Tal como em qualquer batalha, a do Cuito Cuanavale foi feita de inúmeros episódios. Muitos homens sobreviveram sem saber como. A sorte salvou muita gente. A história que se segue relata o dia em que o então tenente Feny, das Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), recordou um episódio que viveu durante a Batalha do Cuito Cuanavale.
Mas antes, um breve resumo deste combatente das extintas FALA.
Em 1984, Feny, na companhia de alguns colegas do Instituto Polivalente Loth Malheiro Savimbi, foi recrutado e encaminhado para o Campo de Treinos Comandante Benólio, onde foi submetido ao treino básico durante três meses. Dado o seu desempenho, foi seleccionado para frequentar, durante seis meses, o curso de Comandantes e, por último, fez o curso de Instrutor Técnico. Durante a formação, aprofundou a língua inglesa, falada pelos instrutores sul‑africanos. Após vários anos de experiência nos campos de treinos como instrutor técnico inter‑armas, foi chamado para a Operação Lomba 87 como intérprete junto de unidades sul‑africanas. E, sob comando do então Major Zerô, o “Maike 17”, participou no assalto às Brigadas 59 e 49, e também à temida Brigada 21 e aos grupos tácticos das FAPLA.
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Agora, sim, o episódio da Batalha do Cuito Cuanavale.
Foi assim: Feny e a sua equipa, composta por cinco comandos, um oficial da Defesa Anti‑Aérea, especialista do míssil Stinger, Lameira, e dois sul‑africanos (o motorista e um sargento), receberam uma mensagem orientando‑os a deslocarem‑se a um determinado ponto para resgatar um BM‑21 “Monacaxito” que tinha sido capturado. A única referência era seguir na direcção do fumo que se via ao longe. Partiram num veículo blindado “Búfalo”, da South African Defence Force (SADF), e avançaram em direcção ao tal fumo negro.
Depois de percorrerem alguns quilómetros em corta‑mata, avistaram, de repente, a uns cinquenta metros, uma concentração de militares. Não sabiam se era o inimigo. Quando Feny viu um tanque de guerra, percebeu imediatamente que estavam a entrar num local onde se encontrava estacionada a técnica da 21.ª Brigada das FAPLA.
O destemido instrutor deu conta de que estavam no lugar errado e abriu fogo, enquanto gritava ao motorista: “Go back! Go back!” (Recua! Recua!). Durante a manobra de recuo, o comandante Lameira, que em 1992 viria a ser deputado pela bancada parlamentar da UNITA, saltou do veículo e uma das rodas passou‑lhe pela perna. Acabou capturado.
Quando já estavam numa área segura, deram pela falta do sargento sul‑africano. Feny sabia que não podia regressar sem ele. Decidiu então, com três comandos, organizar uma operação de busca, resgate e salvamento. Quando finalmente o encontraram, o jovem tenente respirou de alívio. Provavelmente terá dito: “Graças a Deus.”
Enquanto me relatava o episódio, percebi a emoção com que revivia aqueles momentos. A certa altura afirmou: “Como me iria apresentar ao comando sem o sul‑africano? Seria ‘queteado’. A revolução é mesmo assim.” (Fiquei arrepiado!)
Episódios como este repetiram‑se ao longo da batalha. São estes homens, que estiveram lá de carne e osso e deram o seu cabedal, que deveriam ser chamados a falar na televisão sobre como as ex‑FALA viveram aquela batalha. Assim, a história ficaria mais completa. Porque, até agora, apenas se tem dado voz aos ex‑FAPLA. E a impressão que fica é a de que a Batalha do Cuito Cuanavale foi travada entre as FAPLA e os sul‑africanos. Reduzem as FALA a zero. Isso é uma tremenda desonestidade histórica.
As FAPLA contaram com apoio cubano; e as FALA, com apoio sul‑africano. Goste‑se ou não, essa é a verdade dos factos.
Voltarei…
Luanda, 04 de Junho de 2026
Gerson Prata
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