Há momentos na vida de um regime político em que o problema deixa de ser saber quem governa e passa a ser descobrir quem terá coragem de entregar o poder a quem não poderá controlar. Angola parece aproximar-se precisamente desse momento. João Lourenço caminha para o fim do seu ciclo presidencial e, até agora, o MPLA continua sem apresentar ao país uma sucessão claramente definida. O silêncio pode parecer prudência, mas também pode ser o sintoma de uma disputa subterrânea. No MPLA, sucessão nunca foi apenas sucessão. É uma luta pela sobrevivência, pela memória, pelos negócios, pelas redes de influência e, sobretudo, pela garantia de que aquele que sai não será transformado amanhã no problema daquele que entra.

A história do partido está cheia dessas ironias. Agostinho Neto chegou ao poder e, no processo de consolidação da sua liderança, figuras como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz foram progressivamente empurradas para a periferia da história oficial do MPLA. José Eduardo dos Santos sucedeu a Neto e, durante quase quatro décadas, construiu uma arquitectura de poder tão sólida que acabou por transformar o próprio legado de Neto numa espécie de monumento histórico enquanto o novo Presidente se tornava o centro efectivo do sistema. João Lourenço chegou em 2017 prometendo uma ruptura com o passado e rapidamente percebeu que, para governar o presente, precisava primeiro desmontar o poder acumulado pelo passado. Vieram então os processos judiciais, as investigações, os afastamentos e a perseguição política denunciada pelos sectores ligados ao antigo Presidente. Os filhos de José Eduardo dos Santos, os seus amigos, empresários e antigos colaboradores passaram a ocupar um lugar privilegiado na nova narrativa política: eram apresentados como símbolos do sistema que precisava de ser combatido. João Lourenço não quis apenas suceder a José Eduardo dos Santos; quis também reescrever a sua herança política.



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O problema é que a política tem memória. E a memória, sobretudo no MPLA, costuma esperar pacientemente pela oportunidade de devolver as dívidas. João Lourenço pode descobrir que aquilo que fez ao seu antecessor poderá tornar-se amanhã a medida utilizada contra ele. A questão que se coloca é brutalmente simples: quem garante que o próximo Presidente do MPLA não fará com João Lourenço aquilo que João Lourenço fez com José Eduardo dos Santos? Talvez seja precisamente por isso que a sucessão esteja a ser tratada com tanto cuidado e tanto silêncio. Não se trata apenas de encontrar um candidato eleitoralmente competitivo. Trata-se de encontrar alguém que seja suficientemente poderoso para governar Angola, suficientemente leal para não destruir o legado do actual Presidente e suficientemente fraco para não se transformar num novo centro de poder independente. E encontrar alguém com estas três características pode ser mais difícil do que ganhar uma eleição. 

Depois de nove anos de João Lourenço, o país chega a 2027 com uma realidade social que está muito distante das expectativas criadas em 2017. A promessa de uma nova Angola encontrou a velha pobreza. O discurso da mudança encontrou o desemprego. A promessa de combate à corrupção encontrou uma economia submetida a reformas dolorosas, privatizações, austeridade e pressão fiscal. A modernização encontrou milhões de cidadãos preocupados com o preço dos alimentos, do transporte, da habitação e da sobrevivência quotidiana. A juventude, que deveria ser a principal beneficiária da renovação política, tornou-se uma das principais vítimas da falta de oportunidades. O desemprego, a precariedade, a criminalidade, a prostituição infantil, a emigração e a fuga de cérebros revelam um Estado incapaz de transformar a riqueza potencial do país em segurança social para a maioria.

Politicamente, o cenário também se tornou mais sombrio. As clivagens aprofundaram-se, o espaço cívico permanece sob pressão e organizações da sociedade civil, activistas e partidos da oposição continuam a denunciar práticas repressivas e restrições às liberdades políticas. O Estado que João Lourenço prometeu tornar mais eficiente acabou, aos olhos de muitos dos seus críticos, por se tornar mais musculado. Quando a população protesta, o Estado aparece com a polícia; quando os jovens questionam, surgem acusações de desordem, vandalismo; quando a oposição cresce, o aparelho político fecha fileiras. A velha lógica do poder permanece intacta: o Estado continua a ser tratado como propriedade política de quem governa, e a alternância continua a parecer uma ameaça em vez de ser entendida como parte normal da democracia.

