JULHO SANGRENTO FOI HÁ UM ANO: Um lembrete para que não se normalize o anormal- Severino Carlos

 


Apesar da situação da UNITEL representar um evidente transtorno para as pessoas, empresas e instituições, a memória alerta-me que hoje, 28 de Julho, o calendário assinala uma triste efeméride para os angolanos. Foi exactamente há um ano que o país viveu, durante três dias, uma revolta popular impulsionada pelo aumento do preço do combustível que acabou sufocada em sangue pelas forças de defesa e segurança. 

No balanço da mortandade ocorrida, as autoridades falaram em pouco mais de uma trintena de pessoas mortas em várias cidades, com epicentro em Luanda, mas outras fontes avançaram cifras bem mais elevadas, cerca de uma centena.


Fisioterapia ao domicílio com a doctora Odeth, liga agora e faça o seu agendamento, 923593879 ou 923328762


O caso mais conhecido foi o de Maria Mubiala, a mulher que foi alvejada pelas costas por um polícia num bairro suburbano de Luanda, quando, em plenos tumultos, saiu à rua para procurar pelo filho. 

Fora da capital do país ocorreram casos não menos repulsivos. Um exemplo é o de Fernanda Victorino Lourenço, uma menina de apenas 13 anos baleada mortalmente por alguém que testemunhas indicaram tratar-se de um alto oficial do comando da polícia na localidade de Cacuso, perto da cidade de Malanje. 

Pergunta-se: que perigo afinal uma miúda poderia representar, ao ponto de ser alvejada por disparo à queima-roupa?

Malanje e Cacuso, aliás, são as localidades que, depois de Luanda, mais mortes registaram naqueles incidentes que ensanguentaram o país. 

Num relatório que a seguir se respiga, testemunhas garantem que, em Cacuso, não se tinham registado actos de vandalização, mas apenas protestos pacíficos de alguns populares devido à subida do preço do gasóleo. Intervieram naquela localidade um misto de forças compostas por efectivos da Polícia de Intervenção Rápida (PIR) e das Forças Armadas (FAA), cuja resposta foi brutal e desproporcional, tendo ocasionado 9 mortos e 16 feridos, estando entre as cifras mais letais geradas pelos protestos em todo o país.   


VÍTIMAS DOS INCIDENTES EM MALANJE


Manuel Escovalo Tomás, 18 anos, residente no Bairro da Cahala, Município de Malanje (Vítima mortal) - Estudante da 7ª classe, pelas 10H00 do dia 30, regressava a casa vindo da escola, aonde foi com o objectivo de confirmar matrícula. Apanhado por tumultos que ocorriam no mercado defronte à escola, o jovem acabou alvejado por um tiro na testa com bala real. Segundo relatos, o autor do disparo mortal é um polícia da esquadra de Cabulo, próxima do local das ocorrências onde houve outro morto (faleceu já no hospital) e dois feridos. A polícia não removeu o corpo. Foram outros jovens enfurecidos que transportaram o cadáver para a esquadra e de lá para a morgue. O posto policial acabou por ser parcialmente incendiado pelos jovens.


Cortês de Sousa Tomás, 26 anos, residente no Bairro da Cahala, Malanje- Vítima mortal, Tomás trabalhava como segurança de uma loja, na Vila Matilde. Tudo sucedeu no dia 30, quando houve uma tentativa de vandalização da loja por alguns populares. Os proprietários fugiram, o segurança permaneceu no local quando uma patrulha da polícia surgiu para repelir os manifestantes. Aos disparos da polícia, o próprio segurança da loja (que não estava armado, mas apenas uniformizado) acabou por ser alvejado e ferido no lado direito do abdómen. Inicialmente, supôs-se que fosse bala de borracha, mas logo se verificou que era bala real. A polícia não lhe prestou socorro. Um taxista transportou-o para o hospital, onde acabou por não resistir ao ferimento.


