O Mais Velho Calongi- Sousa Jamba



Na minha tentativa de compreender melhor o Dundo ( o que quer dizer não apenas conhecer-lhe as ruas, mas descobrir quem as recorda antes de elas terem adquirido os nomes que hoje ostentam), apresentaram-me o Mais Velho  Agostinho Calongi, uma dessas figuras que não necessitam de cargo para possuírem posição. Há homens importantes porque aparecem nos jornais. Outros alcançaram uma importância mais rara: basta fazer perguntas sobre uma cidade e, depois de três ou quatro nomes dispensáveis, alguém baixa a voz e diz: «Tem de falar com ele.»


Quando lhe pergunto como era o homem que ele foi, sorri, não responde e pergunta: «Posso trazer os álbuns?» Há homens que, interrogados sobre o passado, recorrem à memória; o Mais Velho Calongi considera-a testemunha honrada, mas insuficientemente autenticada. Regressa com pastas de relatórios dactilografados, cartas de recomendação, avaliações profissionais e fotografias a preto e branco, guardadas com um cuidado tão meticuloso que se tem a impressão de que o século XX, tendo recebido ordem para abandonar o edifício, apresentou recurso e conseguiu continuar a funcionar naquela casa do Dundo.

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Antigos superiores descrevem-no como trabalhador, pontual e digno de confiança. Aos 75 anos, conserva provas documentais de que chegava a horas. Vivemos numa época prodigiosa em que cada pessoa redige o próprio currículo e, por uma coincidência estatística ainda por explicar, descobre possuir liderança, resiliência e uma paixão quase física por desafios. Ele pertence a uma escola mais antiga da vaidade e, talvez por isso mesmo, mais elegante: não proclama as virtudes, arquiva quem as proclamou. Uma casa sem documentos talvez lhe parecesse apenas uma opinião arquitectónica.

Nasceu em Setembro de 1951 e possui uma memória geográfica capaz de embaraçar certos mapas oficiais: Bailundo, Alto Hama, Waku-Kungo, Kibala, Mussende, Malanje, Cuango, Lovua. Não são pontos num mapa, são estações de uma biografia. O pai veio «com os belgas», como cozinheiro; a avó vinha do Congo. Tento compreender aquela genealogia feita de fronteiras e deslocações, matéria suficiente para sustentar uma conferência académica e talvez uma pequena rivalidade universitária. Resolve o problema numa frase: «O povo é de Angola.» A genealogia pode precisar de mapas; a pátria não necessita de notas de rodapé.

Estudou no liceu Adriano Moreira  em Malanje, quando a escola era uma das poucas escadas disponíveis num edifício social que reservava os elevadores a passageiros previamente escolhidos. Em 1972 seguiu para Nova Lisboa, hoje Huambo, para o Curso de Sargentos Milicianos. A educação não livrava um homem da guerra; dava-lhe, quando muito, uma porta diferente por onde entrar nela. Integrado no Batalhão 4511, cumpriu 24 meses junto ao rio Cuango no norte. «Fui atirador», diz. Devo ter feito a expressão que os escritores fazem quando começam a transformar a vida alheia em símbolo, porque interrompe a literatura antes de ela cometer excessos: «Fui mesmo soldado.»

Era angolano e servia no Exército português. A frase é curta; a vida que ela encerra mostrou menos consideração pela sintaxe. Um jovem em 1972 não acordava a perguntar em que capítulo da futura historiografia seria colocado: tinha um posto, superiores, camaradas, ordens, medo e uma arma. A História recebe o mapa depois da batalha; quem está dentro dela recebe o terreno. Naquela unidade, insiste, não sentiu racismo; testemunho de um homem sobre uma experiência concreta, não absolvição retrospectiva de um sistema. Viu morrer portugueses e negros, e hoje a cor parece interessar-lhe menos do que a distância a que estava do homem quando este morreu.

Terminada a tropa, foi terceiro-oficial do Instituto do Trabalho, Eficiência e Acção Social, no Waku-Kungo: há algo de magnificamente optimista numa instituição que se propunha resolver três problemas nacionais antes de o visitante chegar ao fim da placa na porta. Algumas daquelas instituições talvez tenham sobrevivido melhor nas suas pastas do que nos lugares onde funcionaram. 

Sem salário, catálogo, orçamento ou placa na porta, foi exactamente aquilo que nunca escreveu no espaço destinado à profissão: arquivista. Quantos arquivos angolanos estarão assim, numa mala, numa gaveta, debaixo de uma cama, não graças a uma política de conservação, mas porque alguém decidiu que não se deita papel fora? A distância entre património nacional e lixo doméstico é, às vezes, apenas o conhecimento de quem está a arrumar o quarto.


Na hierarquia colonial, diz-me com um sorriso que não procura desculpas, não era «um qualquer». O facto de o edifício ser injusto não significa que as escadas fossem fictícias: podemos condenar a arquitectura sem insultar quem teve de subir os degraus. Aquelas pastas são também uma defesa contra uma crueldade pouco examinada da velhice:  chegar aos 75 anos e descobrir que, para quem nos conhece agora, sempre tivemos 75 anos. Mas as cartas protestam, as fotografias protestam. Aquele homem teve vinte anos, vestiu uniforme, foi avaliado, viajou, teve medo, amou, criou filhos. Esteve aqui.


Fala-me de dez sessões de radioterapia e de despesas que chegaram a cerca de 90 mil dólares, suportadas com ajuda dos filhos. «Muito caro», resume. Esperava encontrar um homem diminuído pela doença; encontrei-o a levantar-se da cadeira, a regressar carregado de documentos e a corrigir-me quando troco uma data. A doença aconteceu-lhe; não conseguiu a promoção de se tornar a sua personalidade. Casado há quase cinquenta anos, tem quatro filhos, entre eles uma advogada e um economista, e a sua ideia de êxito nunca foi inteiramente individual: a geração seguinte deve encontrar um chão mais firme.

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