Aos 60 Anos- Sousa Jamba



Hoje, 9 de Janeiro, faço sessenta anos e noto, no pensamento, uma espécie de altitude. Não a altitude da vaidade, que incha. A altitude da perspectiva, onde o ar rareia e as desculpas, lá em cima, perdem o fôlego.

A minha vida foi turbulenta, dessas que ensinam a dormir com um ouvido desperto e a ler uma sala como um camponês lê as nuvens antes da chuva. Durante anos tive pena de mim. Carreguei-a como quem exibe um passaporte carimbado pela desilusão, convencido de que a dor, por si só, bastava para provar seriedade. Depois, algures na subida, a matéria íntima mudou de estado. Não foi um instante heroico. Foi um amolecer lento, passo a passo, até a pena se converter em gratidão. Gratidão simples, quase mineral. Gratidão por ter chegado até aqui.


As montanhas ensinam sem discursos. Ninguém sobe em linha reta; fazem-se ziguezagues que parecem recuo e, no entanto, são a única geometria honesta para ganhar altura. Aprende-se paciência com o próprio ritmo; abandona-se a corrida contra corredores imaginários; aceita-se que, por vezes, o progresso é apenas isto: continuar, uma passada cautelosa a seguir à outra, enquanto os pulmões negociam com o vento.

Daqui, as lições parecem indecentemente simples, como se a vida as repetisse há décadas e eu respondesse com ruído. Nada vale mais do que saúde, bom humor e a capacidade de me maravilhar.

A saúde é o chão de tudo. Não é estética: é licença. É acordar sem ter de regatear com o corpo; é o ar a entrar sem discussão; é o coração a cumprir o seu ofício com fidelidade discreta. Quando a saúde falha, o mundo encolhe para um quarto e um copo de água; quando se mantém, até os dias banais ganham uma generosidade silenciosa.


O bom humor é a minha bengala. Não o humor quebradiço que fere, nem o humor ruidoso que mendiga aplauso. Falo daquele humor que arrefece uma sala, que recusa alimentar o fel, que permite admitir um erro sem transformar o gesto num tribunal. É dignidade com um sorriso; conserva-nos humanos quando seria tão fácil ficarmos cortantes. E há nele coragem, porque escolhe a leveza sem fingir que a verdade não pesa.

E há, por fim, o hábito de me maravilhar, que, aos sessenta, já me soa a disciplina espiritual. Maravilhar-me é manter-me desperto: reparar na luz da manhã a bater numa parede, na chuva a acordar a terra seca, no cheiro do café, na voz de um amigo a dizer o meu nome. Ver um pássaro insistir no canto e perceber que não representa; vive. O assombro não apaga a dificuldade: apenas se recusa a deixá-la contar, sozinha, a história inteira.


As pessoas temem envelhecer porque a aritmética se torna brusca. Há, muito provavelmente, menos tempo à frente do que o tempo já vivido; a ideia pode cair no peito como uma pedra e apertar o horizonte, como se o mundo fechasse algumas portas em silêncio.

Mas a aritmética também pode ser imaginação. Posso deixar que os números ditem sentença, ou tratá-los como variáveis de uma equação ainda em resolução. A pergunta não é quanto tempo sobra; é o que farei com esse tempo.


E depois vem, quase sem pedir licença, a comparação. Medimo-nos pelo que os outros, na nossa idade, parecem ter acumulado: carreiras, casas, títulos, fotografias lustrosas de felicidade. A competição é absurda e, mesmo assim, agarra-nos a garganta; dá-nos a sensação de atraso, como se a vida fosse uma corrida com calendário secreto e um júri à espera na meta.


A mente faz ainda outro truque: fixa-se nos caminhos que não tomei, como se ainda estivessem abertos, como se fosse possível regressar e pisá-los de novo. Remexe no passado como quem rearruma um objeto numa prateleira; inventa escolhas diferentes, chegadas mais cedo, feridas evitadas. É uma ilusão sedutora porque oferece controlo. Mas é roubo. Rouba o único tempo real.


A montanha ensina uma sabedoria mais severa. Não se sobe a chorar o vale que ficou para trás; sobe-se pondo o pé onde ele tem de ir a seguir, confiando que a vista conquistada é a vista desta rota, não a paisagem imaginária de uma vida que não vivi.


É aqui que um horizonte mais curto pode afiar o olhar. Quando me esforço por fazer o melhor do que resta, a vida não empobrece; torna-se mais urgente, mais deliberada, mais digna do trabalho da atenção. Deixo de adiar a minha própria existência. Deixo de viver como se a vida verdadeira começasse depois, depois de mais um êxito, mais uma desculpa, mais uma combinação perfeita de circunstâncias. Começo a tratar o tempo como trato a água numa caminhada longa: com respeito, com cuidado, com gratidão por cada gole.

Parte do medo de envelhecer não é o medo da morte. É a fome de eternidade; a vontade secreta de haver tempo ilimitado para corrigir o registo, acertar contas, ultrapassar as pequenas ofensas do presente. Desejamos a eternidade porque o presente pode ser mesquinho e doloroso, cheio de humilhações miúdas que parecem pedir compensação cósmica.

E, no entanto, há uma descoberta libertadora, à medida que os anos se acumulam: não preciso de eternidade para viver bem. Preciso de presença. Preciso de coragem para parar de implorar ao tempo e começar a habitá-lo.


Assim, aprendo a apreciar uma boa refeição, não como indulgência, mas como comunhão. Aprendo a receber o amor com uma sobriedade nova, porque sei quão frágil ele é e quão depressa pode faltar. Percebo a necessidade da companhia, essa coisa insubstituível que não se compra com dinheiro, estatuto ou barulho. E descubro, com surpresa, que a excitação que eu perseguia em ambições distantes pode, às vezes, morar aqui mesmo, no tempo presente, numa tarde comum que não dói.


A vista cá de cima não torna ninguém superior. Torna-nos responsáveis. Vê-se quantas urgências eram apenas estridência; vê-se quanta energia gastei a defender orgulho, a polir ressentimentos, a ensaiar feridas antigas. E veem-se, com nitidez, os rostos de quem me deu água quando eu tinha demasiado orgulho para pedir; as mãos que me firmaram quando as pedras cederam. A sobrevivência raramente é solitária, mesmo quando a solidão faz barulho.


É isto que quero celebrar aos sessenta. Não uma vida impecável, nem sequer uma vida calma. Celebro a alegria de estar aqui, ainda capaz de rir, ainda capaz de olhar para fora, ainda capaz de olhar para trás sem me afogar. Subi pela turbulência e cheguei à gratidão. Não o digo como slogan; digo-o como quem aprendeu que o cume nunca é o ponto.


O ponto é cuidar do corpo, manter o humor limpo e treinar os olhos para o assombro.

Amanhã continuo a caminhar.


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