Circulam em meios próximos do regime fortes suspeitas de que o Presidente da República, João Manuel Gonçalves Lourenço, terá cedido o controlo/acompanhamento efectivo da Cimangola — uma das maiores cimenteiras do país — ao general José Ferreira Tavares, considerado um dos seus homens de maior confiança no aparelho do poder.
A leitura política ganha força após a nomeação de Agostinho da Rocha Fernandes da Silva para presidente do Conselho de Administração (PCA) da Nova Cimangola, figura descrita por várias fontes como “testa-de-ferro” do general Ferreira Tavares. Embora não ocupe actualmente qualquer cargo governamental formal, Ferreira Tavares é apontado, desde a chegada de João Lourenço à Presidência da República, como uma das personalidades mais influentes do regime, sendo mesmo descrito por sectores internos do MPLA como detentor de amplos “poderes arbitrários”.
A influência do general manifesta-se, segundo as mesmas fontes, não pela ocupação directa de cargos, mas pela colocação sistemática de pessoas da sua confiança em posições estratégicas do Estado e de empresas públicas.
A relação entre Ferreira Tavares e o actual PCA da Cimangola remonta ao período em que o general exerceu funções de administrador municipal do Sambizanga, durante o consulado de José Eduardo dos Santos. Na altura, Agostinho da Rocha Fernandes da Silva desempenhava o cargo de chefe de Repartição dos Serviços Técnicos do município, enquanto Mara Regina da Silva Baptista Domingos Quiosa era directora do gabinete do general.
Mais tarde, quando Ferreira Tavares foi nomeado presidente da Comissão Administrativa da Cidade de Luanda (CACL), propôs Mara Quiosa para administradora municipal e Agostinho da Rocha Fernandes como administrador-adjunto no Sambizanga. A relação de confiança consolidou-se ao longo do tempo. Já sob a governação de Higino Carneiro em Luanda, Mara Quiosa ascendeu a vice-presidente da CACL, mantendo Agostinho da Rocha Fernandes como seu adjunto.
Com a ascensão de João Lourenço à Presidência da República, Ferreira Tavares não assumiu cargos públicos formais, mas viu os seus aliados ocuparem posições-chave. Mara Quiosa foi nomeada governadora da província do Bengo, levando consigo Agostinho da Rocha Fernandes como assessor. Em Dezembro de 2010, este seria promovido a vice-governador do Bengo para os Serviços Técnicos e Infra-Estruturas.
Importa referir que Mara Quiosa mantém também uma ligação familiar indirecta com Ferreira Tavares. A sua mãe, Maria de Jesus Santiago Fernandes da Silva Baptista, é prima-irmã do general, o que reforça a percepção de um círculo restrito de influência política e administrativa.
Fontes políticas indicam que Ferreira Tavares foi o principal padrinho político tanto de Mara Quiosa como de Agostinho da Rocha Fernandes da Silva, enquanto Mara Quiosa consolidou a sua própria rede de confiança com este último. Os três são descritos como formando um núcleo de poder com forte impacto na governação e na gestão de activos públicos.
Portais como Reporter Angola e Ecos e Factos noticiaram recentemente que Mara Quiosa, actualmente vice-presidente do MPLA, estaria no centro de uma alegada interferência política na gestão da Cimangola. Segundo estas publicações, a nomeação de Agostinho da Rocha Fernandes da Silva para PCA da empresa não teria resultado de critérios técnicos ou de mérito profissional, mas de uma indicação política directa atribuída a Ferreira Tavares ou à própria Mara Quiosa, com quem manteve uma relação hierárquica estreita ao longo de vários anos.
A Cimangola tornou-se um activo particularmente sensível desde que, em 2006, Isabel dos Santos adquiriu 49% da empresa, através da compra das participações da portuguesa CIMPOR, integrando-a no seu império empresarial. Em 2020, já no âmbito da política de combate à corrupção promovida por João Lourenço, o Estado angolano arrestou essas participações e assumiu o controlo total da empresa.
Desde então, a Cimangola passou a ser gerida sob tutela estatal, com nomeações associadas a figuras próximas do MPLA, culminando em 2023 com a escolha de Agostinho da Rocha Fernandes da Silva para presidente do Conselho de Administração — uma decisão que, para vários observadores, consolida a empresa como activo estratégico sob controlo político indirecto, levantando dúvidas sobre a prometida despartidarização da gestão pública.
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