Glicínias, Perucas e o que Chamamos de «Elite»- Sousa Jamba



Londres sabe comportar-se. As moradias georgianas alinham-se como porteiros bem treinados, as glicínias trepam pelas fachadas com ambição silenciosa, os canais mantêm a sua faixa, e até os bancos de jardim parecem sentar-se mais direitos do que nós.


Para este palco prim entrou, não a passo, mas em aceleração, um par de jovens angolanas. Uma peruca voou para a esquerda, uma manicure espetou à direita e uma voz fez-se ouvir para a câmara: «Estou furiosa! Temos de filmar isto para o homem que paga a tua casa ver que andas a dormir com o meu marido.» O homem já executara o desaparecimento aperfeiçoado por gerações de culpados: sumiu-se antes de o telefone o alcançar.


Online, o rótulo chegou com velocidade algorítmica: elite angolana. O que diz menos sobre elas do que sobre o quanto barateámos a palavra.


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Houve um tempo em que «elite» em Angola não era apenas um código postal e um passaporte. Era, muitas vezes, um banco de igreja. As missões protestantes — Baptista, Metodista, Congregacional — foram canais de formação de pastores, professores, enfermeiros e funcionários públicos. No Norte, os Bielas, os Makondekwas, os Nzambis saíram dessas escolas, a sua autoridade tão moral quanto material. No Planalto Central, os diplomados das missões traziam a aura da disciplina: pontualidade dominical, roupa engomada, um certo modo de falar português que denotava educação e contenção: Chipenda, Chindondo, Chivukuvuku, Lewanika, Muteka, Moco (de linhagem leal), etc.


A igreja era o filtro. O namoro envolvia apresentações formais, escrutínio público e direito de oposição. O comportamento de cada um refletia não só a família, mas também a congregação. Uma cena pública por causa de um amante significaria expulsão do coro, visita do pastor e desaprovação sussurrada a três províncias de distância.


Lembro-me de outra Londres — os anos 1980 —, quando era estudante e uma vaga de jovens angolanos chegou via Portugal. Entre eles vinha uma atriz luminosa de uma telenovela de Luanda. As suas reuniões de fim de semana em Notting Hill ou Shepherd’s Bush não eram apenas para dançar kizomba; eram para conversar, aprender maneiras e saber circular à mesa sem envergonhar os anfitriões.


E digo-o sem rodeios: aquelas «raparigas da elite» angolana em Londres tinham, de facto, classe. Eram confiantes sem serem ruidosas; o oposto das cenas públicas que hoje vemos — jovens a puxarem perucas e a gritarem por causa de homens. O que vi então foi compostura enraizada em autoconfiança. Escutavam — verdadeiramente —, geriam relações sem teatro e carregavam uma integridade reconhecível: gentis, atenciosas, autoconscientes. Moviam-se com porte; mantinham a calma à mesa e, quando dançavam, faziam-no com contenção. Nunca abusavam do álcool. Vestiam-se com estilo, mas sem ostentação; não chegavam envoltas num nevoeiro de perfume. Resguardavam a sua privacidade, recusavam o excesso de exposição e mantinham fronteiras saudáveis. Eram fiéis a si próprias e, crucialmente, estavam sempre a melhorar — falavam um inglês cada vez melhor a cada semestre, entravam em melhores faculdades, estudavam mais. Eram disciplinadas, não impulsivas, e essa contenção impressionava-me. Dizia-se que esses valores vinham de terem nascido em famílias de elite em Angola; talvez. Mas eu via hábitos, não apenas herança — padrões aprendidos e praticados até se tornarem segunda natureza.


Muitas dessas mulheres mal começavam a aprender inglês e já se comportavam como debutantes. Trazia cada uma nomes que funcionavam como passaportes: Contreiras, Van-Dúnems, Pinto de Andrades, Von-Haffs. Cada nome trazia uma história. Os Van-Dúnem, aristocracia de Luanda de ascendência holandesa-crioula, deram ministros, diplomatas e artistas. Os Pinto de Andrade, intelectuais de Golungo Alto, fundaram o MPLA e moldaram a literatura angolana. Até os Von-Haff, de origem prussiana, se entreteceram na vida empresarial moderna de Angola.


A velha elite era complexa — uns foram guindados pelo Estado colonial, outros subiram pelas missões, outros ainda pela política. Mas, fosse MPLA ou FNLA, católica ou protestante, partilhava um princípio: não envergonhar o nome em público.


Hoje, as regras foram substituídas por recibos. Um bilhete em primeira classe para Lisboa, um apartamento em Chelsea e uma mala de luxo com conta própria no Instagram parecem bastar. As igrejas já não fazem prova de carácter antes de aprovarem um casamento, os mais-velhos já não arbitram disputas e a vergonha — outrora moeda social — deixou de ter curso legal.


Daí termos as paredes de glicínias de Londres como pano de fundo para perucas em voo, uma audiência de milhões e uma secção de comentários a ungir aquilo como «comportamento de elite». Não é. É dinheiro sem manual, dinheiro vivo sem código.


Podemos continuar a chamar-lhe elite. Ou admitir que é outra coisa — uma classe que tem ativos mas não ascendência, riqueza mas não o peso de representar mais do que a si própria.


Londres ficará com a hera e os bancos. Angola ficará com o seu talento para o drama. Entre ambas, há ainda espaço para um tipo de elite que as missões reconheceriam — não melindrosa, não exclusiva, apenas responsável. Gente que sabe que perucas, por mais aerodinâmicas que sejam, não são uma forma de retórica.


O dinheiro pode alugar-lhe uma praça com vista. Não pode, por mais depressa que chegue, ensiná-lo a saber entrar nela.



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