Mas há um detalhe constitucional que tornou a sucessão inevitável: João Lourenço não poderá disputar um terceiro mandato presidencial. Desta vez, não há engenharia política que possa resolver o problema dentro das regras actuais. O Presidente terá de sair. E quando um homem que passou anos a concentrar o poder começa a preparar a sua saída, a pergunta mais importante deixa de ser quem ele prefere como sucessor e passa a ser quem poderá realmente controlar depois de deixar o Palácio Presidencial.

É nesse ambiente que aparecem Adão de Almeida e Manuel Homem. Adão de Almeida, actual Presidente da Assembleia Nacional, representa uma geração que o MPLA insiste em chamar de jovem, embora a idade política angolana permita que homens próximos dos 50 anos continuem a ser apresentados como renovação. A sua trajectória está profundamente ligada ao aparelho do partido e às estruturas do Estado. Manuel Homem, também próximo dos 50 anos, ocupa o Ministério do Interior, uma posição particularmente estratégica num país onde a segurança interna sempre esteve intimamente ligada à estabilidade do poder. Ambos possuem aquilo que qualquer candidato à sucessão precisa: visibilidade, acesso institucional e capacidade para construir redes.

Mas o MPLA não é apenas um partido de ministros e deputados. É também um partido de aparelhos, de redes e de homens que raramente aparecem na fotografia, mas que podem decidir quem fica dentro dela. É nesse universo que Fernando Garcia Miala ocupa um lugar especial. Chefe dos serviços de inteligência e uma das figuras mais poderosas do Estado, Miala representa o poder que não precisa de disputar eleições para exercer influência. Ao longo dos anos, tornou-se uma figura simultaneamente poderosa e controversa, alvo de acusações gravíssimas feitas por adversários e sectores da oposição, incluindo alegações sobre perseguições e supostos envenenamentos políticos, acusações que não equivalem a factos judicialmente comprovados. O simples facto de o seu nome aparecer nas conversas sobre sucessão revela, contudo, uma realidade mais profunda: em Angola, a disputa presidencial não se decide apenas nos palcos partidários; decide-se também nos corredores dos aparelhos de segurança.

Carlos Feijó, antigo chefe da Casa Civil, surge igualmente nesse universo de figuras com experiência, relações e ambições. E depois há Higino Carneiro, talvez o homem que resolveu fazer aquilo que os outros preferem fazer em silêncio: declarar que quer o poder. Ao apresentar-se para disputar a liderança do MPLA no congresso de dezembro de 2026, Higino Carneiro rompeu com a tradição da espera silenciosa. Enquanto outros aguardam o momento em que o partido decidirá quem é o escolhido, ele decidiu apresentar-se como candidato. Não é uma pequena diferença. É um desafio.

Higino Carneiro sabe que está a entrar numa arena perigosa. A sua relação com João Lourenço tem sido marcada por conflitos políticos e judiciais, e os seus apoiantes interpretam alguns desses episódios como perseguição política, enquanto as autoridades e os seus adversários os enquadram noutras razões. Seja qual for a interpretação, a sua candidatura introduz um elemento que o MPLA preferiria talvez evitar: uma disputa aberta pela liderança antes que a máquina partidária consiga produzir um consenso.

E é aqui que começa o verdadeiro problema. O MPLA pode chegar ao congresso de dezembro de 2026 com vários candidatos, vários grupos e várias expectativas, mas só pode sair de lá com um vencedor. O perigo está no dia seguinte. Porque perder uma eleição interna é uma coisa; aceitar a derrota política dentro de um partido habituado a governar Angola há mais de meio século é outra. Se a sucessão produzir vencedores demasiado fortes e derrotados demasiado humilhados, o partido poderá entrar em 2027 carregando uma guerra interna para dentro da eleição nacional.

A UNITA observa tudo isto. E provavelmente nunca teve uma oportunidade tão evidente de explorar as contradições internas do adversário histórico. Adalberto Costa Júnior apresentou uma proposta de pacto de transição destinada a reduzir os riscos de conflito político depois das eleições e a criar condições para uma transição pacífica. João Lourenço recusou. Mas a política tem uma característica curiosa: propostas rejeitadas hoje podem tornar-se necessárias amanhã.

A experiência africana mostra que o fim de um ciclo autoritário não precisa necessariamente terminar em vingança. Na Zâmbia, Edgar Lungu acabou por entregar o poder a Hakainde Hichilema depois de uma disputa eleitoral intensa. No Senegal, Macky Sall, depois de anos de confrontação com sectores da oposição, acabou por deixar o poder através de uma sucessão eleitoral. Nenhum desses processos foi perfeito, mas demonstraram uma coisa essencial: um Presidente pode perder o poder sem perder necessariamente a dignidade, a segurança e o direito a continuar a existir politicamente.

