A geração do “Rabo Preso” - Edy Lobo



Por inúmeras vezes e situações díspares, vimos-nos a condenar actos e a vilipendiar nomes da geração que nos libertou e nos deu vida. Crescemos, muitos de nós, pela graça, e outros porque seus progenitores e concomitantemente genitores, cedo descobriram o código que os levou à faustosidade exacerbada e despudorada, tanto que seus nascituros já nem precisarão de desbravar a terra para manter a dignidade de uma refeição por cima da mesa. O trabalho já foi feito. 


Neste processo de ver outros crescerem sobre a violação gritante dos elementos da ética, tal como a honestidade, a integridade, a justiça e a liberdade, muitos pararam de criticar, não porque se cansaram, mas porque realizaram um conúbio perfeito com a hipocrisia, e hoje, contrariamente ao pretérito lúgubre, já conseguem ter alguma refeição condigna, pese embora a trilogia da cafajestice impere. 


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Na trilogia supra, começamos por lavar as mãos uns dos outros, construímos telhados de vidro e depois ninguém atira pedra  a ninguém porque aprendemos a calar. 


A geração do Rabo preso não é necessariamente uma geração de pessoas más. É uma geração de pessoas que fizeram tantas concessões, quando finalmente chegou a hora de levantar a voz, descobriram que já não eram suficientemente livres para o fazer. 


Nunca tivemos uma geração com tantos meios para falar publicamente e, simultaneamente, talvez tenhamos criado inúmeras razões para permanecer calados. 


Mas, por que razão? Será por conta do imediatismo assaz abismal que nos tem tirado o sono, quanto tentamos entender a vida do outro? Conheço até um jovem que num passado não muito distante cognominava de alienados todos os que mantinham uma comunhão na mesma mesa dos favorecidos. 


Após ter conhecido o aroma simpático das notas do nosso desvalorizado kwanza como é apregoado nas lides artísticas, tal como inclusive musicalizou Matias Damásio ao chamar de kwanza burro, o seu silêncio tem gritado alto nos quatro cantos da roda dos ventos. A Bíblia diz: “Conhecereis a verdade e ela libertar-vos- á”. Será que ele descobriu a verdade que muitos de nós tem estado a procurar e não encontra? Ou decidiu tornar-se cúmplice daqueles que todos os dias têm feito recurso a todos os meios possíveis para silenciar os incapazes? 


Quem tem o rabo preso pode até reconhecer que determinada situação está errada, mas não consegue apontar o dedo sem correr risco de também ser atingido. 


Ter o rabo preso poderia ser semelhante ao vender a alma ao diabo, mas não queria ser tão duro. Sendo um pouco mais ameno, diria que “cão não come cão”, onde se pode transmitir a ideia de protecção entre membros do mesmo grupo, sobretudo quando todos conhecem os segredos uns dos outros. 


O funcionário que não denuncia o chefe porque foi favorecido, o dirigente que não pune porque também participou, o amigo que conhece os erros do outro, mas guarda silêncio porque os seus próprios segredos também são conhecidos, o intelectual que evita determinada crítica para não perder privilégios, ou o cidadão que condena publicamente aquilo que beneficia privadamente, são todos da classe do “rabo preso”. 


Quem tem o rabo preso esquece que um presente bem trabalho é garante de um futuro bem conquistado. Favor recebido é dívida contraída . Há silêncios que custam mais do que palavras.  


Já não é a geração dos nossos genitores que será a culpada por um possível futuro das trevas. Somos nós. E é bom que tenhamos consciência plena disso.

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