Suspeito de que não sou o único angolano que ficou preso, como por um fio invisível, à entrevista de Jade Moura no Fly Podcast.
Sim, tenho culpa, às vezes, de gostar da fofoca, dessa fofoca dourada que Angola fabrica com tanta arte, como se o país tivesse uma oficina secreta para o brilho e para a malícia.
Digo a mim mesmo que será só por minutos e que, depois, me hei de lavar com música séria, com a disciplina luminosa de um poema de T. S. Eliot, com a paciência de um romance vitoriano, com a geometria limpa de uma grande obra.
Mas a tentação volta, teimosa, e eu volto com ela, como quem conhece o perigo e, ainda assim, procura o copo, o fumo, a cápsula, o pequeno incêndio.
Há qualquer coisa nestas histórias que não pede licença ao bom gosto: entra, senta-se, fala alto, e eu escuto.
Às vezes, finjo que é método.
Sou jornalista, digo, e quero perceber o que se passa no meu país; e talvez a fofoca seja a versão sem filtro da realidade, a matéria-prima, o documento bruto onde aparecem as motivações, as rivalidades, o humor, a vaidade e as aspirações de uma elite que gosta de se ver ao espelho.
E, como essa elite se destaca e se impõe, acaba por ser tomada, injustamente ou não, como amostra do todo, como se o retrato de alguns pudesse passar por retrato da nação inteira.
Há também a psicologia da fofoca, que muitas vezes é a psicologia de nos sentirmos acima.
As nossas vidas, na maioria dos dias, são previsíveis: o trabalho, a panela, o trânsito, os mesmos gestos, as mesmas conversas, o amor a andar em chinelos dentro de casa.
Estamos, talvez, contentes com o nosso parceiro; estamos, talvez, contentes com a nossa sorte; e, ainda assim, basta abrir uma entrevista e olhar para uma capa para nascer um ligeiro desconforto.
Vemos gente polida pela luz dos estúdios, bem vestida, perfumada até ao exagero, viajada, sorridente, rodeada de cenários que parecem sempre prontos para fotografia.
E isso pode trazer admiração, sim, mas também um pequeno espinho, uma inveja discreta, por vezes até uma vontade de ver a estátua com uma fissura, só para confirmar que é feita do mesmo barro.
Os alemães têm uma palavra para essa fome: Schadenfreude, o prazer miúdo na dor alheia, o alívio íntimo quando o outro cai do pedestal.
É aí que a fofoca faz o seu truque mais eficaz.
Tu olhas para um casal que, de longe, parece uma vitrina: beleza, disciplina, harmonia, promessas brilhantes, como se o amor deles fosse um manual de luxo.
E, de repente, na narrativa que Jade Moura conta, surge um episódio de agressão, um gesto baixo, um telefonema para a mãe, a tentativa de inverter culpas, o teatro triste do “foi ela quem começou”.
Nada disto é bonito. Nada disto deve ser tratado como diversão. Violência não é tempero de conversa.
Ainda assim, a cabeça humana é perversa e rápida.
Num segundo, a imaginação acelera, compõe cenas, inventa detalhes, veste a realidade com uma coreografia que não conhece e não devia desejar conhecer.
E, no fundo, o que fica não é a compaixão que devíamos sentir, mas a frase secreta que alguns repetem, quase com gratidão: afinal são comuns; afinal também se descontrolam; afinal também se ferem; afinal não vivem num palácio sem ruído.
Então o glamour perde a rigidez, dobra-se e torna-se vizinhança.
E há quem agradeça a Jade Moura por ter levantado a cortina por um instante, por nos ter deixado espreitar a sala de estar de quem julgávamos intocável, como se essa pequena queda nos devolvesse uma espécie de justiça doméstica: a de sermos, todos, menos especiais do que queremos parecer.
Jade Moura, aliás, traz consigo essa metamorfose pública que o povo guarda como uma fotografia antiga.
Não foi, em tempos, conhecida como Eddy Sexy?
E não houve um anúncio, espalhado por essa máquina de boatos que se alimenta de microfones e ecrãs, de que alguém lhe pediria a mão numa cerimónia tradicional, com todo o aparato que a imaginação popular sabe montar, mais rápido do que a realidade?
Nós, espectadores, fizemos o resto.
Enfeitámos a cena com panos e batuques, com rituais inventados, com detalhes que ninguém confirmou, e, nesse teatro mental, fomos encontrando, sem grande esforço, uma nova ocasião para nos sentirmos superiores.
Não por sabermos mais, mas por termos a ilusão de estar de fora; não por sermos melhores, mas por termos a sorte banal de não sermos o assunto do dia.
E depois há a Tia Gucci, essa matriarca do boato, sentada algures na Escandinávia como se estivesse numa cabine de comando e, ainda assim, sempre a par do sangue quente de Luanda.
De lá, com a distância que afia o olhar e a impunidade que solta a língua, vai despejando detalhes sobre famosos, músicos, vedetas e sobre as pequenas guerras de vaidade que a cidade engole e devolve em forma de espetáculo.
Às vezes, mete-se com todos e com quem a rodeia, como se o alvo fosse apenas pretexto para o gesto.
E vem então aquela fúria fabricada, aquele zelo de ocasião, uma indignação sintética, montada com perícia, para produzir estrondo.
Se existisse um prémio para o insulto, ela seria candidata permanente, não por decência, mas por talento.
Porque os insultos, nela, têm uma estranha estética.
São criativos, coloridos, quase poéticos, e, ao mesmo tempo, são lâminas, verdadeiros punhais lançados com precisão, de boca aberta e mão firme, como quem sabe onde dói e insiste exatamente aí.
Há um veneno artificial, sim, mas é tão bem servido, tão convincente, que nos apanha pelo ouvido e nos obriga a ficar, como quem assiste, contra a vontade, a um incêndio bonito.
E eu escuto.
Escuto a lista, a cadência, o inventário das farpas, e sinto, por instantes, aquela mistura vergonhosa de fascínio e repulsa, como se o pior em mim estivesse a ser alimentado com colher de prata.
A fofoca, afinal, não nos dá apenas histórias; dá-nos uma posição, uma cadeira de onde podemos assistir, rir, condenar, e sair intactos, como se a vida, vista de longe, fosse sempre mais simples do que a vida vivida por dentro.
Depois, quase a pedir desculpa a mim mesmo, apetece-me abrir a Bíblia, procurar um salmo, lavar a língua por dentro, ganhar outra respiração.
Mas a limpeza dura pouco.
Passo os olhos por versículos como quem passa água na cara e, mal pouso o livro, a mão já sabe o caminho do telemóvel.
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