Uns mais do que os outros porquê?



O camarada Hermínio Escórcio, falecido sexta-feira por doença na África do Sul, AOS 88 ANOS, era um bom senhor. Por exemplo, a minha vida poderia ser outra, se não tivesse dado um corte ao emprego de estafeta que me ofereceu em 1979 na Sonangol, a pedido da minha velha, a D. Joaquina da Silva, que ele conhecia bem por ser esposa dum seu companheiro de luta, o Afonso Neto, meu pai de criação. Não aceitei, porque na altura eu já estudava a nona classe (antigo quinto ano do liceu), que à época era estudo demais para se ser contínuo.

Há quem diga que cometi uma senhora asneira, já que estava bom para começar, pois até o Manuel Vicente terá iniciado como empregado de limpeza. Ri-me com esta tirada, kiá-kiá-kiá, mas não acreditei. Na verdade, às vezes me sinto arrependido, se bem que também terei fitucado por o camarada HE sequer se ter predisposto a ver como era o filho da Joaquina, quando fui ter ao seu gabinete. Foi a secretária do homem, a única com quem tive contacto, que me disse que seria estafeta. Achei a desconsideração algo humilhante e nunca mais pus lá os pés.

No entanto, quem aproveitaria bem uma brecha do género seria o Paizinho, o Bartolomeu Neto, primogénito do velho Afonso, que entrou na empresa a pedido do pai ao camarada Hermínio Escórcio. Desconheço se começou como estafeta, mas sei que acabou por passar à reforma com um posto de chefia da direcção de património da petrolífera, salvo o erro.


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Eu só estive pessoalmente com o camarada Hermínio Escórcio uma única vez, em Junho ou Julho de 1968, no dia em que, saídos da cadeia, ele e companheiros, entre os quais figurava o Afonso Neto, foram celebrar a liberdade no meu chalé. Foi nesse dia que seria baptizado, com apenas oito anos, na luta de libertação, ao receber ordens para vigiar a movimentação de eventuais bufos da pide, enquanto eles ouviam o «Angola Combatente». Lembro-me bem do Roberto de Almeida, que tinha uma irmã na rua de trás. Tipo o Lopo do Nascimento também estava, o Rui Gonçalves, o Cabelo Branco, o João Filipe Martins, o Couto Cabral e o Bernardo de Sousa, idem, entre outros.

Hermínio Escórcio faleceu poucos dias depois do encerramento do óbito do seu companheiro de luta Manuel João Afonso Neto, condenado no mesmo processo político, que correu os trâmites desde Junho de 1963, altura em que foram presos pela Pide. Seriam sentenciados a cinco anos de prisão, por um tribunal militar especial.

Contudo, ao contrário do que está a acontecer com o falecimento do camarada Hermínio Escórcio, que virou manchete, ao Afonso Neto, tão combatente pela liberdade como ele, o MPLA não dedicou nem uma palavrinha. O Silvestre Silas disse que só o facto de ser de Malanje já constituía um «pecado», por isso é que o Glorioso se cagou para o seu falecimento. O Paizinho não conseguiu esconder a sua indignação pelo desprezo que com que o seu pai foi tratado. Eu também não.

Que a terra seja leve ao camarada Hermínio Escórcio, a quem sempre considerei, apesar de não ter ficado na Sonangol.

Salas Neto 

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