No episódio mais recente do Fly Podcast, C4 Pedro, agora Nzamba N’kunku Mpetelo Messami, entra como quem vinha apenas cumprir o rito previsível da promoção e, sem levantar a voz, muda o clima do estúdio. A conversa deixa de ser entretenimento e passa a ser exame. A linguagem, ali, é tratada como instrumento cortante; e a caridade, palavra que costuma soar limpa na boca de quem a pronuncia, revela por vezes a nódoa de uma violência bem penteada.
Ao vivo, Nzamba surge com a nitidez rara de quem recusa a miniatura em que o mercado o quer fechar. É o artista das tabelas de sucesso, sim. Mas é também um homem que pensa com teimosia e argumenta com uma paciência já gasta, como se tivesse passado anos a ouvir risos de corredor sempre que ousava falar de história, de espírito, de destino. Quando descreve a troça automática que acompanha a sua ambição intelectual, as insinuações de feitiço, de loucura, de vaidade, não pede desculpa por ser complexo; expõe, com serenidade afiada, a preguiça social que prefere zombar da complexidade a reconhecer a própria ignorância.
O momento de ruptura chega quando um apelo de angariação de fundos para vítimas das cheias no Bengo faz descarrilar a conversa para um terreno sem conforto. Nzamba não ataca a generosidade; desmonta um certo estilo de generosidade. Aquele que transforma a fome em logótipo, a dor em “conteúdo”, o alívio em sessão fotográfica, como se o sofrimento precisasse de iluminação e ângulo para ser considerado verdadeiro. A frase que fica é simples e devastadora: ajuda que humilha é apenas outra forma de dominação, um guião colonial reencenado em alta definição, com filtros, música de fundo e aplauso pronto.
No centro do seu raciocínio instala-se uma pergunta obstinada, dessas que continuam a bater na cabeça quando já se fechou o telefone: como podemos dizer que “estamos bem” se não sabemos quem somos? A partir daí, cose tudo com um fio de lógica íntima, não académica: nomes, roupas, línguas, deuses, gestos, vergonha, escola, a aprendizagem do olhar sobre a própria pele e sobre a própria história. E o pedido, ou antes a exigência, de ser chamado Nzamba N’kunku Mpetelo Messami deixa de soar a excentricidade; torna-se manifesto em miniatura. Um nome como fronteira, arquivo e linha de combate. Uma recusa de deixar que a conveniência apague a ancestralidade, sílaba a sílaba, até restar um apelido funcional e um passado amputado.
É aqui que ele acende, com precisão, o mito repetido em salas de aula e resumos apressados: o de que a história de África começa no instante em que a Europa “descobre” o continente. Explica o truque didáctico com a calma de quem o viu mil vezes. Celebra-se África como berço da humanidade, mas apaga-se aquilo que esse berço pensou, cantou, inventou, rezou, escreveu, organizou. Ensina-se a uma criança que a grandeza mora sempre noutro lado e, sem um tiro, coloniza-se a imaginação. Para Nzamba, essa é a guerra discreta ainda em curso, a guerra em que a derrota tem a forma de um riso nervoso quando alguém pronuncia um nome africano sem pedir licença.
A viragem mais inquietante do episódio, porém, aponta para dentro. “Temos medo de nós”, diz ele, e a frase cai como pedra num pátio silencioso, porque não acusa um inimigo externo e visível; acusa uma polícia íntima, feita de desprezo interiorizado, que vigia o corpo e a voz, a roupa e a memória. A liberdade, no seu retrato, tem uma simplicidade quase ofensiva, e é essa simplicidade que a torna tão inacessível: vestir um pano sem desculpa; falar a língua da mãe sem gaguejar de vergonha; chamar o seu povo pelos seus nomes verdadeiros sem ser expulso do salão pela gargalhada colectiva. Em muitas cidades africanas, esse gesto ainda é tratado como fantasia, ou como provocação.
Quando convoca o exemplo do Rastafari, a espiritualidade que se faz estilo e o estilo que se faz recusa, o argumento ganha energia moderna sem cair na devoção de catálogo. Nzamba não pede um regresso ao passado, nem uma pureza impossível; pede uma modernidade que não cobre, como taxa de entrada, a auto-amputação. O corte sistemático das raízes para que a copa pareça “internacional”. E quando fala de unidade, não a descreve como slogan de cartaz nem como uniformização; descreve-a como reconhecimento estratégico. Um continente de mil culturas partilha uma batalha central: quem tem o direito de definir África. A diferença não é o problema; o problema é a maneira como a diferença é usada como arma contra os próprios africanos.
Há ainda um detalhe que ajuda a perceber por que razão ele incomoda tanto. Num país viciado no divertimento fácil, nas ideias curtas, no teatro barato, nessas acrobacias de pose que fingem profundidade; numa cultura que, tantas vezes, recompensa a mediocridade e castiga a curiosidade; onde se lê pouco e se desconfia, quase por instinto, de tudo o que exige atenção, vocabulário, paciência; onde a conversa pública se deixa sequestrar por cuecas, sapatos, marcas, corpos, pequenas vulgaridades exibidas como currículo, um homem tão cerebral, tão filosófico, tão disposto a pensar em voz alta torna-se um corpo estranho. E o corpo estranho, em vez de ser escutado, é empurrado para a caricatura. A sofisticação é tratada como afronta. A complexidade vira “mania”. A inteligência, insolência. E a mediocridade, incapaz de o acompanhar, tenta fazer o que sempre faz: reduzir o que não entende ao tamanho de uma piada.
Se o Fly Podcast lhe dá um palco, Nzamba usa-o como sala de aula e como tribunal. A arte, insiste, não é enfeite; é treino para a liberdade. Música e poesia como instrumentos que ensinam a nomear a dor e o desejo, a raiva e a esperança, em voz alta, em público, sem pedir autorização. Essa postura tem custos num mercado que recompensa caricaturas e castiga consciência; ele carrega esses custos como se fossem outra filiação, uma disciplina.
No fecho, o contorno do seu projecto fica claro, não como programa partidário, mas como ética de sobrevivência. Dignidade, sugere ele, exige pelo menos três coisas: uma educação que diga às crianças africanas que são herdeiras de civilizações, e não candidatas permanentes à vergonha; uma justiça que repare roubos materiais e simbólicos, porque o roubo do ouro é visível, mas o roubo do espelho dura mais; e uma ordem social em que ninguém tenha de apagar partes de si para ser aceite, como se pertencer implicasse sempre uma pequena renúncia diária.
A última frase chega sem teatro e, por isso mesmo, fica. “Já não consigo acreditar que estamos bem sem sabermos quem somos.” Num tempo de hashtags e campanhas ocas, Nzamba N’kunku Mpetelo Messami oferece algo mais raro e mais arriscado: um artista a insistir que o primeiro acto de liberdade é dizer o próprio nome e obrigar o mundo a aprendê-lo, correctamente, ou então a suportar o desconforto de não o merecer.
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