Nossos Generais…



Muitos angolanos interrogam-se sobre a razão por que, nos debates da comunicação social pública, quase nunca vemos generais angolanos a intervir como comentadores militares, à semelhança do que sucede em Portugal ou no Brasil. No caso brasileiro, a diferença chega, por vezes, a adquirir um recorte quase cénico: oficiais na reserva surgem diante de mapas, gráficos e ecrãs luminosos, destrinçam cenários, explicam opções tácticas e projectam aquela autoridade visual que a televisão, com a sua velha astúcia, sabe converter em prestígio e credibilidade.


A explicação, porém, não reside em qualquer insuficiência natural dos generais angolanos. A causa é mais antiga, mais estrutural e, num certo sentido, mais angolana. As Forças Armadas não foram concebidas como uma instituição profissional voltada para o exterior, preparada para produzir analistas públicos da guerra. Foram moldadas, antes de mais, pela luta de libertação e, mais tarde, pela longa e devastadora guerra civil. Nesse universo, as promoções premiavam a lealdade em campanha, a capacidade de movimentar homens em terrenos duríssimos, a resistência física e moral, e a utilidade política do oficial. Não se procuravam pensadores de estúdio; procuravam-se homens aptos a comandar no mato e a apresentar resultados no terreno.


Essa matriz deixou marcas fundas. Um exército forjado mais pela ideologia e pela conveniência política do que por uma cultura profissional aberta tenderá, naturalmente, a sentir-se mais à vontade com a táctica e a logística do que com a reflexão estratégica em praça pública. Comentar, com verdadeira autoridade, uma guerra no Médio Oriente exige competências que o sistema angolano não priorizou de modo continuado: domínio de línguas, conhecimento de doutrina comparada, familiaridade com operações de coligação, compreensão do regime de sanções e sensibilidade para os mecanismos da guerra informacional. Não basta ter conhecido o combate; é necessário saber converter a experiência militar numa linguagem inteligível para um debate global.


A ausência dos generais dos nossos estúdios é, por isso, o sintoma de dois problemas mais profundos. O primeiro é a persistente politização do sector da segurança. Durante muito tempo, o verdadeiro auditório do oficial não foi o público, mas a Presidência. Numa cultura dessa natureza, a iniciativa em matéria de comunicação pública não surge como virtude, mas como risco. Um general que improvise, em directo, sobre o Irão ou sobre Gaza pode ser visto não como intelectualmente ousado, mas como alguém que se adianta, de forma imprudente, em matéria de política externa. O silêncio transforma-se, assim, numa modalidade de prudência institucional.


O segundo problema prende-se com os limites da própria profissionalização militar. Desde o fim da guerra civil, muito se falou de reforma; investiu-se, contudo, muito menos naquilo a que se poderia chamar o lado invisível dessa profissionalização: formação sólida em línguas, debate doutrinário aberto, preparação de estado-maior que vá além da táctica elementar e, sobretudo, uma cultura institucional que valorize o pensamento crítico em vez da obediência maquinal.


Seria, ainda assim, injusto deter a análise neste ponto, como se a instituição estivesse condenada a repetir-se indefinidamente. A questão central não é apenas perceber por que motivo os nossos generais não comentam Gaza; é, acima de tudo, perguntar que tipo de exército Angola pretende ter nos próximos trinta anos. Se quisermos uma força fechada sobre si mesma, reduzida à condição de mero instrumento táctico de estabilidade do regime, então o silêncio actual é coerente. Mas, se quisermos uma instituição capaz de contribuir para o debate nacional e para a diplomacia regional, será necessário edificar outra ideia de profissionalismo.


Um exército moderno já não se mede apenas pela sua capacidade de combate; mede-se também pela aptidão para servir o Estado no ponto em que segurança, ciência, logística e interesse público se entrecruzam. Num país vasto e marcado por carências imensas no plano sanitário, a formação de quadros ligados à saúde pode adquirir uma relevância verdadeiramente estratégica. A instituição militar pode servir não apenas com armas, mas também com organização, mobilidade, disciplina operacional e capacidade de resposta em contextos de emergência nacional.

Do mesmo modo, a entrada de oficiais formados em relações internacionais, ciência política e sociologia pode alargar o horizonte intelectual da caserna. E a presença crescente de mulheres jovens nas forças armadas, se as estruturas institucionais lhes permitirem ascender por mérito, poderá transformar não apenas a composição social do exército, mas a própria textura da sua cultura interna. Uma instituição que acolhe novos percursos, novas competências e novas sensibilidades tende, com o tempo, a produzir um comando menos fechado e uma linguagem menos estreita.

Nada disso acontecerá por geração espontânea. Será um processo lento, exigente e, por vezes, ingrato. Será necessário criar espaços em que especialistas civis e militares se encontrem, se escutem e se testem intelectualmente. Será necessário, também, proteger uma esfera pública que trate a segurança não como assunto interdito, mas como matéria legítima de debate. Haverá, sobretudo, que aceitar uma verdade simples, mas severa: no mundo actual, já não basta um oficial que saiba ler um mapa; é preciso um oficial que saiba ler o mundo.


Dizer isto não é diminuir os generais angolanos da velha guarda. Muitos deles foram homens de campanha, treinados para a discrição funcional, moldados para obedecer, comandar e sobreviver em circunstâncias extremas. O erro estaria em transformar essa formação histórica num destino eterno. Se a transformação institucional avançar, Angola poderá começar a produzir comentadores militares credíveis não apenas para consumo doméstico, mas também para o espaço internacional. Nesse dia, começaremos a escutar vozes angolanas capazes de explicar os conflitos do mundo com autoridade própria, experiência própria e linguagem própria; e o silêncio dos generais deixará de ser um traço de sistema para passar a ser apenas a memória de outro tempo.


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Sousa Jamba 

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