É TUDO “PELO” KUDURO- Rui Kandove



O governador de Luanda, Luís Nunes, anunciou a construção de 100 casas destinadas aos fazedores do kuduro, na chamada Vila do Kuduro. A iniciativa surge depois de o Governo Provincial de Luanda ter disponibilizado um terreno que deveria ser loteado e posteriormente distribuído aos beneficiários.


Entretanto, perante a impossibilidade de avançar com o processo de loteamento e construção individual, o Governo decidiu assumir a construção de, pelo menos, 100 habitações.


Até aqui, nada contra. Pelo contrário: apoiar cidadãos que enfrentam dificuldades habitacionais e criar condições dignas de moradia é uma iniciativa que deve ser encorajada.

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A questão que se coloca, porém, é outra: qual é o critério utilizado pelo Estado para seleccionar os grupos que merecem este tipo de apoio?


Se existe disponibilidade para construir casas para os fazedores do kuduro, o que dirão os sembistas? E os músicos de outros géneros? E os taxistas e lotadores? E os enfermeiros? E professores, académicos, investigadores, intelectuais e outros profissionais que também enfrentam sérias dificuldades para adquirir uma habitação condigna?


O problema, portanto, não está em construir casas para os kuduristas. O problema está na possibilidade de se criar uma política pública baseada em grupos específicos, sem que fique claro um critério geral, transparente e replicável para outras categorias da sociedade.


O Estado deve, naturalmente, reconhecer o contributo cultural do kuduro e dos seus fazedores. Mas também deve evitar que o reconhecimento de uma classe se transforme numa espécie de privilégio habitacional, sobretudo num país onde o défice de habitação afecta milhares de famílias e profissionais de diferentes sectores.


Talvez fosse mais criativo e abrangente aproveitar a ideia da Vila do Kuduro para criar um modelo de habitação social destinado a diferentes categorias profissionais e culturais, com critérios objectivos: rendimento, vulnerabilidade socioeconómica, tempo de serviço, contribuição para a sociedade, situação habitacional e outros indicadores mensuráveis.


Assim, os kuduristas poderiam continuar a ser beneficiados, mas dentro de uma política mais ampla e inclusiva.


A iniciativa é boa. O reconhecimento aos artistas é legítimo. Mas falta, aparentemente, uma visão mais abrangente do Estado.


Porque governar não deve significar apenas responder a quem tem maior visibilidade social num determinado momento. Deve significar criar critérios que permitam que diferentes grupos da sociedade tenham acesso justo às oportunidades públicas.


E aqui entra também a responsabilidade política do governador Luís Nunes. Luanda enfrenta problemas demasiado sérios para que as políticas públicas sejam reduzidas a respostas pontuais ou a medidas de grande visibilidade. O desafio é transformar iniciativas como esta em modelos mais abrangentes, capazes de atender não apenas aos grupos que estão sob os holofotes, mas também aos milhares de cidadãos que, longe das câmaras e dos palcos, enfrentam diariamente as mesmas dificuldades.


No fundo, a pergunta que fica é simples: se há 100 casas para os kuduristas, qual será o modelo pensado para os demais grupos que também precisam de habitação?


Porque, no fim das contas, a questão não deveria ser apenas “tudo pelo kuduro”, mas sim “tudo por uma política de habitação justa, transparente e inclusiva”.

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