SAÚDE NÃO É MERCADORIA PARA PAGAR DÍVIDAS EXTERNAS:FORA MPLA, FMI E BANCO MUNDIAL- KATRO UNGILA



Nos últimos anos, o governo de Angola tem desenvolvido o Programa de Formação de Recursos Humanos no Saúde Brasil-Angola, como especialidades, de enfermeiros e médicos iniciado em 2023, em parceria com o Governo do Brasil, com o objetivo de aprimorar os serviços de atendimento e replicar os princípios organizacionais do SUS. Contudo, há uma profunda contradição estrutural nessa iniciativa: enquanto o SUS brasileiro fundamenta-se nos princípios da universalidade e da gratuidade, com todas as contradições possíveis, como; A Terceirização dos serviços, que leva a exploração  do trabalhador e a sucatização dos serviços de saúde neste país,  o regime do MPLA caminha no sentido oposto, avançando com medidas de mercantilização através da cobrança de taxas aos pacientes. Em um país onde a maioria esmagadora da população enfrenta a miséria extrema e não tem o que comer, obrigar o cidadão a pagar por cuidados médicos é uma sentença de morte. Se mesmo sob a premissa teórica da gratuidade o sistema de saúde já insuficiente e precário, com pacientes esperando até 24h para serem atendidos, muitos chegam a morrer bem antes de ser atendidos, por falta de unidades básicas nos bairros  e um sistema de saúde de cura e não de prevenção, falta  crônica de assistência  medicamentosa, a introdução de cobranças funcionará como um catalisador da corrupção institucionalizada, forçando os utentes a pagar taxas ao Estado e, simultaneamente, subornos aos médicos e enfermeiros para não morrerem nas filas, o que reduz ainda mais  o fracassado programa de combate à corrupção seletiva levado a cabo por João Lourenço, desde o início dos seus mandatos.


Essa asfixia social é agravada pelo aumento brutal do preço dos combustíveis, uma medida fiscal que destroi as condições mínimas de vida e restringe violentamente o direito constitucional à livre circulação das pessoas. O direcionamento e o aceleramento das ideológico do neoliberalismo do regime do MPLA que uma vez foi "progressista" fica evidente com o envio de  Adão de Almeida  à Assembleia Nacional, que na semana passada defendeu publicamente que o Estado não deve ser o principal empregador, preconizando a entrega de setores estratégicos ao privado.


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Uma medida neoliberal que o regime do MPLA tem levado com a venda de grandes empresas estatais a preços de bananas.


Essa postura expõe a hipocrisia de uma burguesia nacional, subordinada a uma burguesia Internacional (FMI, Banco Mundial, EUA, e o Ocidente) que acumula milhões em salários e benefícios estrondosos sustentados pelo aparelho do estado, enquanto exige que o trabalhador morra na iniciativa privada, submetido à precarização, à perda de direitos e à ausência total de segurança social para alimentar o lucro do grande capital, arrecadar  impostos, para pagar uma dívida Externa Interminável.


Ao acelerar a agenda neoliberal em Angola, o governo de João Lourenço, no poder desde 2017,  atua diretamente como carrasco a serviço do FMI e do Banco Mundial, transferindo o custo das crises econômicas para as costas do povo pobre, e da classe trabalhadora de modo geral.


As consequências humanas desse modelo são trágicas e mensuráveis. Na província do Uíge, palco de severas violações de direitos democráticos e de intolerância política nesta semana, sábado, 8/08/ 2026, por parte das forças repressivas do regime, multiplicam-se denúncias alarmantes de mortes de mães e bebês durante o parto por falta de assistência. 


A imposição desta medida amplia  barreiras e empurrará as mulheres grávidas de volta aos partos domiciliares sem qualquer retaguarda médica, regredindo o país aos cenários mais sombrios da guerra civil observados entre 1999 e 2000. 


O neoliberalismo não é meramente um modelo de gestão econômica, mas sim uma fase de reorganização ofensiva e violenta do capitalismo contemporâneo para recompor as taxas de lucro da burguesia através da desregulamentação do mercado, da pilhagem dos recursos minerais e naturais, de bens públicos e da superexploração da força de trabalho, transformando direitos sociais inalienáveis em mercadorias lucrativas. No nosso caso, o direito à circulação(aumento dos combustíveis), direito  à saúde (Pagamento de Taxa nos hospitais), e o direito à identidade e registro (taxa para tratar o B.I, Bilhete de Identidade).


Esses Estados, como Angola e outros países da periferia do mundo, que reproduzem um capitalismo tardio, que  operam estritamente na lógica como agentes burocráticos da neocolonização: Fenômeno que Kwame Nkrumah definiu como o estágio superior do imperialismo, no qual o controle político formal dá lugar à dominação econômica indireta e à submissão das elites locais aos caprichos do capital financeiro internacional


Esta dinâmica de expropriação estende-se com igual violência ao campo ou seja aos camponeses, onde o governo do MPLA firma acordos em benefícios grandes empresários do agronegócio do Brasil e do mundo, resultando no desalojamento e na expulsão de comunidades camponesas de suas terras ancestrais, como os camponeses do campos universitário que o ativista Tanaice Neutro vem denunciando. Vimos isso também na província do Uíge, em 15 de abril de 2025, quando o governo tentou inviabilizar o acesso e o escoamento da produção dos pequenos produtores, e camponeses enquanto grandes empresários que firmaram contratos com o governo monopolizam o mercado de alimentos em benefício, próprio e do grande capital.


No entanto, a resistência camponesa organizada daquela província mostrou-nos o verdadeiro caminho ao forçar o recuo da medida absurda do governo provincial através da mobilização de base e espontânea. Essa ação direta nos ensina que a saída real reside na confrontação popular, e não nas ilusões do calendário eleitoral ou em rituais institucionais aos quais o regime já se acostumou e sempre consegue manipular para se manter no poder.


É urgente travar uma batalha sem tréguas contra a ditadura de 50 anos do MPLA, mas também contra o avanço do neoliberalismo e essa forma brutal de dominação do homem através do capital. 


A classe dominante angolana, disposta a qualquer concessão para satisfazer a burguesia internacional e se manter no poder, possui uma arma que nós, o povo explorado, precisamos resgatar urgentemente: O ódio de classe. Essa elite nos odeia e despreza a nossa existência; precisamos devolver esse sentimento na forma de organização e consciência revolucionária. Devemos acender em nós a chama cantada por Azagaia: "Queima eles, Senhor, com o fogo da nossa paz, Senhor, seu povo não aguenta mais, Senhor, em nome do petróleo e gás vendem o país". A nossa luta em Angola superou a barreira da mera alternância partidária; trata-se de um combate histórico contra a pilhagem e a expropriação do continente pelo capitalismo global. Basta! Precisamos nos insurgir utilizando os métodos históricos de luta da classe: a deflagração de greves gerais massivas nas fábricas e na função pública, resgatando o espírito de ruptura visto na greve dos taxistas em 2025 e na histórica greve geral de 2024.


Katró Ungila, Ativista Radicado no Brasil,  Membro do Movimento Hip Hop-Terceira Divisão-Angola. Quilombo Vermelho-Brasil.


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