O Ingles do Mano Isidro- Sousa Jamba



Sempre associei o inglês a Mano Isidro Peregrino Wambu Chindondo, como se a língua lhe tivesse sido entregue juntamente com o nome de batismo e, por uma espécie de política tácita, tivesse sido retida ao resto de nós. 


A minha irmã Noémia casou com o meu cunhado, Gibbs Mulimbwe, no Estádio do Atlético, no Huambo, em 1975. Um estádio foi feito para o rugido, não para os votos; e, no entanto, ali estávamos nós, a tentar converter betão em ternura. Havia um palco. Havia cadeiras que raspavam no chão como parentes irritados. Havia um microfone que se opunha à sinceridade e anunciava a sua oposição em assobios.


Uma banda tocava músicas africanas, dessas que não é preciso aprender porque já vêm no sangue. “Malaika” subia e descia pelas bancadas, doce como a memória, e por um instante o dia pertenceu a toda a gente. Depois, a certa altura, Mano Isidro chegou.


Devia ter quinze anos. Trazia calças à boca de sino, talvez aos quadrados, a balançarem com a confiança adolescente; sapatos castanhos de plataforma, tão bem polidos que pareciam refletir não a luz, mas a intenção; uma camisa branca; um casaco de cetim, se a lembrança não me engana. Usava um pequeno afro, aprumado e orgulhoso. Mesmo de longe se adivinhava que cheirava bem, não apenas limpo, mas escolhido, como se o perfume fizesse parte do argumento que ele apresentava ao mundo.


Quando subiu ao palco, o ar apertou, como aperta uma sala quando entra alguém que sabe exatamente onde deve ficar. A banda tocava aquilo que era nosso. Mano Isidro escolheu o que era emprestado. Otis Redding. “What Am I Living For”. Inglês, no Huambo, num estádio, naquele ano exato, dito com uma segurança que tornava nativo o que era estrangeiro. Cantou lindamente. Não exibiu, não representou; vestiu a canção.


O meu pai estava lá, de fato, muito direito, muito quieto. Viu Mano Isidro com um orgulho que eu já então sabia ler. Não era o orgulho de um casamento a correr bem, nem o orgulho social de uma família a portar-se como deve. Era o orgulho de reconhecer excelência, limpa e inconfundível, diante de pessoas que a haveriam de recordar. Eu, rapaz, tomei esse orgulho pelo seu valor imediato e guardei-o como quem guarda uma medalha.

Muitos anos depois, compreendi o que mais havia dentro daquele olhar. O pai  do Mano Isidro morrera quando ele era muito pequeno, durante uma operação em que algo correu mal com a anestesia. Eu não sabia isso no dia do casamento. Soube mais tarde, e o passado reorganizou-se sem pedir licença. O orgulho que eu vira no rosto do meu pai começou a parecer-se com outro orgulho, por momentos tomado de empréstimo em nome de alguém ausente. Passei a acreditar que o pai do Mano Isidro fora colega do meu pai, próximo o bastante para que a perda deixasse marca. Naquele dia, ao ver o rapaz cantar em inglês com tamanha compostura, o meu pai não se orgulhava apenas do talento. De algum modo silencioso, estava a ocupar o lugar do homem que não podia ver o filho.

E eu, a ver tudo sem entender nada, fiz um voto. Um dia falaria inglês como Mano Isidro o falava.


Dez anos depois, o inglês encontrou-me de novo, não num estádio, mas no mato, no sudeste de Angola, em plena guerra civil, no território controlado pela UNITA. Eu ia com um grupo de jornalistas, essa espécie profissional que viaja na direção do perigo com cadernos na mão e um certo heroísmo desconfortável. Levavam-nos em Land Rovers, Unimogs e jipes. A chuva caía com força bastante para pôr as árvores a soar ocupadas. A estrada era, por vezes, estrada; por vezes, apenas a ideia dela, uma persuasão estreita aberta entre capim e lama.


A base não se anunciava. As tendas baixavam-se ao chão, como criaturas que aprenderam a humildade. Valas e abrigos cortavam a terra em cicatrizes práticas. Havia atividade por todo o lado: homens armados a moverem-se com a facilidade de quem deixou de negociar com o medo; Kalashnikovs ao peito; bolsas pesadas de carregadores; corpos endurecidos pela disciplina de sobreviver. Via-se músculo, sim, mas via-se também resistência, esse aspeto compacto de quem a dureza ensinou a não desperdiçar nada.


Conduziram-nos para baixo, para dentro da terra, a um bunker que, à primeira vista, parecia uma gruta para onde nos levavam homens que não sorriam. Depois, o bunker revelou a sua segunda vida. Era cimentado. Havia cadeiras de madeira, toscas, dispostas como se alguém ainda acreditasse na ordem. Havia um projetor de diapositivos.


Os jornalistas fizeram o que os jornalistas fazem sempre quando encontram um detalhe que não devia existir. Perguntaram-se de onde vinha a energia. Não havia gerador por perto, nenhum ruído confortante de máquina. Mais tarde soubemos que, ao longe, havia uma central a gasóleo, um grande motor a alimentar aquela base, as suas secções, os seus mapas, as suas salas de homens a estudar relevos como sacerdotes a estudar escritura.


