Apedrejamento de Hariane Veras Victoria- Sousa Jamba



Conheci Harianne Vera Victoria por volta do ano 2000, na embaixada de Angola em Washington DC. Foi-me logo muito cordial e ficámos algum tempo à conversa. Disse-me de imediato que era jornalista. Entre jornalistas nasce quase sempre uma ligação imediata, feita das complexidades do ofício, das suas inseguranças e alegrias, de tudo o que lhe anda associado. Vi, ao longo dos anos, o caminho que a sua carreira foi tomando.


Harianne Vera Victoria é jornalista, correspondente da TPA em Washington DC. Organiza diálogos de alto nível entre figuras africanas, tem acesso à Casa Branca e está, em termos mediáticos, bem inserida em certos círculos políticos de Washington. Quer se goste ou não, não é fácil chegar a esse patamar. Quer se goste ou não, construiu esse percurso pedra a pedra, passo a passo, até se impor nesse meio e nesse imaginário. Distingue-se por isso nesse universo, mas isso não significa que represente o governo angolano. Não faz sentido que seja alvo de manifestações e de campanhas em Nova Iorque. É lamentável que agora seja tratada como se fosse membro do governo, quando não é. É jornalista. Podemos discordar de uma jornalista, mas isso não a transforma em decisora de políticas. Não será visada por ter um nome conhecido, por ser a figura mais visível e, portanto, a fruta mais baixa na árvore?


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Pergunto-me qual é o desfecho pretendido em relação a esta jornalista. Pretende-se desacreditá-la por completo, arruinar-lhe talvez os meios de subsistência. Mas, se isso acontecer, de que forma avançam as causas que os manifestantes nos Estados Unidos dizem defender? Não haverá, nessa busca, a ideia de que haverá sempre danos colaterais e de que pouco importa quem seja atingido, que alguns cairão pelo caminho e que isso não conta? Para alguns, a reputação não tem valor. Digo isto porque hoje é a Harianne, amanhã poderá ser um de nós, outros jornalistas. E alguns dos nossos jornalistas têm ligações muito sólidas no Ocidente, onde a reputação conta imenso.


Por vezes, na história, quando o coro inteiro canta, é preciso que alguém tenha a coragem de avançar e dizer que estamos a cantar a canção errada, a incitar os sentimentos errados. Creio sinceramente que esta jornalista foi tratada de forma profundamente injusta pelos manifestantes em Nova Iorque.


Recordo que um poeta irlandês advertiu que demasiada crueldade pode transformar em pedra o coração e a arte. Quando estamos magoados, quando nos lançamos em campanhas, quando abraçamos uma causa, é prudente cautela, porque isso também pode endurecer a arte, pode endurecer o coração. A reputação de um jornalista é frágil; há sempre alguém a tentar desfazer a do outro; é uma profissão de ciúmes intensos.


Vivemos hoje um tempo em que muitos estão prontos a erguer pedras para as atirar aos acusados de ter cantado ou falado fora do tom. Raramente olhamos para os nossos próprios pecados. E um dos nossos pecados é precisamente esse: julgar depressa demais, condenar depressa demais. A história de África e a história de Angola estão cheias de pessoas tratadas com injustiça, gente a quem não foi feita justiça porque sobre elas se tomaram decisões apressadas. Cabe aos que têm um mínimo de decência dizer, de vez em quando, que é preciso parar um pouco e observar com mais cuidado os alvos que escolhemos.


Alguns de nós, vindos de certos contextos sociológicos, crescemos em ambientes onde fomos muitas vezes mal avaliados, seja pelos nossos próprios irmãos dentro do nosso campo, seja pelos do lado oposto, por defendermos ideias que não cabiam nos pressupostos dominantes. Fomos exorcizados, fomos mal compreendidos e, por vezes, ainda hoje lutamos para dar sentido ao turbilhão de forças que nos moldou e que nem sempre soubemos compreender.


No meio desse vaivém de acusações, surgem figuras que parecem ter autoridade moral, que falam com uma certeza absoluta, que definem quem é bom e quem é mau e que não admitem zonas cinzentas. Esse género de certeza conduz frequentemente a graves injustiças. E, quando olhamos para trás, do ponto de vista da história, é frequente lamentar-se o que foi feito nessas circunstâncias.


Ter a imagem de Harianne Vera Victoria na mira, como se fosse o alvo a abater pelas falhas do regime angolano, não é o mesmo que escrutinar o poder. É profundamente injusto imputar a uma jornalista pecados que não são os seus.


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