David Lino Chiqueli Campos, 22 anos, estudante, residente no Bairro da Cahala, Malanje - Vítima mortal, David estudava a 9ª classe. Às 8H00 do dia 30 foi ter com amigos nas proximidades da escola, onde acabou alvejado. A bala entrou-lhe por trás no lado esquerdo da axila, quando procurava abrigo face ao tiroteio da polícia no local. Os amigos ainda o levaram a um centro médico próximo, mas não resistiu. A polícia recolheu o cadáver à morgue. David deixou viúva e um filho.


Fernando Njungo Paposseco, 21 anos, desempregado, residente no Bairro da Cahala - Foi alvejado e ferido durante as manifestações que ocorreram junto ao mercado defronte à escola. Alega-se que o autor do disparo foi um agente do Serviço de Investigação Criminal (SIC), supostamente o mesmo que momentos antes atirou mortalmente sobre o seu amigo David Lino Chiqueli Campos. Foi na tentativa de socorrer o amigo que Fernando Paposseco acabou por sua vez baleado, embora resultasse apenas em ferimento. Foi atingido na perna, mas por sorte a bala não perfurou nenhum osso. Receando ser preso, evitou recorrer a hospitais, curando-se em casa por meios artesanais. De acordo com o seu relato, o jovem assegura que, inicialmente, a polícia usara balas artificiais. Apenas depois do que presume terem sido  ordens superiores, passaram a usar balas reais. A sua presunção decorre do facto de ter visto, a certa altura das escaramuças, vários agentes respondendo a supostos telefonemas. 


VÍTIMAS DOS INCIDENTES EM CACUSO


André Baptista Tiago, 21 anos, estudante, residente no Bairro Camoma, Malanje.  Em férias escolares, David achou emprego temporário numa pequena panificadora na vila de Cacuso, a 70 kms da cidade de Malanje. No final da manhã do dia 30, como habitualmente, foi depositar o valor das receitas arrecadadas com a venda do pão. No regresso, foi surpreendido pela confusão que se instalara. Interpelado por dois soldados das Forças Armadas, um deles, sem mais nem menos, o agrediu com a sua metralhadora, dando-lhe uma violenta coronhada. A vítima caiu desacordada e não resistiu ao golpe. Eram 12H00.


Paulo José Miguel, 16 anos, estudante, residente no Bairro Hoji ya Henda, Cacuso (vítima ferida) - Foi alvejado no dia 30 na sequência de perseguição da polícia a alguns jovens manifestantes na Rua 19 do Bairro Hoji ya Henda em Cacuso. Embora o jovem não se encontrasse propriamente entre os revoltosos, acabou apanhado no meio do tumulto. Procurou abrigar-se numa casa, mas ali mesmo foi atingido por um tiro. A bala entrou-lhe pelas costas e saiu pela clavícula.


Fernanda Victorino Lourenço Paulo, 13 anos, residente no Bairro Hoji ya Henda, Cacuso (vítima mortal) - Segundo relatos, a menor foi morta na sequência de uma outra menina ter sido atingida mortalmente no interior da sua casa. Estando ao lado, ela procurou debruçar-se sobre a amiga a fim de a socorrer, quando ela mesma foi atingida por um disparo do lado esquerdo do peito. O autor do disparo, de acordo com diversas testemunhas, foi o comandante-adjunto da Polícia Municipal de Cacuso, mais conhecido pela alcunha “Chiô”.


Manuel Freitas António, 15 anos, residente no Bairro da Caxinde, em Cacuso.  O menino perdeu a vida mesmo na sua casa, ao lado da qual passa a linha férrea. Foi alvejado por duas balas, uma no estômago e outra no braço, quando estava na parte exterior da residência, relativamente longe do local de uma confusão que se desenrolava com polícias que perseguiam alguns populares. Um agente da polícia atirou deliberadamente sobre o rapaz, apesar de não representar o menor perigo. A vítima dedicava-se a trabalhos precários para ajudar os pais no sustento da casa, como ajudante na recolha de resíduos na rua.

Lil Pasta News, nós não informamos, nós somos a informação 

Postar um comentário

0 Comentários