Há uma ideia persistente, repetida com a serenidade das verdades demasiado simples, segundo a qual os africanos nasceram com o corpo inclinado para o ritmo, como se a dança fosse menos uma prática cultural do que uma sentença biológica. Durante anos, a televisão cumpriu a sua parte: quando corpos negros apareciam no ecrã, era quase sempre para sorrir, mover os ombros, bater palmas, entreter. Uma coreografia discreta de expectativas.
As redes sociais, mais democráticas e também mais impiedosas, não desmentiram essa tradição. Pelo contrário, ampliaram-na. E aqui começa a minha dificuldade: quando percorro certos bairros de Luanda e vejo jovens em roda, música a sair de colunas improvisadas, passos ensaiados com uma seriedade quase profissional, sei que estou perante algo real, algo vivo, algo que tem valor. Mas sei também que estou a ver exactamente aquilo que o estereótipo esperava que eu visse. O observador e o preconceito raramente se contradizem ao primeiro olhar.
Angola, em particular, exibe uma competência notável no domínio do corpo. Domina-se o ritmo. Exporta-se energia. Aprende-se depressa. Quem observa não pode deixar de reconhecer o talento. E talvez seja precisamente isso que suscita a dúvida: quando se é muito bom em alguma coisa, corre-se o risco de ser reduzido a essa coisa.
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A dança aproxima, cria cumplicidades, organiza o tempo livre, dá forma à alegria. Há nela uma inteligência própria: a mesma abstracção que permite decorar uma sequência complexa de movimentos, antecipar o compasso e negociar o espaço com outro corpo não está assim tão distante da disciplina exigida pela matemática ou pela engenharia. Seria desonesto fingir que são mundos separados. O problema não é a dança; é a facilidade com que ela se torna resposta automática, quase exclusiva, como se, perante o mundo, tivéssemos decidido que o nosso lugar mais confortável é o da performance.
A inteligência artificial começa agora a vestir esta fantasia com roupa nova. Peça-se a uma máquina que imagine África e, demasiadas vezes, ela devolve corpos em transe, batuques, cores violentas, mulheres e homens em movimento perpétuo, como se o continente inteiro vivesse numa espécie de ensaio geral para um festival. A velha caricatura colonial ganhou algoritmo, brilho digital e uma assustadora confiança estatística.
Talvez esteja na hora de perguntar, sem solenidade excessiva, se não dançamos demais diante de um mundo que já esperava isso de nós. Menos passos coreografados para alimentar plataformas; mais matemática, mais xadrez, mais engenharia, mais programação, mais invenção. Menos competição para ver quem move melhor os ombros; mais ambição para ver quem desenha melhor o futuro.
Não se trata de rejeitar a dança, nem de a diminuir. Trata-se de recusar que ela seja o nosso cartão de identidade mais previsível. Um país não se constrói apenas com talento corporal. Um continente não entra na revolução tecnológica apenas com alegria. Precisa também de cálculo, paciência, abstracção, laboratórios, bibliotecas, disciplina intelectual e crianças que aprendam a resolver problemas antes de aprenderem a posar para a câmara.
Continuemos a dançar, sim. Mas não apenas isso. Porque nem tudo o que se move avança. E nem todo o aplauso é reconhecimento: às vezes, é apenas a confirmação educada de que estamos exactamente no lugar onde os outros sempre acharam que devíamos estar.
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