DA RECONSTRUÇÃO NACIONAL A INDUSTRIALIZAÇÃO: COMO O INVESTIMENTO CHINÊS MOLDA A NOVA ANGOLA- Joaquim Jaime



Em outras geografias, o acto de inauguração de uma fábrica teria parecido, à primeira vista, mais um mero evento industrial. Mas a inauguração da fábrica de alumínio eletrolítico Huatong na Barra do Dande, no Bengo, está carregada de um significado que vai além do acto inaugurar de uma planta industrial. É um símbolo potente da transformação profunda que o país está a tentar operar na economia e no seu lugar no mundo. Este projecto, com capital chinês de 250 milhões de dólares, não é apenas mais uma obra. É a materialização de uma estratégia tripla: diversificação produtiva, diplomacia económica pragmática e uma aposta corajosa na soberania industrial. A mensagem do Presidente João Lourenço, no acto inaugural, foi cristalina: Não estamos satisfeitos com o facto de Angola exportar quase que exclusivamente crude, ainda por cima na sua forma bruta. Por sua vez, o Ministro da Indústria e comércio referiu que a inauguração da fábrica “Huatong” simboliza um processo de transformação económica de Angola e a sua industrialização.


A espinha dorsal deste novo caminho é a diversificação da economia. Durante décadas, o destino angolano esteve acorrentado ao preço volátil do barril de petróleo, felizmente esta tendência tem sido, com muito esforço, ultrapassada. Uma riqueza subterrânea que, paradoxalmente, empobreceu o tecido produtivo da superfície. A exportação quase exclusiva de crude bruto foi um pacto faustiano que trouxe receita, mas atrofiou a indústria, a agricultura e a capacidade de gerar emprego qualificado. A nova fábrica de alumínio, que transformará alumina em produto de alto valor, representa uma ruptura com esse modelo extractivista. Ela encarna a transição da economia do “retirar e vender” para a economia do “transformar e agregar”. O Presidente ao mencionar categoricamente a futura Refinaria do Lobito, está a completar o quadro: Angola quer vender produtos, não apenas matérias-primas.


Este salto industrial não seria possível sem uma diplomacia económica astuta e orientada para resultados. A parceria com a China entrou numa nova fase. Já não se trata apenas de empréstimos para infra-estruturas ou de contratos de reconstrução pós-conflito. Estamos perante um modelo mais sofisticado: investimento privado chinês directo em sectores industriais estratégicos. Mais do que falar, os chineses fazem o demonstram. Isto é fundamental. Significa que o capital chinês não vem apenas pelo apetite por recursos naturais, mas pela confiança na estabilidade, no potencial do mercado interno angolano e na sua localização geo-estratégica como plataforma para a região da SADC. Angola está a posicionar-se, de forma inteligente, como um destino seguro para investimentos intensivos em capital e tecnologia.


Aqui está um dos aspectos mais futurista e pouco debatido: a transferência de tecnologia e conhecimento. Uma fábrica de alumínio de última geração não é uma linha de montagem simples. Exige engenharia complexa, gestão de processos de alta intensidade energética e controlo de qualidade internacional. Os 1.200 empregos criados não são postos de trabalho qualquer; são empregos que demandam formação técnica e capacitação. É este o verdadeiro “upgrade” da força de trabalho angolana. A longo-prazo, o valor desta transferência de know-how pode superar o próprio valor do investimento financeiro. Demonstra que a cooperação com a China evoluiu para uma fase de co-produção e capacitação, essencial para a autonomia industrial futura de Angola.


Esta aposta tem um impacto directo e duplo na balança comercial. Por um lado, substitui importações, reduzindo a saída de divisas para bens que podem ser produzidos internamente. Por outro, e ainda mais crucial, aumenta e diversifica as exportações. O alumínio angolano, produzido com a vantagem competitiva da energia barata, terá lugar nos mercados regionais e globais. Cada tonelada exportada será um passo para reduzir a vulnerabilidade às flutuações do petróleo. É a construção de uma soberania económica plural, com múltiplas fontes de receita em divisas.


O projecto na Barra do Dande é, portanto, um caso de estudo da nova Angola. Mostra um governo que utiliza incentivos inteligentes (como a energia a preço concorrencial) para atrair o tipo certo de investimento. Mostra uma diplomacia que consegue converter parcerias estratégicas em projectos concretos de desenvolvimento. E, acima de tudo, mostra uma visão de futuro onde o crescimento económico é sinónimo de industrialização, qualificação e valor acrescentado.


Claro, os desafios permanecem. A garantia de um fornecimento de energia estável e sem interrupções, como alertou o Presidente, é crítica para indústrias electrointensivas como esta. A luta contra o vandalismo e a promoção de um ambiente de negócios seguro são batalhas diárias. Mas o caminho está traçado.


A fábrica de alumínio não se resume ao metal processado. É um farol de uma nova política económica. Sinaliza aos investidores globais que Angola está aberta para negócios que transformem, que industrializem, que empreguem e que exportem. E sinaliza aos angolanos que o futuro do país não está escondido apenas no subsolo, mas também na sua capacidade de ousar, de industrializar e de, finalmente, construir uma economia que sirva a todos, e não apenas ao ritmo cíclico das commodities. A diversificação deslocou-se da mera lógica discursiva; é uma realidade que começa a tomar forma, tonelada a tonelada, no Bengo.


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