Passado um ano sobre a greve dos taxistas que, entre 28 e 30 de Julho de 2025, degenerou em três dias de tumultos, pilhagens e vandalismo em Luanda — com vítimas mortais e avultados danos materiais —, continua por esclarecer quem, afinal, beneficiou dos 50 mil milhões de kwanzas prometidos pelo Estado para reconstruir os negócios destruídos. O Expansão procurou obter do Banco de Poupança e Crédito (BPC) dados sobre o número de empresas que recorreram à linha de crédito criada para o efeito, mas não obteve resposta.
O silêncio do banco público soma-se ao de muitos dos próprios lojistas: questionados sobre se receberam apoio governamental, a maioria dos estabelecimentos contactados pelo Expansão preferiu não responder. Apenas o supermercado Arreiou indicou ter recorrido ao seguro, e não ao Estado, para financiar a reconstrução.
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Uma ronda por diferentes zonas de Luanda permite perceber, ainda assim, quem ficou de fora. Cadeias como o AngoMart, o Arreiou e o Fresmart já foram reconstruídas e funcionam actualmente com reforço de segurança. Já a esmagadora maioria dos pequenos negócios, sobretudo os que operavam na informalidade, nunca mais reabriu — uma exclusão confirmada por Raúl Mateus, presidente da Associação de Empresas de Comércio e Distribuição Moderna de Angola (ECODIMA).
A explicação está na letra do próprio decreto. O Decreto Presidencial n.º 150/25, de 4 de Agosto de 2025, que criou a linha de crédito a disponibilizar pelo BPC para reabilitação de instalações, aquisição de equipamentos, reposição de mercadorias e pagamento de salários, reserva o apoio a empresas formalmente constituídas, registadas no registo comercial e com a situação contributiva regularizada. Na prática, um critério que deixou de fora grande parte dos pequenos operadores informais — precisamente os que menos condições tinham para recomeçar sozinhos.
Nos bairros periféricos mais afectados, como o Golfe 2 e o Calemba 2, ambos no Kilamba Kiaxi, o resultado está à vista: lojas fechadas, bancas vazias, negócios que nunca mais existiram. Segundo Raúl Mateus, a exclusão destas micro e pequenas empresas prende-se sobretudo com a irregularidade fiscal em que muitas operavam, o que levou a associação a não intervir em casos cuja situação legal desconhecia.
Entre os testemunhos recolhidos está o de Maura Joaquim, que vendia perucas e cabelo brasileiro no Calemba 2 e via nesse negócio a sua principal fonte de rendimento. Recorda que, há um ano, ficou “feliz e tranquila” ao ouvir o Presidente da República prometer apoio a todos os afectados pelos tumultos. Um ano depois, lamenta, nada aconteceu: ficou sem actividade e sem forma de pagar as dívidas contraídas para repor os produtos que vendia. Relatos semelhantes multiplicam-se na zona, incluindo o de comerciantes estrangeiros que nunca mais reabriram as suas lojas, obrigando moradores e zungueiras a percorrer maiores distâncias para se abastecerem.
Um ano depois, a promessa presidencial permanece por cumprir para quem mais precisava dela — e o BPC continua sem explicar, publicamente, para onde foram os 50 mil milhões de kwanzas anunciados.
Expansão
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