Mapas por toda a parte. Linhas, símbolos, coordenadas, a gramática paciente da guerra.

E então ele apareceu.


De novo Mano Isidro, agora com cerca de vinte e cinco anos, naquela forma que os homens ganham quando correm porque têm de correr, não porque a moda o manda. Trazia camuflado, bem cortado e limpo. As botas eram castanhas e o couro estava polido como se ele as tivesse acabado de tirar de uma caixa e se recusasse a deixar o mato reclamá-las. Era deslumbrantemente bonito, daquele tipo de beleza que faz até o cínico parar, ainda que seja apenas para fingir que não parou.


Alguns jornalistas, ao verem o projetor, presumiram que ele era o homem encarregado de pôr os diapositivos a passar e fazer a tecnologia obedecer. Olharam-no com uma impaciência leve, prontos a regressar ao assunto sério assim que o assistente cumprisse a sua parte.

Não era o assistente. Era o briefing.


A última vez que me vira, eu tinha nove anos. Agora eu tinha dezanove. No meio daquela gente, reconheceu-me. Um lampejo de alegria atravessou-lhe o rosto, rápido e humano. Disse o meu nome e acenou, como quem prende o instante na parede antes de a sala voltar a encher-se de guerra.

Depois falou.


O briefing foi brilhante, em inglês perfeito. Não apenas fluente, mas exato. Os termos militares assentavam-lhe na boca como se tivessem nascido ali. Os factos vinham em formações limpas. Quando vieram as perguntas, ele manejou-as com uma facilidade que denunciava, desde logo, que conhecia por dentro o apetite dos jornalistas e o poder que as histórias têm. Respondeu com a calma de quem já se sentara em reuniões estratégicas e compreendera que os media e a tática podem caminhar juntos, cada um alimentando o outro rumo a um objetivo maior.


À minha volta, os jornalistas começaram a perguntar, em voz alta, que academia o teria formado, que universidade na América ou em Inglaterra o teria polido até àquele acabamento. Faziam a pergunta errada. A pergunta não era onde ele aprendera inglês; era que tipo de mente o aprende assim e o usa como ferramenta, não como adorno.

Senti orgulho dele de novo, e esse orgulho tinha o desenho antigo do orgulho do meu pai no Huambo, com uma diferença: agora pertencia-me.


Anos mais tarde, no Canadá, deram-me mais uma peça da resposta.


Visitei a senhora Etta Snow, uma missionária canadiana que passara grande parte da vida na Missão do Dondi. O apartamento dela era limpo à maneira severa anglo-saxónica, limpo ao ponto de nos fazer verificar os sapatos à porta mesmo quando já estamos lá dentro. Nada estava amontoado. Tudo tinha um lugar atribuído e parecia permanecer nele por respeito. Numa das salas havia quadros do Dondi, retratos e cenas da missão, rostos de pessoas que outrora atravessaram os nossos dias com a naturalidade da luz.


Ela falou comigo em umbundu e, à medida que falava, a missão ganhou vida. O Dondi voltou com os seus caminhos vermelhos, as suas vozes, a sua mistura peculiar de disciplina e calor. Cozinhou-me pirão, e frango à maneira angolana, um milagre doméstico feito num fogão canadiano. A comida pode ser um ato de memória. Pode também ser um ato de misericórdia.

Depois, com uma casualidade quase meteorológica, perguntou-me se eu conhecia o Isidro.

Disse que sim, muito bem.


Ela sorriu. E começou a falar dele em criança.

Sempre que apareciam missionários americanos ou canadianos no Dondi, dizia ela, ele aproximava-se e começava a falar em inglês. Não com timidez, nem como um aluno a pedir aprovação, mas como um rapaz a experimentar uma porta para ver se ela abria. Não precisou de lições formais para começar. Os missionários gostavam de conversar com ele porque ele era inteligente e educado, e porque há um prazer particular, quase vaidoso, em ser interpelado com confiança por uma criança. Respondiam-lhe. Incentivavam-no. Iam-lhe dando palavras, e ele crescia depressa com essa dieta.


Depois ela riu-se e deu-me o detalhe que o fez, de repente, humano. Muitas vezes vinha ter com ela para pedir rebuçados e doces. E pedia-os em inglês tão elaborado que se tornava difícil negar-lhos. Não se recusa de bom grado a um rapaz que teve tanto trabalho com a nossa língua.


Assim, o inglês que eu primeiro ouvira no Huambo, cantado por cima de convidados e poeira de estádio, não descera do céu. Fora construído, palavra a palavra, por apetite, por encanto, por audácia, por um rapaz do Dondi que ia direito aos estrangeiros e insistia, com polidez, na conversa.


E, algures dentro de todas essas cenas, permanecia de pé o voto que eu fizera em criança, teimoso e luminoso: um dia falaria inglês como Mano Isidro. Não apenas correto, mas com aquela autoridade calma que faz uma língua emprestada soar a casa.


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