O QUE PODEMOS APRENDER COM O PAPA- SOUSA JAMBA



Quando um Papa pisa terra angolana, o primeiro reflexo do protestante formado nas missões é recuar ligeiramente, como quem, diante de uma presença antiga e solene, sente regressar à memória camadas sobrepostas de reserva, polémica e vigilância. Há séculos de desconfiança acumulada, de natureza teológica e histórica, que não se deixam dissipar pela liturgia breve de uma aterragem. E, no entanto, talvez seja o próprio reflexo que mereça exame. Talvez a chegada de Leão XIV a Luanda não nos convoque para a velha postura defensiva, mas para a interrogação inversa, mais difícil e mais fecunda: que poderemos nós, protestantes, nós que viemos das missões, das capelas de tijolo nu e dos hinos cantados em coro, das Bíblias gastas pelo uso e pela poeira, aprender com uma Igreja que não é a nossa. A pergunta não tem nada de rendição. Tem, isso sim, a dignidade severa de um acto de honestidade intelectual. E a resposta, se nos dispusermos a ser francos, não caberá em poucas linhas.


As respostas possíveis são várias. Há a memória longa de uma instituição que conheceu derrotas, suportou humilhações, perdeu terreno e, ainda assim, aprendeu a esperar séculos para recuperar aquilo que julgava essencial. Há a teologia do corpo presente, que compreende, com uma espécie de saber sedimentado, que uma fé sem carne, sem gesto, sem presença, sem lugar entre os vivos e os mortos, dificilmente persuade alguém. Há, ainda, a forma como cuida dos mortos, matéria diante da qual tanto protestantismo africano, por desconforto ou empobrecimento simbólico, se foi remetendo a um silêncio quase administrativo. Mas a lição mais exigente, e talvez a mais urgente para o protestantismo africano contemporâneo, é outra. Trata-se da inteligência acolhida não como luxo, ornamento ou suspeita, mas como parte constitutiva da própria respiração da fé.



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Roma não estremece cada vez que uma ideia nova lhe bate à porta. Examina-a. Debate-a. Pesa-lhe as implicações. Às vezes abranda-lhe o ímpeto; outras vezes absorve-a, baptiza-a, enquadra-a num vocabulário mais largo. O que raramente faz é comportar-se como se o pensamento fosse, por natureza, um inimigo infiltrado. O catolicismo habituou-se, ao longo dos séculos, a conversar com filósofos, juristas, cientistas, historiadores, linguistas, teólogos, arquitectos, músicos. Aprendeu, por experiência acumulada, que uma Igreja que apenas grita acaba, mais cedo ou mais tarde, por ouvir apenas o eco da própria garganta.


Basta olhar para o Papa actual. Leão XIV formou-se em Matemática na Universidade de Villanova, obteve o grau de Master of Divinity na Catholic Theological Union e doutorou-se em Direito Canónico no Angelicum, em Roma. Não se trata de um homem talhado apenas para a exclamação, para o efeito instantâneo ou para a frase que irrompe e desaparece. Trata-se de um homem disciplinado para o conceito, educado para a distinção, treinado para a paciência do raciocínio, habituado a perseguir uma ideia até ao seu limite e a suportar, sem aflição, o peso da complexidade.


Em certas franjas do pentecostalismo africano, pelo contrário, a eloquência converteu-se, por vezes, numa arte de superfície, cintilante e breve. Surge o pregador de sotaque importado do Brasil, gesto teatral minuciosamente ensaiado, cadência herdada da televisão religiosa, voz que sobe e se quebra em explosões calculadas para abalar o tecto e arrancar améns com a rapidez de quem arranca faúlhas de uma pedra seca. A assembleia estremece, ri, chora, desfalece, ergue-se de novo. O ar enche-se de movimento, de suor, de som, de promessa. Mas, quando a tempestade passa e o corpo regressa à sua temperatura comum, fica muitas vezes suspensa uma interrogação pouco devota e, justamente por isso, necessária: que ficou ali, de facto, de pensamento, de formação, de substância, de lastro interior?


Diante disso, o Papa parece pertencer a outra ordem de realidade. Não lembra uma fogueira de capim, viva e súbita, que se ergue depressa e com a mesma pressa se extingue. Lembra antes um rio longo e fundo, desses que atravessam terras inteiras levando consigo sedimentos, memórias, vozes antigas, bibliotecas invisíveis, doutrinas depuradas pelo tempo, erros revistos, perguntas que permanecem em aberto sem que por isso a corrente se interrompa. À superfície poderá haver menos espectáculo. No fundo, porém, move-se uma densidade capaz de transportar civilizações.


É também nisto que o catolicismo continua a oferecer uma lição austera. Uma Igreja não precisa de escolher entre a alma e a inteligência, como se uma anulasse a outra. Pode ajoelhar-se e pensar. Pode rezar e estudar. Pode anunciar o Evangelho aos pobres sem declarar guerra ao conhecimento. Pode enviar missionários para o mato e, simultaneamente, erguer universidades, hospitais-escola, centros de investigação, seminários exigentes, revistas de pensamento, arquivos onde a memória humana não é tratada como tralha inútil. Quando a fé não teme a razão, ganha estrutura, nervo, coluna vertebral.


Talvez seja precisamente isso que algumas igrejas pentecostais, entre nós, mais urgentemente necessitem de reaprender: que o carisma sem profundidade acaba por viver de truques de voz e de encenação; que a unção sem estudo resvala com facilidade para o improviso autoritário; que a verdadeira inovação não nasce do pavor diante da análise, mas da confiança serena de que a verdade não se desfaz só porque alguém a examina com rigor. O futuro não pertencerá apenas aos que souberem incendiar uma multidão durante uma hora. Pertencerá, mais provavelmente, aos que souberem formar consciências para uma geração inteira.


Angola conhece bem o preço de uma fé que não pensa. Conhece, também, o custo de uma liderança que troca o argumento pelo fervor e a reflexão pelo arrebatamento. O Planalto ainda guarda essa memória, como quem conserva, no fundo de uma casa velha, instrumentos de um ofício antigo: missionários que construíam escolas enquanto pregavam, que ensinavam latim e aritmética enquanto falavam de Cristo, que partiam do princípio de que um povo instruído seria, por isso mesmo, um povo mais livre. Essa herança foi-se adelgaçando, depois foi-se perdendo, até ceder lugar, em demasiados casos, a igrejas que preferem a excitação à formação e o impacto imediato ao lento trabalho da inteligência. O Papa que agora aterra em Luanda não é o nosso pastor. Pode, no entanto, ser, neste instante singular, um espelho incômodo. E, nesse espelho, talvez nos seja dado ver o que uma instituição consegue quando não receia pensar. Depois disso, restar-nos-á a pergunta mais difícil de todas, a única que realmente importa: que fizemos nós, até aqui, com a mesma possibilidade?

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