Quando Nicolás Maduro atravessava os corredores de Miraflores, entre mármores gastos e luzes demasiado brancas, a moldura humana que o escoltava dizia mais sobre o regime do que uma hora de retórica. Não era apenas segurança; era doutrina tornada carne. Vi viam-se olhos sem teatro, mãos sem hesitação, passos que não pediam licença. E, segundo o comunicado de Havana, os homens mortos na operação eram cubanos, destacados para “missões” ligadas à proteção presidencial, enviados como se uma ilha pudesse fornecer, por destacamento, aquilo que um Estado já não conseguia produzir por confiança.
A figura do guarda estrangeiro não é nova: é antiga como o medo e persistente como a suspeita. Os príncipes, quando deixaram de dormir, não imaginaram primeiro o inimigo que vinha do mar; imaginaram o inimigo que já estava dentro, o general que media forças, o ministro que colecionava apoios, o cortesão que sorria enquanto contava. Por isso, através dos séculos, tantos homens de poder desejaram um círculo íntimo composto por quem não tinha família na cidade, nem dívidas no bairro, nem padrinhos no quartel; por quem não pertencia às facções que crescem, silenciosas, nos pátios do palácio.
Na Venezuela, essa prudência antiga assumiu a forma de sistema. O chavismo nasceu a proclamar soberania e povo; acabou a tratar a confiança como bem perecível, como moeda evaporada. A presença de cubanos no dispositivo de segurança de Maduro não foi pitoresca de bastidores, nem curiosidade para jornalistas. Foi resposta institucional a uma ansiedade central: a certeza de que o risco maior, no instante decisivo, não se encontrava na rua; encontrava-se no próprio aparelho.
A inflexão antecedeu o homem. Depois do susto de 2002, Hugo Chávez compreendeu a lição que a história repete com crueldade: um governo pode sobreviver a protestos, a sanções, a editoriais, ao escárnio; não pode sobreviver ao seu próprio sistema de armas quando esse sistema decide, por ambição ou por pânico, trocar o chefe. A partir daí, a “assessoria” deixou de ser visita e tornou-se residência; o conselho tornou-se comando; a cooperação tornou-se nervo.
Falou-se de números que oscilavam como fumo: milhares de agentes e assessores cubanos a operar em território venezuelano, entre segurança, informação e contra-informação. A aritmética, nestes domínios, é quase sempre parte do nevoeiro. Mas o essencial não depende da contagem; depende da função. E a função, ali, parecia inequívoca: garantir que o acesso ao chefe não fosse um corredor venezuelano, mas um labirinto sob vigilância estrangeira; garantir que a conspiração interna não encontrasse o ouvido certo; garantir que o golpe, quando se desenhasse, batesse num obstáculo que não pertencia à mesma família de ressentimentos.
O método era simples, e foi por isso que funcionou durante tanto tempo. Não se eliminou a guarda local, porque isso teria sido demasiado visível e, portanto, demasiado perigoso; integrou-se, infiltrou-se, supervisionou-se. A engrenagem venezuelana continuou a girar, mas com eixo importado. Houve venezuelanos no dispositivo, como era inevitável; porém, no último anel, naquele que tocava o corpo, decidia a aproximação, fechava o portão, abria a porta, tendia a mandar quem não partilhava os laços da praça nem os compromissos da caserna.
Foi aí que surgiu a diferença entre lealdade a um homem e lealdade a um sistema. Um guarda venezuelano, por mais disciplinado, respirava o mesmo ar social do país; tinha parentes, memórias, dívidas, medos, desejos, tentações. Podia ser persuadido, pressionado, comprado, desmoralizado. Um guarda estrangeiro, quando cuidadosamente escolhido e cuidadosamente isolado, não tinha futuro político ali; o seu futuro estava na instituição que o enviara. A sua fidelidade tornava-se, assim, menos sentimental e mais mecânica; menos patriótica e mais funcional.
E antigos responsáveis, ou pessoas que se moveram por dentro das engrenagens, terão indicado que o dispositivo cubano desfrutava de prerrogativas largas, muito além do que se associaria a uma escolta estrangeira. Não seriam apenas guarda-costas; exerceriam controlo efetivo sobre a segurança interna de Maduro, com vigilância sobre figuras venezuelanas, como se a lealdade fosse um músculo apalpado todos os dias. Teriam sido selecionados e destacados por estruturas do Ministério do Interior e da segurança do Estado cubanos, operando como corpo autocontido dentro do Estado venezuelano, com regras próprias, hierarquias próprias, silêncio próprio.
Nesse desenho, tocariam inteligência e contra-inteligência. Teriam ajudado a reestruturar órgãos, implantando-se em pontos sensíveis e, por essa via, acumulando um poder de veto que não se anunciava, mas se sentia: quem entrava, quem saía, quem se aproximava, quem ficava sob suspeita. Teriam monitorizado “quem espionava quem” no interior do regime, tarefa que, em teoria, pertenceria a serviços nacionais. E, no núcleo duro da proteção física, manteriam acesso privilegiado à pessoa e às residências do presidente, com margem de comando nos momentos em que a segurança deixou de ser protocolo e passou a ser combate.
As implicações políticas seriam claras e amargas. A proteção transformar-se-ia em alavanca. Quem guardava recolhia informação; quem recolhia informação passava a poder constranger; e o guardião, sem deixar de guardar, aproximava-se do carcereiro. A dependência, nessa forma, não era apenas técnica. Era psicológica. Era moral. E era, sobretudo, estratégica: o sistema fora desenhado para antecipar golpes militares, sufocar deserções de elite, impedir que a própria casa derrubasse o dono.
Foi nesse cenário que até o aluno menos brilhante de uma escola de inteligência reconheceria oportunidades como quem reconhece ferrugem num metal forçado. O poder estava centralizado, compacto, quase táctil. Estar perto do presidente significava estar perto do segredo, do dinheiro, do gesto que mudava destinos. E, quando o poder se condensou assim, produziu um subproduto inevitável: uma corte medida pela distância ao corpo do chefe; e uma legião de vaidades feridas quando essa distância aumentava por decisão alheia.
Os motivos, nesses ambientes, raramente são nobres. Houve dinheiro, sexo, festas, favores; houve medo; houve a fome de voltar a contar. Houve orgulho ferido. Houve ressentimento acumulado. E, no ponto exato em que o ressentimento encontrou uma oferta, nasceu o informador. Bastou uma quantia bem colocada e um pouco de reconhecimento, moeda mais intoxicante do que o dólar, para recrutar oficiais e dirigentes que se sentiriam preteridos, humilhados, diminuídos. O homem afastado do círculo íntimo transformou-se em arquivo ambulante; o que perdeu influência começou a vender mapas; o que já não entrava na sala principal compensou a exclusão com confidências.
E essas confidências, somadas, deram o essencial: rotinas, horários, deslocações, códigos, fissuras, lealdades compradas, lealdades fingidas. Ofereceram, sobretudo, aquilo que mais inflamou certos setores: a sensação de domínio estrangeiro, a ideia de que o coração do regime batia ao ritmo de operativos externos e de que a soberania, tão proclamada, se convertera em contrato silencioso.
Quando, por fim, a engenharia encontrou a sua prova, tudo mudou de cor. Um círculo de segurança desfez-se com rapidez. A morte surgiu em número redondo. O luto apareceu com contabilidade precisa e biografia ausente. E o país viu o que sempre estivera implícito: que a sobrevivência do chavismo repousara, em parte, numa espinha dorsal estrangeira; que o corpo do poder fora protegido por um enxerto; e que, quando o enxerto falhou, o corpo tremeu.
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