Havia, em redor deles, o peso da cautela e o frio das paredes que parecem escutar. O Tio Marcos, pai da Mana Dina,  chegara a ser preso político.  O colonialismo não era apenas uma estrutura distante, administrativa ou militar. Entrava casa adentro. Sentava-se à mesa. Instalava-se na pausa antes de um nome, no abaixamento de voz, na inquietação que percorria as famílias quando os filhos partiam para parte incerta. E, no meio disso, a Tia Helena continuava a pôr a mesa. A comida saía da cozinha às horas certas; a voz mantinha a sua compostura; a porta não se fechava. Havia nisso uma forma funda de resistência, sem palavra de ordem, sem legenda, sem registo nos papéis do poder. Mas quem ali entrava lia-a imediatamente: havia calor humano onde o tempo queria impor frio.


Vinte e sete anos depois, já em paz, voltei a aparecer-lhe à porta, no Huambo. Foi como se o intervalo dos anos não tivesse existido. Algumas pessoas possuem esse raro dom de conservar intacta a continuidade do afecto. A casa respirava aquela desordem jubilosa das casas verdadeiramente vividas: netos por toda a parte, correria, vozes, claridade. E havia a sopa. A sopa da Tia Helena não era apenas sopa. Tinha estatuto de remédio e reputação de prodígio doméstico. Parecia servir para tudo: para o cansaço, para a gripe, para os abatimentos do corpo e, quem sabe, também para certas fadigas da alma. Talvez curasse porque, antes de aquecer o estômago, aquecia a existência. Há panelas ao lume que fazem mais pela dignidade humana do que muitos programas, discursos ou tratados.


Recordo ainda um episódio que, para mim, resume quase tudo. Uma amiga jornalista, Zoe Eisenstein, antiga correspondente da BBC em Angola, seguia de avião para o Lubango quando a aeronave sofreu uma grave avaria mecânica e foi obrigada a uma aterragem de emergência no Huambo. Depois do susto, ainda com aquele estremecimento que fica no corpo quando a morte passa perto, a Zoe dirigiu-se à casa da Tia Helena, a quem eu já apresentara. E a porta abriu-se como sempre se abria: sem cálculo, sem reserva, sem aquela prudência seca que tantas vezes empobrece as relações humanas. Em Londres, onde eu então me encontrava, senti um orgulho fundo, quase solene. No coração de Angola, longe de qualquer palco, de qualquer representação oficial, estava uma mulher firme e serena, uma dessas pessoas que sustentam, sem alarde, a parte mais nobre de um povo.


Há quem faça discursos. Ela fazia casa. Há quem procure grandeza nos gestos visíveis. Ela encontrava-a na colocação exacta de uma chávena, na beleza discreta de um prato bem posto, num quarto limpo a cheirar bem, numa refeição trazida da cozinha com aquela gravidade doméstica que nenhuma retórica consegue imitar. Quando a história aparecia ruidosa, armada, brutal, ela respondia com a disciplina luminosa do cuidado. Não ficou nas fotografias oficiais. Não deixou frases lapidares para a memória pública. Mas foi gente como ela que impediu que a vida, em tempos difíceis, se tornasse inteiramente inabitável.


A sua partida leva consigo mais uma testemunha da nossa infância, mais um rosto que nos viu frágeis, pequenos, por acabar. Para quem, como eu, passou largos anos fora, empurrado pelas convulsões da história, figuras como a Tia Helena eram muito mais do que parentes. Eram lugar de regresso. Eram arquivo vivo. Eram prova de pertença. Diziam-nos, sem o dizer, que existira de facto um bairro, uma casa, um círculo de afectos ao qual pertencêramos por inteiro e que, apesar de tudo, não nos expulsara da memória.


Os anos longos, quando são vividos com dignidade, deixam matéria para os que ficam. E o que a Tia Helena deixa não é apenas saudade. Deixa exemplo. Deixa medida. Deixa uma certa ideia de decência quotidiana, essa forma alta e silenciosa de bondade que não precisa de se anunciar para transformar a vida dos outros. Aqueles que tiveram o privilégio da sua proximidade levarão consigo o encargo feliz de prolongar o bem que nela havia. E esse bem, visto de perto, era também o melhor de nós.


Que descanse em paz, com a serenidade de quem cumpriu o seu caminho. Porque há pessoas que, mesmo depois de partirem, não deixam de ser abrigo. Continuam, de algum modo essencial, a ser casa.


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