Filipe Nunda Quiala, o homem por detrás do imensamente popular podcast Fly Squad, veio recentemente ao Huambo para descerrar uma estátua de si próprio, esculpida por um artista local; e, durante algumas horas, a cidade pareceu suspender o seu ritmo, como se uma mão invisível lhe tivesse tocado de leve na manga. As ruas engrossaram. As cabeças voltaram-se. Homens armados avançaram a passo rápido para abrir caminho ao cortejo, enquanto os carros que o acompanhavam, escuros e imponentes, deslizavam pela multidão com a solenidade própria de um poder em visita.
Mas o entusiasmo não era apenas o de uma cidade diante de uma celebridade chegada de longe, trazida pelo ruído dos motores e pelos vidros fumados. Havia raízes mais fundas. A sua mãe é de Calomanda e, num mundo em que a ascendência não é apenas narrada, mas sentida no íntimo da pertença, o Huambo não o acolhe como um estranho vindo colher aplausos. Recebe-o como alguém que regressa. Os Ovimbundu, com aquela antiga gravidade matrilinear que organiza o seu universo moral, integraram-no no seu próprio sentido de pertença; e há formas de pertença que nenhum gabinete de relações-públicas consegue fabricar.
O povo do Huambo não esquece facilmente o filho da terra que parte para a capital e regressa trazendo o êxito como um estandarte visível. Esta é, afinal, uma terra moldada pela partida e pelo regresso: comerciantes que deixaram o planalto com fome e cálculo e que voltaram com meios, com histórias e com o velho coração ainda a bater sob a camisa. Daí aquele sentimento umbundu profundo (Ombalundu vutima) o Bailundo entendido não como uma inscrição no passaporte nem como uma performance pública, mas como algo que se instala no peito.
O Huambo conhece também o abandono. Sabe o que significa ser rico em talento e pobre em visibilidade. As redes sociais e a televisão raramente se inclinam espontaneamente para o Planalto Central. Preferem a capital mais ruidosa e com mitologias mais fáceis de consumir. No entanto, o Huambo sempre esteve repleto de dons: intelectuais, cómicos, musicais, retóricos; aquelas capacidades raras que costumam nascer nos lugares onde a história foi severa e onde a memória nunca teve o luxo de adormecer. Para um artista do Huambo, ser reconhecido com clareza pelo resto da nação continua a ser tarefa difícil. O talento pode abundar; a circulação é outra história.
É talvez por isso que o Fly Squad se distingue. O seu apresentador possui aquela faculdade mais rara, que nenhum diploma concede. As técnicas podem aprender-se numa sala de aula; o instinto chega antes, instala-se mais fundo e não se ensina. Há homens que passam anos a estudar comunicação e nunca tocam o nervo de um povo. Outros, com uma precisão quase corporal, sabem onde repousa o sentimento antes mesmo de o público o ter nomeado. Não é muito diferente do dom de um grande futebolista. Vinícius Júnior não calcula como calcula uma comissão técnica; pressente o ângulo, lê o espaço impossível e remata. Assim acontece também com certos contadores de histórias: sabem qual o detalhe que viajará, qual a inflexão que transformará o anedótico em acontecimento, qual a ferida que tocará o espírito público.
Mas a verdadeira medida do homem encontra-se noutro lugar; não no cortejo, nem na coreografia do poder que abre caminho entre a multidão. Está dentro daquelas casas modestas a que o Fly Squad entra; nos quintais familiares humildes onde as paredes são simples, o mobiliário escasso e os quartos conservam aquele ar inconfundível de vidas vividas sem ornamento e sem queixa. Ali, ao lado de uma mãe amorosa, de um pai amoroso, de irmãos cuja afeição não foi polida para espectáculo, vê-se algo que nenhuma máquina de publicidade consegue imitar.
Quando rezam, porque o Fly Squad está entre eles, não se trata da oração leve da cerimónia. É uma oração que sobe das costelas. Uma oração que treme, que transporta lágrimas. Porque não se sentem apenas visitados; sentem-se abençoados; não no sentido moderno e banal da palavra, que muitas vezes serve apenas de disfarce para a ostentação, mas naquele sentido mais antigo em que gratidão e espanto se misturam até a própria linguagem vacilar.
Em Angola, como em qualquer parte do mundo, a celebridade chega frequentemente envolta em altivez e nas pequenas crueldades da auto-importância. O talento pode transformar-se numa febre que afasta o homem das suas origens e o ensina a desprezar o pó de onde brotou. Mas há outros, mais raros e mais convincentes, em quem o dom permanece ancorado na humildade. Veio de baixo e não esqueceu o baixo. Subiu e não permitiu que a ascensão o falsificasse. Carrega consigo a consciência de que os seus dons lhe foram confiados: outorgados, emprestados por Deus para um propósito maior do que o aplauso. As Escrituras recordam, com a sua antiga severidade, que a quem muito foi dado muito também será exigido. Possuir um dom e, ainda assim, ajoelhar-se diante de quem o concedeu é compreender algo que muitos homens celebrados jamais chegam a aprender.
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