Há frases que, ditas num estúdio, atravessam a internet como faísca em capim seco. Não porque sejam falsas, mas porque atingem um nervo vivo. Cleyton M, músico e dançarino, pronunciou uma dessas observações que não pedem aplauso: censurou a sua geração por querer muito e por estar pouco disposta a trabalhar. A reacção foi imediata, ruidosa, previsível. Os guerreiros digitais, sempre prontos a confundir justiça com linchamento, entraram em fervor: criticaram-no, caricaturaram-no, exigiram o seu “cancelamento”, como se a vida pública fosse uma praça de execuções e não um lugar de responsabilidade cívica.
O paradoxo é simples. Cleyton M não se fez à espera de que o mundo lhe entregasse aquilo que não se conquista. O seu percurso tem a marca clássica do ofício, e o ofício é sempre menos vistoso do que o vídeo final. Há repetição; há erro; há correcção; há dor muscular; há disciplina. Quem dança e quem canta com seriedade sabe-o sem sentimentalismos: o talento, sem trabalho, é fogueira curta.
Eu conheço esse terreno por dentro. Tenho acompanhado o universo da música a partir da crítica e das relações públicas, e sei quanto custa sustentar uma carreira artística com decência. Há ensaios que começam quando a cidade já está exausta; há negociações que gastam o ânimo; há atrasos, pequenas humilhações, e a obrigação diária de continuar a ser bom quando a excitação inicial já se evaporou.
É aqui que o tema se alarga e começa a incomodar. Em Angola, vai-se formando uma juventude treinada para o espelho e não para a travessia. Uma geração narcísica, autocentrada, com pouca aptidão para o sacrifício e com uma incapacidade, por vezes quase ostentada, de receber crítica. Confunde-se exigência com ataque; confunde-se reparo com humilhação. E, assim, educam-se susceptibilidades como se fossem virtudes.
A escola oferece uma imagem límpida desse problema. Alguns estudantes queimam a meia-noite, estudam com afinco e tiram vinte. Devem ser elogiados. Outros passaram a noite em festa e, ainda assim, reclamam o mesmo prestígio, a mesma reverência, a mesma coroa simbólica. Não pedem compreensão; pedem equivalência. Quando o mérito alheio é reconhecido, não o lêem como exemplo; lêem-no como afronta. Eis a raiz da falsa igualdade: a crença de que os resultados devem ser idênticos mesmo quando o esforço foi desigual. Uma sociedade que adopta essa crença começa a premiar a desculpa, a cultivar a mediocridade, a transformar a queixa em moeda moral.
A família expõe a mesma fragilidade de modo mais íntimo. Uma rapariga engravida; convoca-se uma reunião, não para a esmagar, mas para a ouvir e repartir responsabilidades. Ali estão os mais velhos que, no fim, garantem o pano, o prato, o remédio. E, apesar disso, instala-se nela, por vezes, uma sensação estranha de direito automático, como se a assistência dos outros não fosse sacrifício, mas obrigação do mundo. Do outro lado surge o rapaz, muitas vezes já com idade para saber melhor. Não assume; explica. Não repara; argumenta. Culpa o bairro, o álcool, os amigos. Tudo, menos a própria mão. A maturidade começa precisamente onde termina a habilidade de se desculpar.
O quadro agrava-se quando observamos o que a televisão e as redes consagram como modelo. Em muitos talk shows, celebra-se a idiotia como se fosse carisma. Falta a ambição de elevar o gosto, de ensinar a juventude a desejar uma vida mais larga do que o próprio umbigo. O que se oferece, com frequência, é o brilho curto da carnalidade exibida como currículo; um infantilismo glorificado, com luz de estúdio e gargalhada pronta. Não é liberdade. É regressão com roupa nova.
E Angola não é pobre em bons exemplos. Temos jovens mulheres advogadas, pensadoras, académicas; mulheres a brilhar na medicina, na engenharia, nos negócios. Temos rapazes a destacar-se em iniciativas cívicas e religiosas, com seriedade e obra. Eles existem. Trabalham. Constroem. O que raramente recebem é o palco à altura. Em contrapartida, figuras vulgares ocupam o centro do ecrã e tornam-se referências para adolescentes. O ecrã não apenas entretém: consagra. Quando a referência pública passa a ser o grotesco e o intelectualmente pobre, a juventude aprende a admirar aquilo que deveria olhar com distância crítica.
Depois, quando alguém desafia este estado de coisas, a multidão levanta-se não para discutir, mas para abafar. A crítica vira “ódio”. A exigência vira “inveja”. E assim se explica a fúria contra Cleyton M: não foi a frase que feriu. Foi o espelho. Uma cultura habituada a maquilhar-se não suporta ser vista à luz crua.
Em vez de “cancelar” quem recorda a ética do esforço, Angola deveria agradecer-lhe. O país não precisa de uma igualdade de resultados fabricada a partir de desculpas; precisa de igualdade de dignidade, acompanhada por uma cultura de trabalho, de responsabilidade e de formação do carácter. Cleyton M não atacou a juventude. Tentou salvá-la do seu pior inimigo: a crença de que o mundo deve ajoelhar-se diante do nosso desejo. A vida não ajoelha. A vida cobra. E a única resposta adulta é aprender a pagar com trabalho.
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