Não sabemos, ainda, o que verdadeiramente aconteceu para que um apagão digital mergulhasse a UNITEL num silêncio absoluto. Mas há uma certeza que não precisa de inquérito para se impor: quem esteve por detrás deste acto sabia exactamente o que estava a fazer.
Sabia que não estava apenas a cortar chamadas ou a bloquear o acesso à Internet. Sabia que atingiria pagamentos bancários, terminais electrónicos nos supermercados, as pequenas máquinas dos mercados informais e toda a rede de transacções de que hoje depende uma sociedade digitalizada até à raiz. A comunicação deixou de ser luxo tecnológico; tornou-se extensão da própria vida. Há uma geração, um apagão destes teria sido um contratempo; hoje é uma amputação.
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Os autores sabiam, também, quem seria atingido primeiro; e não seriam os grandes empresários, protegidos por reservas, alternativas e estruturas próprias. Seriam os pequenos comerciantes, os vendedores dos mercados, os taxistas, os prestadores de serviços, as famílias que sobrevivem de pagamento em pagamento. Eu próprio fui atingido. Como eu, milhares de cidadãos terão perdido negócios, compromissos, oportunidades que talvez nunca recuperem. Nenhum destes cidadãos foi consultado; nenhum deles tinha reserva, gerador de conforto ou plano B. Foram, todos eles, reféns de uma decisão tomada por mãos que não conhecem.
A ausência de comunicação fere a saúde, as infra-estruturas, os transportes, o comércio, e mais um sem-número de domínios que nem sempre vemos até faltarem. Uma chamada que não passa pode ser um incómodo menor. Pode também ser um pedido de socorro que nunca chega. A tecnologia tem essa elegância perversa: some quando funciona, e só revela o seu peso verdadeiro quando desaparece. É a mesma lição que qualquer apagão eléctrico ensina, apenas mais silenciosa: só percebemos a arquitectura de que dependemos no momento exacto em que ela desaba.
Por isso, se se confirmar a intervenção deliberada, não estamos perante um acidente inocente. Estamos perante quem conheceu antecipadamente o sofrimento que iria provocar. Sabiam que atingiriam cidadãos comuns. Sabiam que paralisariam pequenos negócios. Sabiam que isolariam doentes, atrasariam socorros, bloqueariam pagamentos, semeariam ansiedade. E fizeram-no na mesma.
O objectivo, então, não foi apenas atacar um sistema. Foi castigar um povo. E conseguiram.
O que mais perturba, nestes casos, não é apenas o acto em si; é o silêncio que se segue. Passam os dias, e a explicação oficial tarda, como se o país devesse contentar-se com a normalidade recuperada e esquecer a pergunta óbvia: quem fez isto, e porquê? Uma sociedade que não exige resposta ensina aos seus agressores que o crime compensa, e que a memória colectiva tem a duração de uma factura paga.
Compete ao Estado angolano mobilizar todos os recursos técnicos, científicos, policiais e judiciais de que dispõe para identificar os responsáveis. A investigação há-de ser rigorosa, transparente, conduzida até às últimas consequências; sem contemplações. A justiça deve aplicar as penas mais severas que a lei permitir, não por vingança, mas porque a impunidade é sempre convite à repetição. Um Estado que se cala perante um ataque desta natureza não está a proteger ninguém; está apenas a adiar o próximo apagão.
Se houver mãos estrangeiras nisto, o país tem o direito de conhecer nomes, interesses, ligações. O patriotismo alimenta-se de verdade, não de segredo. Nação madura não teme mostrar o rosto de quem a atacou, mesmo quando esse rosto se esconde atrás da distância, do dinheiro, ou de um sotaque vindo de fora. Proteger um agressor estrangeiro em nome da diplomacia é, também, uma forma de traição; e as traições silenciosas custam sempre mais caro do que as verdades ditas a tempo.
Quem transforma, deliberadamente, a dependência digital de um povo numa arma contra esse mesmo povo, revela uma crueldade sem desculpa possível. São actos cobardes, insensíveis, profundamente perversos. E a perversidade que consegue ferir uma população inteira não merece o prémio do silêncio, nem o abrigo do esquecimento. Não pode ficar impune.
Angola já pagou, em décadas de guerra, o preço mais alto que um povo pode pagar pela irresponsabilidade alheia. Não devia ter de pagar, também, o preço mais recente: o de ver a sua vida quotidiana convertida em campo de batalha invisível, sem trincheiras nem uniformes, mas com as mesmas vítimas de sempre. Que o apagão sirva, pelo menos, para lembrar isto: a impunidade não é ausência de castigo; é a promessa silenciosa de que o próximo ataque já está a ser preparado.
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