Num estúdio da capital, desses onde as luzes fazem toda a gente parecer ligeiramente mais importante do que realmente é, acabei finalmente por encontrá-la. Fiquei imóvel durante alguns segundos. Ali, diante de mim, estava Jessica Pitbull. A dona do país. A rainha. A lenda. A mulher perante a qual o vocabulário masculino costuma sofrer um colapso nervoso colectivo, como se os adjectivos disponíveis na língua portuguesa fossem, de súbito, poucos, cansados e mal pagos.
Cumprimentei-a com a solenidade de quem acredita estar diante de um acontecimento histórico, embora a História, infelizmente, nem sempre partilhe o nosso entusiasmo. Disse-lhe que escrevera longos textos sobre ela: análises, ensaios, observações sociológicas quase clandestinas sobre o fenómeno Jessica Pitbull e sobre aquela combinação raríssima de autoconfiança quase masculina com uma feminilidade que, longe de se dissolver nessa força, parecia ganhar nela ainda mais magnetismo.
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Ela ria-se.
Ria-se muito.
Era aquele riso largo de quem atravessa o mundo sem pedir licença às teorias dos homens.
Expliquei-lhe que muitos homens a achavam irresistível precisamente por isso: porque nela havia qualquer coisa de comandante militar e, ao mesmo tempo, qualquer coisa de rainha de baile de fim de ano; uma mistura improvável, capaz de deixar sociólogos, pastores pentecostais e ex-namorados emocionalmente exaustos.
Jessica Pitbull continuava a rir.
E foi então que descobri uma verdade humilhante, dessas pequenas facadas que a vaidade recebe em silêncio para não perder a compostura diante das câmaras: ela nunca lera absolutamente nada do que eu escrevera sobre ela. Pior ainda: nunca sequer ouvira falar de mim.
Senti, naquele instante, o destino melancólico de tantos escritores africanos: homens capazes de produzir cinco mil palavras sobre uma pessoa que apenas lhes responde com um sorriso educado e um olhar que diz, sem crueldade, mas também sem piedade: “Meu senhor, quem exactamente é o senhor?”
Voltei para casa transformado.
A partir de agora, decidi, escreverei parágrafos curtos. Frases pequenas. Ideias magras. Quero alcançar um feito literário verdadeiramente ambicioso: fazer Jessica Pitbull ler-me até ao fim.
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