O Directo, a Fita e as Cinzas- Sousa Jamba



Há histórias que começam com uma queixa e acabam num espectáculo; quando isso acontece, a justiça recolhe-se a um canto, à espera, enquanto a opinião pública se instala, telemóvel na mão, como quem abre um episódio novo de folhetim.


No caso de DJi Carvalho Júnior, músico e candidato á presidência de Angola, corre a informação de que a antiga companheira apresentou participação por violência doméstica; corre também, insistente, o rumor de uma guerra prolongada, com capítulos sucessivos e com uma ferida adicional, por natureza explosiva: a filha e o acesso à filha, esse ponto em que a dor se converte em argumento. Não sei o que o processo virá a apurar. Sei apenas isto: entre nós, nem sempre é o tribunal que organiza a narrativa. É o ecrã.


E foi no ecrã, numa transmissão ao vivo e dilatada, que ele terá executado a manobra mais eficaz e mais inquietante de toda esta saga: a desconstrução metódica da reputação da ex-companheira. Não como quem perde o controlo; como quem cumpre um guião. A raiva, se existiu, não apareceu em desalinho. Parecia arrumada. Cada frase no seu lugar, cada pausa com a sua função, como uma marcha que não precisa de correr para chegar primeiro.


Nesse relato, ela não surge como pessoa, com contradições e humanidade; surge como rótulo: “groupie”, promíscua, instável; alguém cujos traumas de infância são convocados, não para compreender a vida, mas para a reduzir a um diagnóstico de bolso. E, como se a moral pudesse ser somada em parcelas, entra em cena a contabilidade dos benefícios: carros, presentes, estudos pagos em Portugal, uma casa com piscina. Tudo apresentado como prova de mérito dele e, ao mesmo tempo, como acusação contra ela, como se receber fosse uma dívida perpétua e a gratidão, uma algema.


Depois vem o reforço, esse truque antigo que dá ao público a ilusão de corroboração. Terá sido chamado um homem para admitir uma relação com ela; terá sido mencionada uma acusação de assédio sexual; e até um motorista, segundo o que circula, terá sido puxado para a cena, para repetir uma frase supostamente dita por ela, uma frase moldada para soar a punhal: o desejo de o ver na prisão. Não é apenas exposição. É arquitectura. Empilham-se vozes, fabrica-se a sensação de que já não há saída, oferece-se ao espectador cansado de nuance a comodidade de um veredicto instantâneo.


E há ainda um instrumento, talvez o mais poderoso, porque toca no lugar onde até os cínicos se desarmam: a emoção tratada como cena. DJi Carvalho, quando quer, sabe puxar os fios. Há momentos em que fala de um filho que morreu; a voz, a pausa, o peso da frase, tudo parece montado para nos levar, devagar, ao precipício das lágrimas. Logo a seguir, a narrativa vira-se contra ela com a mesma disciplina: sugere-se que não teria mostrado interesse por essa morte, que não teria respeitado a dor, nem a memória. Assim se fabrica, sem prova pública e com eficácia emocional, a personagem endurecida: a mulher sem compaixão, indigna de ser ouvida.


Depois alarga-se o retrato com um capítulo moral. Fala-se de infidelidades, de vaidade, de promiscuidade; descreve-se uma trajectória em ziguezague entre músicos, como se a vida afectiva fosse uma peregrinação de bastidores, sempre à procura de validação. Na versão oferecida ao público, cada “não” recebido transforma-se em impulso para outra intimidade; e a sucessão de relações é apresentada como degradação, não como desordem humana. O público é convidado a olhar de cima, com uma superioridade higiénica, para uma figura colocada lá em baixo, num pátio de vergonha cuidadosamente iluminado.


