O caso de um Presidente que só confiava na filha



José Eduardo dos Santos só confiava na filha para fazer o saneamento económico e financeiro da Sonangol. Isabel dos Santos, obrigada ou por ambição, aceitou o cargo e a opção acabou por ser o princípio do fim da sua carreira empresarial.


Isabel dos Santos foi nomeada presidente da Sonangol em junho de 2016. Achegada de Isabel dos Santos à presidência executiva da Sonangol, em junho de 2016, mudou-lhe a vida empresarial e escancarou a porta para os problemas que ainda enfrenta e começaram com a decisão do Presidente da República, João Lourenço, de a exonerar em novembro de 2017. Dois anos depois, mais propriamente a 30 de dezembro de 2019, o Tribunal Provincial de Luanda decretou o arresto preventivo de contas bancárias pessoais de Isabel dos Santos, acusando-a de “ocultar património obtido às custas do Estado”.

A empresária, desde então, tem estado cercada pela justiça, sendo que a situação se agravou com o mandado de captura emitido em novembro de 2022 pela Interpol. Isabel dos Santos, por força do alerta feito por esta polícia internacional vive em permanência no Dubai, onde as autoridades angolanas já a tentaram deter por duas vez, tal como o Negócios noticiou, não tendo obtido cooperação das autoridades locais para concretizar estas ações.

Isabel dos Santos voltou à ribalta mediática com uma entrevista concedida à Rádio Essencial, em resposta ao Ministério Público que a acusou de onze crimes no processo envolvendo a sua gestão da petrolífera estatal a qual provocou um prejuízo superior a 208 milhões de dólares (190 milhões de euros).


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Isabel dos Santos foi aconselhada a dizer não

A empresária, na entrevista, reafirma a sua versão dos factos e há duas premissas que devem ser consideradas válidas. Uma delas é a de que os problemas financeiros da Sonangol começaram muito antes da sua chegada à empresa, uma observação validada por Francisco de Lemos, em junho de 2015. Nessa ocasião, o então líder desabafou numa reunião interna: o modelo operacional da Sonangol “fracassou e está falido”. A outra é de que Manuel Vicente, presidente da petrolífera entre 1999 e 2012 – ano em que assumiu a vice-presidência do país –, foi quem geriu a empresa durante o maior período de tempo. Ou seja, terá sido o maior responsável pelos casos de má gestão.

Em contrapartida, a forma como explica a sua ida para a Sonangol merece algumas interrogações”, em particular quando afirma que o pai “não deu ordem para que isso acontecesse”. A realidade, segundo fontes conhecedoras do processo, é que José Eduardo dos Santos terá insistido com Isabel dos Santos que aceitasse o cargo por não ter “confiança em mais ninguém” para concretizar o imprescindível saneamento económico-financeiro da petrolífera.


O facto de o convite ter sido formulado por Edeltrudes Costa é uma minudência protocolar, na medida em que o mesmo foi feito por decisão do Presidente da República. Aliás, Isabel dos Santos foi aconselhada, pelo seu meio familiar mais alargado, a recusar o lugar. Não o fez. Seja por respeito ao pai ou ambição, a ida para a Sonangol e a forma como lidou com a chegada ao poder de um novo Presidente da República, João Lourenço, revelou-se fatal para a sua carreira empresarial.

Aliás, na mesma entrevista, Isabel dos Santos revela o seguinte: “Por o Presidente ser o engenheiro José Eduardo dos Santos, meu pai, eu não queria que ele me nomeasse. Ele também não queria. Até procurámos outras pessoas”.

Esta declaração revela, por outro lado, a incapacidade do Estado para encontrar um gestor competente e o isolamento de Eduardo dos Santos no final do mandato. Isabel dos Santos até pode ter aceitado o lugar por espírito de missão, mas o resultado foi que tanto ela como o seu pai entraram num labirinto do qual foram incapazes de sair. Jornal de Negócios

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