A Quarta Classe do Gangster- Sousa Jamba



Num país cansado de slogans, o homem conhecido por Gangster fala em torrentes: religião e gíria das ruas, memórias de família e história insurgente, escárnio e lamento. Muitos ouvem apenas o ruído. Deviam escutar o método. Sob o tumulto existe uma mente ágil e estratégica que lê sistemas, não manchetes.


Gangster gosta de lembrar aos milhares de seguidores  que só tem a quarta classe. Muitos acreditam; o seu discurso por vezes enrola-se, divaga, cheio de apartes. Uma das coisas que a escola ensina é a ordenar o pensamento em passos claros e sequenciais; ele não faz isso. A mente é indómita, por vezes caótica, como se as ideias chegassem todas de uma vez e disputassem o microfone. 


Mas isso não mede a inteligência. Inteligência é a capacidade de discernir padrões, de ligar o que outros mantêm separado, de improvisar caminhos novos diante de portas fechadas. Nesse sentido é um autodidacta clássico: um homem que construiu as próprias ferramentas mentais a partir da política de rua, da tradição oral, do comércio de sobrevivência e dos instintos adaptativos das subculturas urbanas e migrantes de Angola.


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Não há dúvida de que é também uma figura profundamente carismática, presença marcante no palco mutável da vida política angolana. Num dos directos reuniu seis mil espectadores em poucos minutos, prendendo-os enquanto falava de improviso durante horas, sem notas. Carisma desta voltagem não se fabrica; é parte instinto, parte cadência, parte coragem.


Primeiro, a memória. Convoca um mosaico de nomes, episódios e fracturas: hierarquias eclesiásticas, órgãos de segurança, músicos esquecidos pelo Estado, nós da diáspora de Boston a Nova Iorque. Não é mero exibicionismo; é mapeamento de redes. Compreende como as instituições se encaixam e onde estão os pontos de pressão.


Segundo, o instinto de coligação. Defende acordos pré-eleitorais, não como troca de favores mas como arquitectura, distribuindo responsabilidades sobre bens públicos antes de contados os votos. É pensamento sistémico numa cultura política viciada na improvisação.


Terceiro, a moldura moral. Passa do poder à dor com desarmante rapidez: as mães nos bairros, os artistas que morreram esquecidos, os presos e os famintos. Não é retórica polida, é empatia social a funcionar como radar político. Sabe que a consciência gera inquietação — “os iluminados vivem na dor” — e aproveita-se dessa dor.


Quarto, a mudança de registo. Desloca-se do catecismo à gíria, da sátira ao lamento, alcançando elites e cidadãos comuns sem trocar de microfone. Essa agilidade linguística não é acaso, é instrumento forjado na cultura oral, calibrado para mobilizar.


Quinto, a aposta. Nomeia figuras poderosas, arrisca retaliação e usa a visibilidade como armadura. Não é apenas temeridade, é o cálculo de quem sabe que, num Estado de vigilância, o ruído público pode ser espaço mais seguro do que o silêncio privado.


O problema de pessoas altamente carismáticas e corajosas é que muitas vezes acabam por acreditar no próprio mito. Excedem-se, confundem aplauso com organização e raramente têm paciência para construir coligações. No vasto palco político de Angola temos agora uma personagem intrigante que deslocou parte da arena para os Estados Unidos e actua tanto em transmissões online como no terreno.


Nada disto desculpa os seus excessos, contradições ou os momentos em que o fervor supera os factos. Mas inteligência não é pontuação elegante; é a aptidão para ligar realidades díspares e agir sobre elas. Por esse critério, Gangster é um operador formidável, capaz de alternar entre logística e visão, queixa e proposta, energia da rua e enquadramento nacional.


A tentação entre as elites angolanas é descartá-lo como trovão indomável. Seria um erro de categoria. O país precisa de instituições disciplinadas e política conforme à lei, sim, mas também de tradutores da dor em programa. Se a juventude o escuta é porque ele fala do seu clima.


O desafio não é silenciar a voz, é canalizar a voltagem. Convidá-lo para diálogos estruturados, exigir provas quando acusa, pressionar para metas concretas e verificáveis, e avaliá-lo ( como devemos avaliar todos os líderes) pelos resultados e não pelos decibéis. Feito isso, poderemos descobrir que no redemoinho existe um mapa.


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