Têm surgido, em África, histórias de futebol que se esgotam no quadro táctico, no velho debate sobre linhas subidas, blocos baixos, coberturas e ocupação de espaços. A chegada de Aliou Cissé a Luanda não pertence a essa família de episódios. Não se trata de Angola contratar um treinador competente, como tantas vezes aconteceu sem deixar rasto. Trata-se de um gesto com espessura continental: um homem tornado lenda no Senegal assume o comando de uma selecção angolana em ascensão, num tempo em que África precisa, talvez mais do que confessa, de voltar a confiar serenamente em si própria.
Convém começar pelos factos, antes de chegar ao símbolo. Aliou Cissé conduziu o Senegal à conquista da primeira Taça das Nações Africanas da sua história, encerrando uma longa estação de quase triunfos, finais adiadas e esperas que se iam tornando tradição. Levou os Leões de Teranga a dois Campeonatos do Mundo consecutivos e deu ao Senegal não apenas a aparência passageira de selecção perigosa, mas o estatuto mais difícil e mais sólido: o de presença regular entre as equipas africanas que contam. Antes disso, conhecera o peso exacto da responsabilidade pelo interior do relvado. Foi capitão da selecção de 2002, essa que chegou à final do CAN e aos quartos-de-final do Mundial, naquele Verão sul-coreano que ainda hoje habita a memória do continente como uma promessa por cumprir. Pouquíssimos homens, no futebol africano, podem dizer que viveram a temperatura dos dois grandes palcos — o continental e o mundial — como capitães e como treinadores de uma verdadeira potência.
Coloquemos agora esse percurso ao lado da trajectória angolana. Os Palancas Negras já não são um pequeno actor à espera de milagre. Nas últimas duas décadas, transformaram-se numa selecção incómoda, resiliente, capaz de ferir no momento certo; ganharam densidade competitiva e passaram a habitar essa zona intermédia, delicada e decisiva, que separa as equipas respeitáveis das equipas temidas. É precisamente aí que residem o drama e a promessa: Angola já não está fora da conversa, mas ainda não entrou, de pleno direito, no círculo dos candidatos naturais.
É nesse ponto exacto que a escolha de Cissé deixa de parecer luxo e revela-se consequência lógica da ambição. Porque o que ele traz não é apenas currículo. Traz memória vivida. Conhece a psicologia do grupo quando um empate pesa como derrota. Conhece o ar moral de um balneário depois de uma eliminação cruel. Conhece os segundos em que uma equipa africana tem de decidir se continuará a respeitar excessivamente o adversário ou se, enfim, o tratará como igual. Há treinadores que estudam esses momentos; Cissé habitou-os.
Angola tem matéria-prima. Tem jogadores formados no país, talento espalhado pela diáspora, atletas a competir em ligas europeias respeitáveis. O que nem sempre teve foi essa ciência das margens mínimas, essa serenidade de quem sabe que os grandes torneios não se vencem apenas com entusiasmo, mas com controlo emocional, disciplina táctica e inteligência de sobrevivência. Importa sublinhar, além do mais, um dado que em África nunca é menor: ele não foi chamado para apagar um incêndio breve. Foi-lhe confiado um projecto de vários anos. Num continente em que tantas federações contratam por impulso e dispensam treinadores com a mesma facilidade com que trocam de desculpa, uma aposta mais longa constitui, por si só, um sinal de maturidade institucional.
Esta nomeação toca também o Senegal, e toca-o profundamente. Para os senegaleses, Aliou Cissé não é um antigo seleccionador entre outros. É o homem que finalmente pôs a estrela ao peito. Quando uma figura assim chega a Luanda, é natural que muitos em Dakar passem a olhar para Angola com uma ternura suplementar. Quando Angola marcar num futuro CAN sob o seu comando, haverá salas em Dakar a levantarem-se; bairros em Thiès a inclinarem-se para o ecrã; grupos de WhatsApp a falarem dele como se continuasse, de algum modo, a ser “o nosso treinador”. Essa solidariedade tem raízes mais fundas do que o mero afecto.
O futebol africano viveu demasiado tempo sob um complexo de inferioridade mal disfarçado, sempre pronto a procurar no treinador europeu a garantia final de saber e autoridade. O percurso de Cissé no Senegal foi uma das respostas mais fortes contra esse reflexo. Ao confiar agora nessa excelência, Angola reforça uma mensagem de largo alcance moral: a competência não precisa de chegar de fora para ser levada a sério. Há ainda uma pequena beleza política neste gesto: um ícone francófono a liderar uma federação lusófona, atravessando fronteiras linguísticas herdadas do colonialismo sem pedir licença, sugerindo um continente mais adulto, mais disposto a deixar circular ideias e competências para lá das velhas cercas imperiais.
Angola recebe um treinador que sabe o que custa entrar numa final do CAN. Cissé recebe nova matéria humana e nova ocasião para demonstrar que os treinadores africanos podem erguer projectos duradouros em solo africano. O que está em jogo, porém, é maior do que qualquer torneio: é saber se África consegue, finalmente, acreditar no que produz antes que o mundo lho confirme.
Publicidade
Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação



0 Comentários