Angola: Entre o Medo da Mudança e o Medo da Continuidade- Hitler Samussuku

 


Angola vive hoje um paradoxo político profundo: o país encontra-se suspenso entre dois medos. De um lado, o medo da mudança; do outro, o medo da continuidade. Ambos atravessam o sistema político, moldam comportamentos e condicionam o debate sobre o futuro nacional.


Para o MPLA, partido que governa o país desde a independência em 1975, a mudança é vista com desconfiança. Após quase cinquenta anos no poder, o partido construiu um Estado altamente centralizado, onde o poder político, económico e administrativo se entrelaçam numa mesma estrutura. Ao longo desse período consolidou-se uma rede de relações baseada frequentemente em compadrio, favoritismo e lealdades pessoais, mais do que em convicções ideológicas ou competição democrática.


Num contexto como este, a hipótese de alternância política gera inevitavelmente receios. Um partido que nunca experimentou a oposição dificilmente se imagina fora do poder. O receio não é apenas político; é também económico e social. Para muitos sectores do aparelho estatal e das elites próximas do poder, perder o controlo do Estado pode significar perder acesso privilegiado a recursos, influência e protecção institucional.


Essa cultura política do medo não surgiu recentemente. Ela tem raízes profundas na própria história interna do movimento. Durante a liderança de Agostinho Neto, figuras importantes do nacionalismo angolano como Viriato da Cruz e Mário Pinto de Andrade foram marginalizadas , afastados e combatidos até a exaustão. O episódio mais traumático ocorreu em 1977, com a repressão contra os chamados fraccionistas liderados por Nito Alves.


Nos anos seguintes, já sob José Eduardo dos Santos, as dinâmicas de exclusão e disputa interna continuaram a marcar a vida política. Dirigentes históricos como Lúcio Lara, Iko Carreira ou Ndunduma também viveram momentos de marginalização política.


Mais recentemente, com a ascensão de João Lourenço ao poder em 2017, surgiu um novo ciclo de reorganização das elites. A substituição de José Eduardo dos Santos foi acompanhada por um ambiente de forte tensão entre os sectores ligados ao antigo presidente e a nova liderança. Para muitos observadores, instalou-se novamente uma atmosfera de medo entre aqueles que anteriormente orbitavam o poder.


Esse receio explica, em parte, a resistência do partido governante a reformas estruturais que possam redistribuir poder. As autarquias locais, por exemplo, são frequentemente vistas como uma ameaça ao controlo central do Estado. Da mesma forma, uma separação efectiva entre os três poderes — executivo, legislativo e judicial — implicaria reduzir a concentração de autoridade que caracterizou o sistema político angolano durante décadas.


Nos bastidores do poder, alguns sinais também revelam ansiedade face ao futuro. O processo de privatização de empresas estratégicas e a aceleração de decisões económicas importantes em períodos próximos das eleições alimentam a percepção de que certos sectores procuram reorganizar posições antes de eventuais mudanças políticas.


Contudo, o medo não reside apenas no poder. Na oposição também existem receios. Há o medo da continuidade de um regime percebido como excessivamente centralizado e autoritário. Há o receio de que as liberdades políticas se tornem cada vez mais limitadas. E existe igualmente o temor de que o controlo prolongado do Estado por uma única força política perpectue desigualdades económicas e bloqueie oportunidades de mobilidade social.


Nesse contexto, Angola encontra-se diante de uma encruzilhada histórica. A questão central não é apenas quem governa, mas como garantir uma transição política que não produza vencedores absolutos nem vencidos irreconciliáveis.


É precisamente nessa lógica que o presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior, tem defendido a ideia de uma transição política pacífica e responsável, baseada num pacto com garantias mútuas entre as principais forças políticas do país. A proposta assenta na premissa de que a estabilidade de Angola depende menos da victória de um partido e mais da construção de regras comuns que todos aceitem respeitar.


No fundo, o grande desafio angolano é psicológico e institucional ao mesmo tempo: superar a política do medo. Medo de perder o poder, medo de viver sem ele, medo da mudança e medo da continuidade.


Talvez o verdadeiro passo em frente seja reconhecer que nenhuma sociedade pode construir o seu futuro prisioneira desses receios. Angola precisa de imaginar um novo contrato político onde alternância não signifique vingança, e onde governar não seja sinónimo de dominar.


Porque um país só se transforma verdadeiramente quando deixa de ter medo do seu próprio futuro.


Talvez tenha chegado o momento de Angola pensar-se sem medo de ser feliz.


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