Não me surpreendeu o alvoroço levantado quando a UNITA tornou pública a lista dos secretários provinciais. A primeira crítica, irrompendo com veemência quase instantânea, fixou-se num dado simples e, justamente por isso, arrasador: entre as 21 províncias, apenas uma mulher. Para muita gente, não se tratou de um pormenor estatístico. Tratou-se de um sintoma. E, como sucede com certos sintomas em política, esse número exíguo falou mais alto do que muitos discursos solenes.
O incómodo compreende-se.
Não está em causa apenas a aridez dos números, embora os números tenham, por vezes, a brutalidade de um espelho sem complacência. Está em causa a representação. Está em causa a legitimidade. Está em causa, mais fundo ainda, a própria imaginação política de um partido. Uma força que aspira a governar um país inteiro não pode deixar a impressão de que, no momento de distribuir poder efectivo, a mulher continua a surgir como excepção consentida e não como presença normal. A questão não é decorativa. É estrutural. É moral. É estratégica.
Escrevo isto também por memória. Ou, mais exactamente, por lealdade à memória. Lembro-me de como a UNITA, através da LIMA, alterou a vida da minha mãe em 1974. Até então, ela fora sobretudo dona de casa, confinada a esse universo de tarefas incessantes, invisíveis e pouco recompensadas em que tantas mulheres viviam, serviam e desapareciam sem nome público. Ao entrar para a Liga da Mulher Angolana, porém, alguma coisa nela se desprendeu do seu antigo silêncio. A criatividade começou a luzir. A energia encontrou direcção. A pessoa, de certo modo, desabrochou.
Na LIMA havia teatro, havia canções, havia movimento. Havia, sobretudo, aprendizagem em forma de acção. A minha mãe começou a viajar por Angola com figuras como a saudosa Tia Delphina Nenê e com outras mulheres que, naquele espaço, descobriram não apenas uma função partidária, mas uma gramática nova da dignidade. A organização feminina deu-lhes método, linguagem, disciplina, confiança. Por essa via, aprenderam as estruturas da mobilização, os mecanismos da organização e essa arte política, tão decisiva quanto tantas vezes desvalorizada, de fazer descer a mensagem do partido até às massas e de a converter em impulso colectivo.
Mas o tempo, que revela, também corrige as ilusões. Com o correr dos anos, tornou-se evidente o limite desse espaço. A minha mãe, como tantas mulheres da sua geração, bateu contra barreiras académicas, constrangimentos de formação e, acima de tudo, contra essa muralha antiga, resistente e engenhosa a que damos o nome de patriarcado. Podiam trabalhar muito, sacrificar-se muito, mobilizar-se até à exaustão. Mas mandar era outro território. Eram centrais no esforço e marginais na consagração. Faziam mover a máquina, mas quase nunca lhes entregavam o volante.
É aqui que a discussão presente ganha densidade verdadeira. O problema da lista agora divulgada não está apenas em parecer injusta aos olhos de um tempo novo. Está em sugerir que o partido talvez ainda não tenha encontrado forma de romper com um velho reflexo: confiar às mulheres a energia da base e reservar para os homens a arquitectura do comando. Como se a elas coubesse o músculo da lealdade e a eles o desenho da autoridade. Como se mobilizar fosse feminino e mandar continuasse a ser masculino.
Se a UNITA quiser tornar-se uma organização mais moderna e mais fiel à sociedade que diz querer representar, terá de deixar de tratar a presença feminina como questão lateral. Isso começa com compromissos verificáveis: metas claras de representação, mecanismos de correcção, critérios de selecção menos opacos, processos internos menos viciados pelos automatismos do costume. Não basta celebrar a mulher em discursos congressuais, em palavras de circunstância ou em fotografias compostas para consumo interno. É preciso inscrever esse compromisso na sintaxe real do poder partidário.
Seria, porém, ingénuo supor que tudo se resolve com alterações estatutárias. Muitas mulheres politicamente dotadas ficam pelo caminho não por falta de mérito, mas porque a competição interna exige recursos, redes, disponibilidade material e protecção informal de que nem sempre dispõem. Um partido sério, se quiser corrigir isto a sério, terá de apoiar financeiramente quadros femininos, investir de modo consistente na sua formação e assegurar que a progressão interna não dependa apenas desses circuitos masculinos de influência que se reproduzem com a naturalidade quase biológica de um velho hábito.
A organização feminina do partido, por seu turno, não pode continuar reduzida à condição de apêndice útil, chamado a mobilizar, a compor cenários e a emprestar calor humano às campanhas. Tem de possuir poder real. Voz onde se decide. Voto onde se escolhe. Orçamento próprio. Intervenção efectiva na formação das listas e na definição das prioridades. Sem isso, an ala feminina não passa de uma sala de espera elegantemente decorada, mas sem acesso verdadeiro ao coração da casa.
Escrevo esta nota, ainda assim, não para fornecer munições ao habitual pingue-pongue político que tanto empobrece a nossa vida pública. Entre nós, instalou-se um reflexo quase pueril: cada campo entusiasma-se apenas quando vê o adversário alvejado, esquecendo com desconcertante rapidez as próprias misérias. Não é esse o meu propósito. Falo como alguém com raízes na UNITA, alguém cuja história familiar foi tocada, moldada e em certos momentos elevada por essa trajectória política. Não ocupo qualquer cargo no partido. Não ambiciono posto algum. Sou apenas um angolano cuja história foi atravessada pela UNITA e que entende que uma herança política, para ser digna, não deve servir apenas para glorificar o passado, mas também para corrigir o futuro.
Seria uma ironia amarga, quase cruel, que a geração da minha mãe, que tanto deu, tanto percorreu e tanto suportou, tivesse servido apenas para conservar intacta a velha arquitectura masculina do mando. O verdadeiro tributo a essas mulheres não está em evocá-las com ternura cerimonial, nem em enfeitá-las retrospectivamente com palavras de gratidão tardia. Está em garantir que as suas herdeiras políticas possam subir onde elas foram impedidas de subir. Está em transformar memória em reforma. Está em converter gratidão em justiça. Está em fazer do reconhecimento uma redistribuição efectiva de poder.
A lista agora divulgada, por isso, não é apenas uma lista. É um retrato. E o retrato, desta vez, deixou muita gente a perguntar se a UNITA quer realmente preparar o futuro ou se continua, mesmo quando fala de renovação, a administrar os reflexos de um passado excessivamente masculino. Um partido pode pedir ao país que acredite nele. Pode até exigir confiança. Mas convém que mostre, dentro de portas, que sabe reconhecer metade da nação não como plateia, não como força auxiliar, não como retaguarda dócil, mas como poder.
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