O Cão tinhoso do MPLA - Jorge Eurico



 O moçambicano Luís Bernardo Honwana escreveu um dos contos mais emblemáticos da literatura africana de língua portuguesa: “Nós Matámos o Cão-Tinhoso”. O conto fala de um cão velho. Doente e abandonado. A sua morte é decidida por adultos e executada por um grupo de rapazes.


Por estes dias, o MPLA parece ter escolhido o seu Cão-Tinhoso: Higino Carneiro. O general não está velho. Tão-pouco está doente. Mas está abandonado. Quase todos os seus camaradas de partido estão indiferentes ao que se passa com ele. Por medo. Por pusilanimidade. Para agradar ao mais cota do conjunto MPLA.

Há camaradas e camaradas. Há os que são do MPLA e os que estão no MPLA. Uns movem-se por convicção. São poucos. A maioria move-se por medo. Oportunismo. Sobrevivência política.



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O Tribunal Supremo faz de Higino Carneiro bola de trapo. Não se sabe quem será o próximo Cão-Tinhoso. O futuro está em jogo. Está nas mãos de quem manda. Segundo o Club-K, o mais adulto do partido orientou os “rapazes” do Bureau Político do MPLA a excrementar politicamente Higino Carneiro. O motivo é simples. Ousou candidatar-se à presidência do partido. Pecado mortal.

Higino Carneiro está sob pressão judicial. Os seus camaradas permanecem calados. Ninguém fala. Ninguém protesta. Ninguém o defende. O Bureau Político está calado. O Comité de Honra também. O princípio de «um por todos, todos por um» foi esquecido. Literalmente. Cada um por si. Deus por todos.

O medo instalou-se. A direcção do MPLA quer fazer dele um exemplo. Quer exibi-lo como troféu do sacrossanto combate à corrupção. Vai desgastá-lo. Vai extenuá-lo. Higino Carneiro está isolado. Está exposto. Vai ser sacrificado. Atenção à sauna.

A história muda. O silêncio barulhento permanece. Carlos São Vicente continua preso no Estabelecimento Prisional de Viana. Está detido desde 22 de Setembro de 2020. O seu estado de saúde inspira preocupação. Degrada-se com o tempo. A 21 de Março de 2026, apresentou uma petição urgente. Pediu a libertação por razões médicas, legais e humanitárias. O apelo foi dirigido aos órgãos de soberania. Incluindo ao Presidente da República. Até agora, silêncio. O dia em que Carlos São Vicente virar saudade, o silêncio também será chamado a depor. E haverá quem descubra que certas botas não se descalçam facilmente.


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