O resultado, na linguagem da gestão de crise, é tecnicamente forte: desloca o foco, reescreve papéis, instala um retrato em que a acusadora passa a ser a personagem moralmente suspeita, e o acusado ganha a máscara do homem traído, do provedor mal pago, do pai impedido. Funciona, porque as redes gostam de vilões legíveis; e porque a crueldade, quando é narrada com método, tem um brilho frio que hipnotiza.


Mas há um lado desta história que nos obriga a olhar para dentro, para a sala fechada onde cada um guarda as suas versões secretas do passado.


Quase todos nós, vindos de relações antigas, conhecemos esse rito silencioso. Na noite, quando a casa adormece, revemos mentalmente os vídeos do que vivemos. Editamos, claro. Cortamos as cenas em que fomos mesquinhos, indecisos, cobardes. Repetimos, com zelo, as falhas do outro: a frieza, o egoísmo, o narcisismo. Mas tudo isto acontece em privado. É conversa entre nós e a nossa consciência. Pára-se a fita, respira-se, tenta-se pensar noutra coisa.


E depois há a pergunta inevitável: e as crianças? Quando existem filhos, entra em cena um dever sem glamour, mas com peso. Coparentalidade. Decência. Existe uma obrigação mínima, quase uma higiene moral, de respeitar o espaço onde essa vida tenta crescer. Não por sentimentalismo, mas por maturidade. Para proteger quem não pediu para assistir à guerra.


As crianças crescem. Saem, pouco a pouco, daquele mundo inicial em que a mãe é presença total. E é precisamente aí que se torna decisivo construir uma relação real com o filho ou com a filha: não uma relação de vitrinas e directos, mas uma relação de tempo, constância e afecto.


Ora, quando tudo isto é atirado para a praça pública, convém lembrar uma coisa que muitos adultos esquecem no calor do rancor: à medida que a criança cresce, a imagem da mãe cola-se à criança como um sobrenome invisível. As faltas atribuídas à mãe, as humilhações da mãe, as frases cruéis sobre a mãe, não ficam apenas na mãe. Passam para a filha. Um dia, alguém dirá, com a violência fácil da maledicência: “o que se pode esperar de uma filha daquela mãe?” E isso fere. Fere fundo; fere no lugar onde se forma a autoestima, onde se constrói a noção de pertença.


É por isso que a raiva masculina, quando rebenta, precisa de encontrar canais que não envenenem o futuro. Quando estamos furiosos, quando sentimos o impulso de esmagar, o caminho decente é outro: falar com amigos de confiança, gente com experiência, gente capaz de ouvir o ódio sem o transformar em plano. Dizer tudo ali, no círculo fechado. Largar o peso. Recuperar a razão. Porque, lá fora, em espaço aberto, cada palavra de desmantelamento reputacional dirigida à mãe há de um dia assombrar a filha.


E mais: a filha, quando perceber, não sentirá apenas dor. Pode sentir ressentimento em relação ao pai. Pode ler aquele espectáculo como uma agressão contra a sua própria origem. As crianças absorvem muito mais do que os adultos imaginam. Guardam frases. Guardam silêncios. Guardam olhares. E um dia devolvem.


Por isso, quando alguém decide levar para a praça pública os pormenores íntimos de uma relação antiga, não para esclarecer factos com sobriedade, mas para reduzir o outro a cinzas, a sensação deixa de ser apenas “estratégia” e passa a ser outra coisa. O que poderia ser defesa vira punição. A intimidade, que devia ser resguardo, torna-se arma. A exposição não é acidente; é escolha. E a escolha de humilhar em detalhe, de transformar fragilidades em munição, de queimar a imagem do outro até sobrar pó, revela uma vindicta que roça o patológico.


Há, claro, um limite que não deve ser varrido para debaixo do tapete da “brilhante” gestão de crise. Violência doméstica não é enredo. Não é palco. Quando uma acusação desta natureza entra em cena, o que está em jogo não é apenas reputação; é segurança, dignidade e a protecção de quem pode estar vulnerável. O talento de comunicação pode impressionar. Não absolve.


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