Angola ainda não construiu essa cultura. Aqui, perder o poder pode significar perder quase tudo. É precisamente por isso que a alternância é tão difícil. Se quem governa acredita que a derrota eleitoral significa perseguição, prisão, exílio, confisco ou destruição económica, fará tudo para evitar a derrota. E se quem está na oposição acredita que vencer significa finalmente ter a oportunidade de destruir os vencedores anteriores, também terá poucos incentivos para oferecer garantias. É assim que os sistemas políticos entram num círculo vicioso: cada eleição deixa de ser uma competição e transforma-se numa batalha pela sobrevivência.

João Lourenço deveria compreender particularmente bem este mecanismo porque já o viveu dentro do próprio MPLA. Entre 2018 e 2019, o partido enfrentou a questão da bicefalia. José Eduardo dos Santos havia deixado a Presidência da República, mas pretendia conservar influência sobre o MPLA, enquanto João Lourenço precisava de controlar simultaneamente o partido e o Estado. A disputa terminou com a derrota política do grupo ligado ao antigo Presidente e a consolidação do poder de João Lourenço. Na época, a tese era simples: Angola não poderia ter dois centros de poder. O Presidente da República precisava também de controlar o partido.

Agora a história pode devolver a factura. Se João Lourenço tentar escolher um sucessor do MPLA e, depois de abandonar a Presidência, procurar continuar a controlar os cordões do poder, poderá descobrir que criou precisamente o problema que tentou eliminar. O novo Presidente poderá perguntar: afinal, quem manda? E se a resposta for que o antigo Presidente ainda manda, Angola terá regressado ao mesmo problema da bicefalia, apenas com os personagens trocados.

Talvez seja por isso que uma alternância democrática pudesse ser, paradoxalmente, a solução mais segura para o próprio João Lourenço. Um Presidente da oposição não teria qualquer obrigação de proteger a hierarquia interna do MPLA. Teria, porém, uma obrigação institucional: respeitar a Constituição. Se Angola conseguir construir uma tradição em que quem perde uma eleição não precisa de fugir do país, esconder-se ou temer uma vingança, então finalmente começará a existir democracia para além das urnas.

A eleição de 2027 poderá ser o momento em que Angola descobrirá se é realmente uma democracia eleitoral ou apenas um sistema de sucessão presidencial dentro do mesmo partido. A UNITA apresenta-se como alternativa de governo e procura convencer o eleitorado de que está preparada para assumir o poder. Mas a oportunidade também é um risco. Se perder depois de criar grandes expectativas, poderá sofrer uma forte erosão da sua credibilidade. Num país marcado pela descrença política, uma nova frustração poderá aprofundar a apatia, o cinismo e a ideia de que votar não muda nada.

Enquanto isso, os jovens continuam a esperar. Esperam emprego, liberdade, justiça, escolas, hospitais, transportes, salários dignos e um Estado que não os trate como ameaça quando levantam a voz. Alguns falam em revolução. Outros acreditam que a mudança pode acontecer pelas urnas. A UNITA escolheu apresentar-se como instrumento dessa mudança democrática. O MPLA, por sua vez, terá de decidir se pretende continuar a tratar a alternância como uma ameaça existencial ou se está finalmente preparado para reconhecer que nenhum partido é dono eterno de uma República.

Porque o verdadeiro drama da sucessão de João Lourenço não está no nome de Adão de Almeida, Manuel Homem, Higino Carneiro, Miala ou qualquer outro candidato que possa surgir. O drama está no sistema que precisa de encontrar um homem para substituir outro sem conseguir garantir que o segundo não será obrigado a destruir o primeiro para consolidar o seu próprio poder. E talvez essa seja a maior fragilidade do MPLA: depois de décadas a ensinar Angola que o poder não se entrega, chegou a hora de aprender que o poder também não pertence a ninguém.

João Lourenço será obrigado a sair. A questão é saber como sairá. Poderá tentar escolher o sucessor, controlar o sucessor e preservar o seu legado através do sucessor. Mas poderá também fazer algo politicamente mais difícil e historicamente mais importante: aceitar que o próximo Presidente não precisa de ser do MPLA. Porque, no fim das contas, talvez a maior garantia de segurança para João Lourenço não esteja em encontrar um sucessor obediente dentro do partido, mas em construir uma República onde o Presidente que sai não precise de escolher quem governa depois dele.

Essa seria, talvez, a verdadeira ruptura com o passado.

E talvez seja justamente aquilo que o MPLA ainda não aprendeu a fazer.

Texto de Hitler Samussuku 

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