Fiquei alarmado ao saber que uma fatia relevante dos cursos de Medicina no Brasil teve desempenho insuficiente no novo Exame Nacional de Formação Médica (Enamed), aplicado pelo Ministério da Educação em parceria com o Ministério da Saúde. Cerca de um terço dos 351 cursos avaliados ficou com as notas 1 ou 2, níveis que o próprio MEC classifica como não proficientes, atingindo mais de 13 mil estudantes entre aproximadamente 39 mil finalistas.


A minha inquietação, porém, não nasce apenas do retrato que estes números traçam sobre a qualidade de uma parte da formação médica brasileira. Nasce, também, do eco que produzem deste lado do Atlântico, onde a partilha da língua se transforma, muitas vezes, num atalho emocional para a confiança. Tenho a impressão, possivelmente exagerada, de que um número significativo de futuros médicos da África lusófona passa por faculdades brasileiras, seja em cursos regulares, seja em estágios e programas de cooperação, como os que envolvem profissionais angolanos em instituições públicas do Brasil. Conheço pessoalmente três angolanos formados no Brasil e vários moçambicanos que seguiram caminho semelhante. Talvez por isso a notícia me tenha soado como um copo a estilhaçar-se no chão da cozinha: o ruído é breve; a inquietação fica.



Há ainda um orgulho emprestado, quase infantil, que nos empurra para a fantasia de um Brasil na vanguarda da medicina, por afinidade linguística, por proximidade cultural, por um hábito sedimentado ao longo de décadas de circulação de estudantes e profissionais. É uma vaidade sem prova sistemática. O próprio Enamed sugere um quadro menos confortável: coexistem desempenhos fortes, em particular em universidades federais com muitos cursos nos patamares 4 e 5, e a proliferação de escolas privadas mal avaliadas, algumas sob vigilância e supervisão reforçadas. A generalização fácil, essa, deixa de ter chão. E, mesmo assim, a fantasia instala-se. Faz ninho.


Recordo um episódio que me envergonha e me diverte, pela sua irracionalidade. Fui atendido na Clínica Endiama, na Ilha de Luanda. O médico tinha um sotaque brasileiro, daqueles que insinuam anos de aulas, internatos, turnos longos, corredores iluminados a néon. Bastou ouvi-lo falar para eu sentir um alívio quase imediato, como se o meu corpo confundisse pronúncia com competência. A ansiedade foi tratada pelo som da voz, não pela evidência do currículo. O sintoma, esse, continuou sem diagnóstico.


É assim que nós, criaturas supostamente racionais, vamos erguendo uma hierarquia invisível. Classificamos médicos pela geografia do diploma, como quem classifica vinhos pela região ou comprimidos pelo país de fabrico. Durante muito tempo, na minha cabeça, existiu uma tabela tácita: Portugal no topo, Brasil logo a seguir, Angola um degrau abaixo e, no fundo da escala, Rússia e Cuba. Um mapa moral feito de preconceitos, estereótipos de Guerra Fria e anedotas de consultório.

O mais curioso é que tenho, diante dos olhos, provas diárias de que essa tabela não vale nada. Em Benguela, um urologista formado na Rússia e em Itália tem salvo, e continua a salvar, um número incalculável de vidas: mãos firmes, diagnóstico lúcido, decisão rápida quando é preciso. Num hospital público de Maputo, uma cardiologista cubana detetou, numa consulta de rotina, um aneurisma que três médicos portugueses tinham deixado escapar. Salvou a vida do doente e devolveu serenidade a uma família inteira. A realidade, quando entra pela porta do bloco operatório ou da enfermaria, desfaz o folclore.


O problema, portanto, não é o Brasil, nem Portugal, nem Angola, nem a Rússia, nem Cuba. O problema é a facilidade com que transformamos bandeiras em certificados de qualidade e sotaques em selos de garantia. Uma faculdade excelente pode existir num país de reputação apenas mediana, tal como uma faculdade frágil pode esconder-se num país de prestígio histórico. O próprio mapa do Enamed, com ilhas de excelência e zonas de fragilidade, é um lembrete severo. E um exame, por mais estatisticamente relevante que seja, não descreve sozinho o universo da formação médica. Funciona, antes, como sirene.


Esta sirene toca em dois tons ao mesmo tempo: prudência e maturidade. Prudência para não tratarmos a língua como garantia clínica, nem o passaporte como sinónimo de competência. Maturidade para exigirmos critérios verificáveis: acreditação rigorosa, estágios bem estruturados, supervisão qualificada, prática clínica real, avaliações exigentes, cultura de segurança do doente, transparência de resultados. Instrumentos robustos de avaliação nacional, como o próprio Enamed e os debates sobre exames de proficiência, pertencem a esse amadurecimento. Um diploma, por si só, é papel; o que conta é o treino, a exposição ao erro, a humildade de corrigir e a disciplina de repetir o gesto até ele ficar limpo.


Talvez valha, também, uma introspeção desconfortável. A nossa confiança no médico “de fora” é, por vezes, uma forma polida de desconfiança em nós próprios. É mais simples acreditar num sotaque ou num carimbo estrangeiro do que comprometer recursos com hospitais-escola, docentes valorizados, bibliotecas atualizadas, laboratórios de simulação clínica e regulação firme. Investimentos que experiências de cooperação Brasil–África mostram ser possíveis, mas exigentes. O exotismo sai barato. A reforma, não.


Se a notícia sobre o desempenho de parte dos cursos de Medicina no exame brasileiro estiver a ser corretamente compreendida, não deve servir para ridicularizar estudantes, nem para alimentar xenofobias académicas, nem para transformar um país inteiro em caricatura. Deve servir para perguntar, com seriedade: que faculdades falharam, porquê, e que mecanismos efetivos de correção e supervisão estão em curso. E, do nosso lado, deve acender outra pergunta, ainda mais prática: quando enviamos jovens para se formarem fora, que filtros usamos, que acompanhamento fazemos, que equivalências exigimos, que estágios e integrações no sistema de saúde garantimos no regresso.


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