Teologia do Dinheiro Móvel- Sousa Jamba



Se há coisa que Angola poderia aprender com a Zâmbia, essa coisa, modesta na aparência e revolucionária nos efeitos, é o dinheiro móvel. Não se trata de uma teoria económica, dessas que nascem em seminários refrigerados e morrem em relatórios de capa azul. Trata-se de mulheres sentadas em pequenos quiosques, à beira da rua, com telemóveis, cadernos, trocos e uma autoridade quase bancária.


Foi isto que me ocorreu hoje, em Vila Alice, depois de uma refeição numa daquelas pequenas casas de comida onde o funge ainda chega à mesa com a solenidade discreta das coisas sérias. Comi funge com molho de tomate. Tudo corria bem até ao momento, sempre delicado, em que se descobre que a civilização tem avarias. A máquina de pagamento não funcionava. Pior ainda: não funcionava havia já algum tempo, o que, em certos estabelecimentos, constitui uma forma local de eternidade.


Fisioterapia ao domicílio com a doctora Odeth, liga agora e faça o seu agendamento, 923593879 ou 923328762


Aceitavam apenas dinheiro. Eu, naturalmente, não tinha dinheiro. Tinha cartões, telemóvel, boa-fé e uma expressão que procurei tornar convincente. Nada disso, porém, tinha curso legal naquela casa.


Como, segundo me explicaram com uma calma um pouco ofensiva, havia clientes que comiam e desapareciam, destacaram um empregado para me escoltar até ao multicaixa mais próximo. Fomos. Ele caminhava ao meu lado com a gravidade de um guarda de fronteira.


O multicaixa ficava em Vila Alice, mas não propriamente ao nível dos mortais. Para lá chegar, era preciso subir umas escadas exteriores, bonitas, quase cerimoniais, que davam ao acto de levantar dinheiro uma qualidade teatral. Nós ficávamos em baixo; quem retirava dinheiro aparecia lá em cima, sobre uma espécie de palco, iluminado pela atenção inquieta da fila.


Foi então que descobri a existência de uma pequena aristocracia da urgência: grávidas, pessoas fardadas, pessoas com deficiência e cidadãos com mais de sessenta anos tinham prioridade. Ao ouvir isto, ergui modestamente a voz e declarei que também eu tinha sessenta anos. Houve um silêncio breve, seguido daquela incredulidade que, em certas idades, se recebe como bênção. Disseram que eu estava a brincar. Que não parecia. Que ficasse na fila.


Insisti. Ninguém acreditou.


Confesso que nunca fui tão docemente humilhado. Ali estava eu, impedido de exercer um direito etário porque, segundo o júri popular do multicaixa, conservava ainda um aspecto demasiado aceitável. Enquanto isso, passavam à frente homens talvez mais novos do que eu, mas já administrativamente arruinados pelo corpo: joelhos em litígio com o chão, tornozelos desalinhados, andar de dobradiça cansada. A fila aceitava-os com respeito. A mim, não.


Depois chegou uma mulher alta, de barriga muito saliente, exigindo prioridade por estar grávida. E ali começou o verdadeiro julgamento. Alguns desconfiavam. Não viam gravidez; viam apenas barriga. A mulher, sentindo a causa ameaçada, arqueou o corpo com admirável competência dramática, projectando o ventre para diante como quem apresenta uma prova documental.


Um homem, que anunciou ter cinco filhos, tomou então a palavra. Disse conhecer os sinais. A gravidez, segundo ele, via-se nos dedos, no nariz, nas pernas, nos seios e até numa certa luminosidade feminina que os homens, por razões que a medicina talvez não recomende discutir, achavam irresistível. O argumento, embora cientificamente aventureiro, produziu efeito. A multidão cedeu.


A mulher subiu as escadas, entrou em cena, levantou o dinheiro e, ao descer, completou a vitória com uma prova final: mostrou fotografias no telemóvel. Nelas aparecia antes da gravidez, com a barriga lisa, disciplinada, quase diplomática. A actual, pelo contrário, impunha-se com autoridade. A fila, enfim convencida, restituiu-lhe a maternidade.


Veio depois um polícia, de mota, acompanhado por um colega. Chegaram com aquele ruído metálico que transforma uma simples deslocação em aviso público. A mota ficou ali, ligeiramente de lado, carregada de capacetes, pistolas e outros instrumentos cuja função exacta não perguntei, mas cuja aparência bastava para educar a imaginação. O agente subiu. Ninguém discutiu. Há prioridades que a lei estabelece; há outras que chegam armadas e dispensam explicações.


Esperámos.


Por fim, chegou a minha vez. Subi as escadas, levantei o dinheiro e voltei ao mundo inferior, onde o empregado me aguardava com a expressão de quem tinha sido injustamente retido pela história. Dei-lhe o dinheiro. Ele recebeu-o sem alegria. Parecia menos aliviado pelo pagamento do que irritado com a minha felicidade.


Talvez o perturbasse o facto de eu ter gostado da fila. Talvez não compreendesse que, naquela pequena demora, eu perdera tempo, sim, mas ganhara alguns anos. A máquina dera-me dinheiro; a multidão dera-me juventude.


Mas aqui está o ponto: nada disto teria acontecido na Zâmbia. Não a escolta, não as escadas cerimoniais, não o júri da gravidez, não a espera sob o sol com o polícia e a sua mota carregada de autoridade. Na Zâmbia, a mulher do quiosque, sentada à beira da rua, com o telemóvel, o caderno e os trocos, teria resolvido o assunto em trinta segundos. Sem drama, sem palco, sem aristocracia da urgência.


O dinheiro móvel não é apenas uma tecnologia; é uma filosofia de respeito pelo tempo alheio. Para um homem escoltado por causa de um prato de funge, não era coisa pequena.

Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação 

Postar um comentário

0 Comentários